Os serpentinos braços do Santo Ofício na capitania do Espírito Santo

Luiz Guilherme Santos Neves

Quão longo quanto o braço da Santa Igreja Católica na propagação do catolicismo em terras do Brasil Colonial foi também o sombrio e serpentino braço do Santo Ofício no alcance das heresias e outras formas de condutas consideradas anticristãs e, como tal, ferreamente reprimidas pela Igreja. Leia

 

As montanhas da Lua, de Samuel Duarte: espaço, tempo e memória nos caminhos de Ariel

Ester Abreu Vieira de Oliveira

Samuel Duarte, nos 60 capítulos, distribuídos em dois volumes, de As montanhas da Lua (Cachoeiro de Itapemirim: Gracal Gráfica Editora, 1982), engendra a personagem Ariel, idealista, imaginativo, íntegro, corajoso, grande leitor, que procura descobrir um enigma de sua existência. Nessa busca esse ser vai captar a sua história ancestral ao mesmo tempo em que amplia, mediante o enigma do tempo, a história da humanidade, do Brasil e, principalmente, do sul do Estado do Espírito Santo. Contudo, sua inquietação não se limita à questão do tempo proustiano da busca pessoal, na memória pessoal, ao contrário, ele amplia o horizonte para o enigma do tempo coletivo, do tempo que gira para olhar o passado, para captar o mistério de sua própria história. Leia

 

O olhar daquela menina

Anaximandro Amorim

Márcio Seligmann-Silva, professor e pesquisador da Unicamp e um dos grandes teóricos da questão da memória dentro do campo literário, assevera, em artigo sobre o tema, que “[o] teor de irrealidade é sabidamente característico quando se trata da percepção da memória do trauma”. Eis, portanto, a sentença: não há testemunho sem dor. Assim é com obras já canônicas, tanto da literatura universal quanto brasileira: O diário de Anne Frank; É isto um homem, Primo Levi; Quarto de despejo, Carolina Maria de Jesus; e Nerina: Relatos de uma vida, autobiografia da autora ítalo-capixaba Nerina Bortoluzzi Herzog, uma sobrevivente da II Guerra Mundial que, além de narrar seu testemunho de vida, tão imbricado com a Guerra, também levanta questões ontológicas, identitárias e, em última análise, humanitárias. Leia

 

Wilson Coêlho: um diabo no paraíso

Gilbert Chaudanne

Nesse livro, NOSOTROS, Wilson Coêlho representa ou apresenta uma face diferente de tudo o que escreveu até agora. Seus livros tinham um caráter dionisíaco. Aqui é um pouco diferente, se trata de uma espécie de testemunha de sua viagem à Cuba; ele não é o que sai da boca de Wilson Coêlho (Deixem-me Falar), mas o próprio país (Cuba) e o autor faz um trabalho de pesquisador. Ele olha a realidade de Cuba sem preconceito contra ou a favor. Wilson Coêlho se deixou levar pelo coração quando ele vê a condição das crianças. Dá a impressão de que temos um país que sobrevive apesar do “blocus continental” orquestrado pelo “Tio Sam” (desde que os USA boicotaram a Ilha) e Wilson Coêlho nos mostra que Cuba não é um país de delírio como a Coreia do Norte. Também não corteja os países dito ricos, e tem um vizinho que manda e desmanda no mundo. Leia

 

Uma luneta irônica e perscrutadora

Luiz Guilherme Santos Neves

Com o título de “De ‘Oh, Suzana’ a Luz em Agosto, referi-me, nestes Fatos e Coisas criados pelo escritor Pedro J. Nunes, à passagem em 1851, pelo Espírito Santo, do aspirante de marinha Edward Wilberforce, a bordo da corveta inglesa Geyser, na repressão aos navios que contrabandeavam escravos no litoral brasileiro. 

Se retorno à luneta de Wilberforce é para assinalar o tom irônico de algumas de suas observações no relato de viagem que ele escreveu, tom para o qual chamei a atenção no meu texto anterior sem, todavia, maiores esmiuçamentos. Leia

 

Prefácio

Tavares Bastos

Em pleno Renascimento, no limiar deste mesmo século, onde eram, aqui e ali, erguidas as últimas catedrais góticas no norte da França, com suas torres pontudas, em um outro hemisfério, até então habitado por tribos selvagens aparentadas com os povos mais longínquos do período para-asiático, os atos mais simples, os gestos mais normais de alguns europeus ali chegados tornar-se-iam de um significado insuspeito para a História daquelas terras distantes. (Tradução Anaximandro Amorim) Leia

 

A esquisita campanha contra a "AIDS"

Essa campanha publicitária contra a AIDS (síndrome de deficiência imunológica adquirida), que sempre acha hora e lugar entre as caríssimas programações de televisão, em todos os canais, me parece muito esquisita, para dizer o menos.

Afinal, o que é que desejam os promotores dessa campanha toda?

Em 1968, o mundo recebeu o choque de um novo comportamento social dos jovens, sob o lema “faça amor, não faça guerra”. Mas amor não dá lucros imediatos aos ávidos senhores do chamado complexo industrial-militar, nem aqui, nem nos States, nem na URSS, nem em parte alguma; o que “dá dinheiro”, mesmo, é armamento... Leia

 

Publicações capixabas coletivas

Pedro J. Nunes

As antologias entraram na história das publicações capixabas há 162 anos quando, no Ano da Graça de 1856, José Marcelino Pereira de Vasconcelos organizou a primeira coletânea reunindo escritores capixabas, o Jardim poético ou coleção de poesias antigas e modernas, compostas por naturais da província do Espírito Santo. Quatro anos depois, em 1860, viria a público o segundo volume. José Marcelino demonstrava conhecer o valor do que estava fazendo, consciente do futuro que sobreviria à sua antologia, mas revelava dificuldades na sua organização, quando, no prólogo, escrevia: “Um serviço importante presto nesta publicação à minha província; mas só o reconhecerão, depois que decorrerem séculos”. De fato, sendo a primeira, e numa terra cheia de dificuldades para a edição de um livro, não é difícil prever as dificuldades que ele enfrentou. Mas é inegável que, graças a seu esforço, preservou-se até nossos dias a memória de vários intelectuais e escritores que, de outra forma, teriam sido consumidos pela fumaça impiedosa do esquecimento. Leia

 

A biblioteca sobre o mar

Em 14 de março de 2019 a atual sede da Biblioteca Pública do Espírito Santo fez 40 anos. Rogério Coimbra relembra a data com sua palestra "A biblioteca sobre o mar", dentro da programação de "A máquina de escrever", um projeto de Sérgio Blank. Assista ao vídeo ou leia o texto original de Rogério Coimbra.

 

O neobarroco em Aninhanha

Josina Nunes Drumond

aninhanha

Neste trabalho, pretendemos percorrer algumas trilhas neobarrocas da obra Aninhanha, de Pedro José Nunes. Seguiremos traços conceituais, atentos à imponência do caminho e às flores que o bordejam: trata-se de figuras de estilo e de recursos estilísticos que embelezam a composição do ramalhete. Restringimo-nos à colheita das flores que enfeitam barrocamente as inúmeras sendas que se dispõem diante de nós. Tropeçamos em hibridismos linguísticos, escorregamos em distorções sintáticas, mas percorremos prazerosamente as trilhas que conduzem ao objetivo proposto. Devido à polissemia da obra, deparamos com inúmeras possibilidades de atalhos, nos quais corremos o risco de nos perder antes de retomar o caminho principal. Às vezes ficamos desnorteados diante de uma escritura labiríntica, fragmentária e hermética. Escolhemos apenas algumas “trilhas mais batidas”, ou seja, mais recorrentes e/ou relevantes, segundo nossa leitura, que, como toda leitura, é incompleta e lacunar. Leia

 

Contos de um capixaba espelhados na arte narrativa de Rubén Dario e Jorge Luiz Borges

Ester Abreu Vieira de Oliveira

Há, em uma obra de arte, uma integração com as outras obras do universo literário. O estado de legibilidade está no agrupamento da repetição, o que Julia Kristeva denomina “intertextualidade”. E, como é dentro de um sistema que se pode compreender melhor uma criação, juntamos aqui um terceto de escritores latino-americanos no gênero narrativo, reunidos não por usarem o mesmo código linguístico, mas por terem particularidades formais e temáticas semelhantes. Dois deles mundialmente conhecidos, o nicaraguense Rubén Darío e o argentino Jorge Luis Borges e um pertencente à literatura periférica, a do Espírito Santo, Luis Guilherme Santos Neves. Este último seleciona motivos de Borges e os (re)escreve. Porém, no entrecruzar das semelhanças e diferenças, apresenta-nos um texto original. A sua dívida aos dois escritores latino-americanos advém não da intenção de dependência cultural ou de um desejo de mutilação, mas de um diálogo declaradamente expresso com o argentino. Nele, via literariamente histórica, o horizonte periférico se estende até o escritor nicaraguense, impregnado de ideologia colonizadora. Com a técnica de reescrever Borges, o capixaba identifica-se, via Darío, com o universal. Dilacerando uma escritura, afirma a sua. Leia

 

Memória das cinzas

Luiz Guilherme Santos Neves

Livro integral

A substância deste romance é o sonho – e de qual romance não seria? Aliás, como é a da vida: “vida é sonho”. Sonho imemorial, sonhado por homens e artistas – a busca da transcendência. Buscamos constantemente nos elevar acima da nossa vida cotidiana por sabê-la limitada, provisória, suspensa por parco fio que um dia a Parca Átropos, a Inflexível, cortará. Nesse sentido podemos entender a máxima “vida breve, arte longa”: a existência individual passa rápido, mas a arte, se possuir valor estético e for compartilhada socialmente, costuma ter duração bem maior. (Fernando Achiamé) Leia

 

Tavares Bastos: o embaixador da poesia brasileira na França

Anaximandro Amorim

Antonio Dias Tavares Bastos. Certamente, você nunca ouviu falar nesse nome. Sinceramente, nem eu, há algum tempo. Engolido pela poeira da História, deparei-me com o nome de Tavares Bastos, pela primeira vez, lendo o “Mapa da Literatura Brasileira produzida do Espírito Santo”, do escritor Reinaldo Santos Neves, publicado no site “Estação Capixaba”. Desde então, luto para fazer o nome de Bastos reluzir novamente. Leia

 

Recordações do futebol de Vitória

Ivan Borgo

Livro integral

Ivan Borgo diz que Recordações do futebol de Vitória é um livro impressionista. Garante que o futebol é apenas um pano de fundo, cenário que serviu para desfiar as recordações de uma Vitória nos anos 50/60, hoje quase mítica. Estou certo de que a maior parte dos leitores desta 3ª edição do livro ainda não havia desembarcado nesse “vale de lágrimas” quando Ivan começava a frequentar, lá em Jucutuquara, o estádio Governador Bley em busca das emoções que só aquele futebol, e o amado Rio Branco A.C., poderiam imprimir no coração de um jovem aprendiz de humanidades. Então, leitores, aproveitem, porque parte disso está gravado em preto e branco nas páginas deste livro, mais que impressionista, impressionante! Boa Leitura. (Caco Appel) Leia

 

160 anos de história: Biblioteca Pública do Espírito Santo

Vários autores

Livro integral

Na organização desta obra, que reúne escritores, professores e bibliotecários, escrevem as organizadoras: "Cabe-nos apresentar, nesta coletânea, uma síntese dos princípios que nortearam a Política de Preservação de Acervos da Biblioteca Pública do Espírito Santo, cujas ações têm sido decisivas para a consolidação da instituição não apenas como guardiã de um importante patrimônio do povo espírito-santense, mas também como referência local e nacional de sua memória e de sua identidade. Nessas ações assentam-se as bases de uma política cultural de valorização do conhecimento, da ciência e das artes voltada para o cumprimento de sua função social, qual seja a de assegurar acesso à informação e ao conhecimento para todos e contribuir para formar cidadãos mais críticos e qualificados para a vida em sociedade." Leia

 

A série Letras Capixabas: uma contextualização

Francisco Aurélio Ribeiro

Quero começar a contextualização da série Letras Capixabas pelas afirmações de Hallewell a respeito da situação do livro no Espírito Santo, neste século, para que melhor se vislumbre a situação de penúria e miséria editorial neste Estado até a criação da editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida-UFES, em novembro de 1978, cujos objetivos gerais eram “a redução do grande vazio editorial capixaba, publicando obras que venham enriquecer o patrimônio científico e cultural do Espírito Santo”. Leia

 

O assunto não é de hoje. Há 162 anos, ou seja, em 1856, ao apresentar a primeira antologia de que se tem notícia em terras capixabas, o Jardim poético ou coleção de poesias antigas e modernas, compostas por naturais da província do Espírito Santo, José Marcelino Pereira de Vasconcelos já conhecia as dificuldades em torno do livro, quando diz: “Um serviço importante presto nesta publicação à minha província; mas só o reconhecerão, depois que decorrerem séculos”. O assunto é a estrela de quase todos os encontros literários que se promovem de norte a sul. Newton Braga e Renato Pacheco, cada um a seu modo e a seu tempo, pensaram a respeito, e pensaram por escrito. Se a questão do livro é grave, conhecer a situação de outras épocas e confrontá-la com a nossa própria pode ser um bom ponto de partida para a busca de soluções. Por isso indicamos os artigos dos dois conhecidos escritores capixabas que legaram-nos suas reflexões a respeito.

Nem pro gasto, Newton Braga

Introdução à história do livro capixaba, Renato Pacheco

 

Roberto Almada

Ester Abreu

Roberto Almada (1935-1994), professor, crítico literário, dramaturgo, contista, romancista e poeta, nos deixou, também, comentários jornalísticos. Alguns de seus livros continuam inéditos. Em 1985, ganhou o Prêmio “Geraldo Costa Alves” com a obra O País d’el Rey & a casa imaginária, publicada, no ano seguinte, em 1986, pela FCAA-UFES.

Almada era escritor, mas um bom leitor. Apreciava os escritores ingleses, franceses e os hispânicos. Leia

 

Biblioteca Pública do Espírito Santo

Faça um passeio pela Biblioteca Pública do Espírito Santo com este vídeo produzido por Pedro J. Nunes, escritor residente da BPES. Assista

Colunas

 

Textos mais recentes

O fantasma e as fontes do Parque Moscoso

Numa rápida passagem pelo Parque Moscoso eu dei uma assentada num dos bancos da Concha Acústica quando me surgiu o fantasma do centro histórico de Vitória pondo-se a dançar freneticamente no palco cimentado à minha frente com saltos bailarinos de causar inveja ao soviético Rudolf Nureyev. Enquanto dançava com agilidade fantasmagórica, esticava os braços por cima da cabeça batendo as mãos uma contra a outra como se quisesse estalá-las, curvava-se elasticamente até quase botar o nariz no chão e ria, ria esgares medonhos de serem vistos. De repente, estacou no ar a dois palmos do solo, olhou-me seriamente com os olhos embaçados e remelentos de terra, e, para meu espanto, explicou: “Estou dançando ao som da parte mais intensa da Dança dos Sabres, de Aram Khachaturian, que ouço mentalmente: tantantantantantantantantatantant-aaaan... Quer dançar comigo?”

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Um olhar

O olhar da minha nonna quando eu tinha cinco ou seis anos é um velho tesouro que guardo comigo. Seria bem mais pobre se não pudesse contar com o estoque de ternura que essa avozinha italiana depositou em minha sensibilidade. Ela era pequenina, vestia uma roupa simples de camponesa com a saia quase arrastando no chão e usava um lenço branco na cabeça.

Nas festas de São Miguel colocava um lenço estampado de seda e isso era o máximo de vaidade que se permitia. Mas em compensação seu olhar era puro luxo. Havia nele uma sombra nostálgica, mas sobretudo era um olhar inteligente que chegava a mim com a marca da compreensão irrestrita.

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Aeroportos

Aeroportos sempre me evocam uma lembrança triste, como a de certa feita, anos atrás, quando após passar dez dias a trabalho no Nordeste, não encontrei a festa dos que aguardam no saguão de desembarque a chegada de alguém. Não vale a pena retornar se não há quem nos espere. Nada há mais triste do que tomar um táxi no aeroporto a caminho do nada. Melhor seria, certamente, virar nos calcanhares e tomar um voo para qualquer destino. Um olhar vazio combina com qualquer lonjura.

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