Por baixo da pele fria, de Caê Guimarães: Ninguém está salvo do sangue e do suor das palavras

Renan Peres

Desde o início, o verso "Somente aos olhos é permitido tocar a distância" anuncia a visão do poeta de um mundo que se desfaz enquanto apenas os elementos perenes do corpo e da vida permanecem. O virar das páginas nos apresenta a um universo de corpos em constante desintegração, enfatizando, sempre, elementos que, como a língua epigrafada de Ferlinghetti, transcendem: "É a louca anatomia, / que me faz ser todo coração".

Leia

 

O Breviário e sua liturgia: considerações sobre o livro de poemas O breviário do silêncio

Andréa Gimenez Mascarenhas

No prefácio do livro, assinado pela escritora Bernadette Lyra, já se antevê um pouco do que vai se descortinando aos sentidos do leitor enquanto adentra nos poemas deste Breviário.

Estamos diante de poemas ligados aos mínimos movimentos da existência versados em palavras que se materializam com simplicidade e clareza, porém que traçam brechas e provocam rasgos na estabilidade monótona de qualquer déjà vu. (Bernadette Lyra)

Leia

 

Para maior glória de Deus?

Luiz Guilherme Santos Neves

A história do Brasil se fez com sangue e morticínio, ou não seria História.

Desde a chegada do colonizador português às terras do pau-brasil, nos primeiros embates travados com os nativos da terra já se prenunciava o intenso derramamento de sangue que viria nos capítulos seguintes da dominação lusitana. 

Tome-se por referência a pregação do Cristianismo com o propósito da conversão e salvação dos índios brasileiros que se exteriorizou numa cruzada bélica contra os que não se submetiam à catequese jesuítica.

Leia

 

Prefácio

Tavares Bastos

Em pleno Renascimento, no limiar deste mesmo século, onde eram, aqui e ali, erguidas as últimas catedrais góticas no norte da França, com suas torres pontudas, em um outro hemisfério, até então habitado por tribos selvagens aparentadas com os povos mais longínquos do período para-asiático, os atos mais simples, os gestos mais normais de alguns europeus ali chegados tornar-se-iam de um significado insuspeito para a História daquelas terras distantes. (Tradução Anaximandro Amorim)

Leia

 

A vida secreta da gente

Marcela Guimarães Neves

“A vida, meu amor, é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz”. O trecho do livro A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, cabe à perfeição como moldura para a obra A vida secreta da gente, da escritora Maria Sanz Martins.

Maria Sanz seduz. E, como gosta de dizer, o faz da forma mais “sabida”, qual seja, com doçura. Ler as crônicas dessa autora é como saborear aquele doce requintado guardado para uma ocasião especial, ou ainda, como abrir uma caixa de bombons finos, em algum canto onde ninguém possa nos perturbar, para desfrutá-los sossegadamente. Enfim, é puro deleite.

Leia

 

 

A esquisita campanha contra a "AIDS"

Essa campanha publicitária contra a AIDS (síndrome de deficiência imunológica adquirida), que sempre acha hora e lugar entre as caríssimas programações de televisão, em todos os canais, me parece muito esquisita, para dizer o menos.

Afinal, o que é que desejam os promotores dessa campanha toda?

Em 1968, o mundo recebeu o choque de um novo comportamento social dos jovens, sob o lema “faça amor, não faça guerra”. Mas amor não dá lucros imediatos aos ávidos senhores do chamado complexo industrial-militar, nem aqui, nem nos States, nem na URSS, nem em parte alguma; o que “dá dinheiro”, mesmo, é armamento...

Leia

 

Uma terra de muitas realezas

Luis Guilherme Santos Neves

“E, portanto, senhor, do que hei de falar começo e digo” – invoco Pero Vaz de Caminha na carta que escreveu ao rei de Portugal narrando o Descobrimento do Brasil.

Mas não será esta uma narrativa com revelações inéditas, apesar de, ao contrário da missiva do escrivão da frota de Cabral, tratar-se aqui de um punhado de informações que nunca é demais repetir. Até porque implica falar de realezas, como deixa explícito o título que encabeça o texto e conforme se lerá no que se segue.

Aconchegada entre montanhas no sul do Estado do Espírito Santo situa-se Muqui que, antes de ser cidade, era Arraial dos Lagartos. Pelo nome que tinha ainda não chegara ao tempo do esplendor das realezas. Foi com o advento da cultura cafeeira, a partir do século XIX, espalhando-se em torno do antigo arraial, que o lugar passou a ser Muqui, adquirindo grandeza econômica, sem perder, todavia, as características de cidade pequena, que conserva até hoje.

Leia

 

A capixabíssima muma de siri

Fernando Achiamé

A palavra “muma” e a expressão “muma de siri” não constam dos dicionários. Nem do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa – o VOLP, elaborado e mantido pela Academia Brasileira de Letras. Tal realidade se constitui em mais um indício de que essa palavra tem circulação restrita a certas regiões do Estado do Espírito Santo. Esperamos que um dia o vocábulo “muma” esteja dicionarizado. No entanto, os capixabas do litoral, ao menos os que saboreiam as receitas típicas da nossa culinária, sabem muito bem o que significa muma de siri – um delicioso prato. Feito à base de fruto do mar, seu consumo no tempo da Quaresma é mais corriqueiro.

Leia

 

Publicações capixabas coletivas

Pedro J. Nunes

As antologias entraram na história das publicações capixabas há 162 anos quando, no Ano da Graça de 1856, José Marcelino Pereira de Vasconcelos organizou a primeira coletânea reunindo escritores capixabas, o Jardim poético ou coleção de poesias antigas e modernas, compostas por naturais da província do Espírito Santo. Quatro anos depois, em 1860, viria a público o segundo volume. José Marcelino demonstrava conhecer o valor do que estava fazendo, consciente do futuro que sobreviria à sua antologia, mas revelava dificuldades na sua organização, quando, no prólogo, escrevia: “Um serviço importante presto nesta publicação à minha província; mas só o reconhecerão, depois que decorrerem séculos”. De fato, sendo a primeira, e numa terra cheia de dificuldades para a edição de um livro, não é difícil prever as dificuldades que ele enfrentou. Mas é inegável que, graças a seu esforço, preservou-se até nossos dias a memória de vários intelectuais e escritores que, de outra forma, teriam sido consumidos pela fumaça impiedosa do esquecimento. Leia

 

A biblioteca sobre o mar

Em 14 de março de 2019 a atual sede da Biblioteca Pública do Espírito Santo fez 40 anos. Rogério Coimbra relembra a data com sua palestra "A biblioteca sobre o mar", dentro da programação de "A máquina de escrever", um projeto de Sérgio Blank. Assista ao vídeo ou leia o texto original de Rogério Coimbra.

 

O neobarroco em Aninhanha

Josina Nunes Drumond

aninhanha

Neste trabalho, pretendemos percorrer algumas trilhas neobarrocas da obra Aninhanha, de Pedro José Nunes. Seguiremos traços conceituais, atentos à imponência do caminho e às flores que o bordejam: trata-se de figuras de estilo e de recursos estilísticos que embelezam a composição do ramalhete. Restringimo-nos à colheita das flores que enfeitam barrocamente as inúmeras sendas que se dispõem diante de nós. Tropeçamos em hibridismos linguísticos, escorregamos em distorções sintáticas, mas percorremos prazerosamente as trilhas que conduzem ao objetivo proposto. Devido à polissemia da obra, deparamos com inúmeras possibilidades de atalhos, nos quais corremos o risco de nos perder antes de retomar o caminho principal. Às vezes ficamos desnorteados diante de uma escritura labiríntica, fragmentária e hermética. Escolhemos apenas algumas “trilhas mais batidas”, ou seja, mais recorrentes e/ou relevantes, segundo nossa leitura, que, como toda leitura, é incompleta e lacunar. Leia

 

Contos de um capixaba espelhados na arte narrativa de Rubén Dario e Jorge Luiz Borges

Ester Abreu Vieira de Oliveira

Há, em uma obra de arte, uma integração com as outras obras do universo literário. O estado de legibilidade está no agrupamento da repetição, o que Julia Kristeva denomina “intertextualidade”. E, como é dentro de um sistema que se pode compreender melhor uma criação, juntamos aqui um terceto de escritores latino-americanos no gênero narrativo, reunidos não por usarem o mesmo código linguístico, mas por terem particularidades formais e temáticas semelhantes. Dois deles mundialmente conhecidos, o nicaraguense Rubén Darío e o argentino Jorge Luis Borges e um pertencente à literatura periférica, a do Espírito Santo, Luis Guilherme Santos Neves. Este último seleciona motivos de Borges e os (re)escreve. Porém, no entrecruzar das semelhanças e diferenças, apresenta-nos um texto original. A sua dívida aos dois escritores latino-americanos advém não da intenção de dependência cultural ou de um desejo de mutilação, mas de um diálogo declaradamente expresso com o argentino. Nele, via literariamente histórica, o horizonte periférico se estende até o escritor nicaraguense, impregnado de ideologia colonizadora. Com a técnica de reescrever Borges, o capixaba identifica-se, via Darío, com o universal. Dilacerando uma escritura, afirma a sua. Leia

 

Memória das cinzas

Luiz Guilherme Santos Neves

Livro integral

A substância deste romance é o sonho – e de qual romance não seria? Aliás, como é a da vida: “vida é sonho”. Sonho imemorial, sonhado por homens e artistas – a busca da transcendência. Buscamos constantemente nos elevar acima da nossa vida cotidiana por sabê-la limitada, provisória, suspensa por parco fio que um dia a Parca Átropos, a Inflexível, cortará. Nesse sentido podemos entender a máxima “vida breve, arte longa”: a existência individual passa rápido, mas a arte, se possuir valor estético e for compartilhada socialmente, costuma ter duração bem maior. (Fernando Achiamé) Leia

 

Tavares Bastos: o embaixador da poesia brasileira na França

Anaximandro Amorim

Antonio Dias Tavares Bastos. Certamente, você nunca ouviu falar nesse nome. Sinceramente, nem eu, há algum tempo. Engolido pela poeira da História, deparei-me com o nome de Tavares Bastos, pela primeira vez, lendo o “Mapa da Literatura Brasileira produzida do Espírito Santo”, do escritor Reinaldo Santos Neves, publicado no site “Estação Capixaba”. Desde então, luto para fazer o nome de Bastos reluzir novamente. Leia

 

Do que eu falo quando falo sobre a escrita

Eduardo Madeira

Em diálogo com Ernesto Sábato, Borges afirma, referindo-se ao fato de que o Dom Quixote é muito mais do que uma sátira contra o romance de cavalaria, assim: “Se ao final, quando termina a obra, o autor pensa que fez o que tinha se proposto, a obra não vale nada”. A frase diz respeito ao processo de criação de um texto literário que, certamente, deve partir de um planejamento, um roteiro, uma pesquisa, mas seu autor também deve permitir que o processo em si o leve a caminhos nunca dantes navegados, que seu processo lance luz sobre o desconhecido, que ele surpreenda a si mesmo e que não se torne refém do próprio discurso. Leia

 

Recordações do futebol de Vitória

Ivan Borgo

Livro integral

Ivan Borgo diz que Recordações do futebol de Vitória é um livro impressionista. Garante que o futebol é apenas um pano de fundo, cenário que serviu para desfiar as recordações de uma Vitória nos anos 50/60, hoje quase mítica. Estou certo de que a maior parte dos leitores desta 3ª edição do livro ainda não havia desembarcado nesse “vale de lágrimas” quando Ivan começava a frequentar, lá em Jucutuquara, o estádio Governador Bley em busca das emoções que só aquele futebol, e o amado Rio Branco A.C., poderiam imprimir no coração de um jovem aprendiz de humanidades. Então, leitores, aproveitem, porque parte disso está gravado em preto e branco nas páginas deste livro, mais que impressionista, impressionante! Boa Leitura. (Caco Appel) Leia

 

160 anos de história: Biblioteca Pública do Espírito Santo

Vários autores

Livro integral

Na organização desta obra, que reúne escritores, professores e bibliotecários, escrevem as organizadoras: "Cabe-nos apresentar, nesta coletânea, uma síntese dos princípios que nortearam a Política de Preservação de Acervos da Biblioteca Pública do Espírito Santo, cujas ações têm sido decisivas para a consolidação da instituição não apenas como guardiã de um importante patrimônio do povo espírito-santense, mas também como referência local e nacional de sua memória e de sua identidade. Nessas ações assentam-se as bases de uma política cultural de valorização do conhecimento, da ciência e das artes voltada para o cumprimento de sua função social, qual seja a de assegurar acesso à informação e ao conhecimento para todos e contribuir para formar cidadãos mais críticos e qualificados para a vida em sociedade." Leia

 

A série Letras Capixabas: uma contextualização

Francisco Aurélio Ribeiro

Quero começar a contextualização da série Letras Capixabas pelas afirmações de Hallewell a respeito da situação do livro no Espírito Santo, neste século, para que melhor se vislumbre a situação de penúria e miséria editorial neste Estado até a criação da editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida-UFES, em novembro de 1978, cujos objetivos gerais eram “a redução do grande vazio editorial capixaba, publicando obras que venham enriquecer o patrimônio científico e cultural do Espírito Santo”. Leia

 

O assunto não é de hoje. Há 162 anos, ou seja, em 1856, ao apresentar a primeira antologia de que se tem notícia em terras capixabas, o Jardim poético ou coleção de poesias antigas e modernas, compostas por naturais da província do Espírito Santo, José Marcelino Pereira de Vasconcelos já conhecia as dificuldades em torno do livro, quando diz: “Um serviço importante presto nesta publicação à minha província; mas só o reconhecerão, depois que decorrerem séculos”. O assunto é a estrela de quase todos os encontros literários que se promovem de norte a sul. Newton Braga e Renato Pacheco, cada um a seu modo e a seu tempo, pensaram a respeito, e pensaram por escrito. Se a questão do livro é grave, conhecer a situação de outras épocas e confrontá-la com a nossa própria pode ser um bom ponto de partida para a busca de soluções. Por isso indicamos os artigos dos dois conhecidos escritores capixabas que legaram-nos suas reflexões a respeito.

Nem pro gasto, Newton Braga

Introdução à história do livro capixaba, Renato Pacheco

 

José Carlos Oliveira em cinco crônicas

José Irmo Gonring

José Carlos Oliveira, em 1968, escrevia seis crônicas por semana. Deve ter ido muitas vezes solteiro para a cama. Assim, a gente lê os textos daquele ano e tenta classificar, por mês, os melhores, os piores (tarefa difícil) e os mais jornalísticos (alguém inventou que “crônica é jornalismo e literatura”).

Para que isso? Para destravar a criação da turma. Para mostrar que esses textos são quase que um diário, que tudo pode ser assunto, de dentro ou de fora de si. E que nem todos os dias são de “inspiração”. Entendemos ser bom mostrar também as rasuras, em vez de “as melhores de fulano”, “as cem melhores do Brasil”. (Os textos escritos em 1968 foram recolhidos no livro póstumo “Diário da Patetocracia”, editora Graphia).

A mocidade com quem trabalho passa a conhecer e curtir “Carlinhos”. Ri com ele. Admira seu estilo, sua coragem, e o considera melhor que Verissimo. Sinto que gostam de saber que ele convivia com companheiros da noite como Tom Jobim, Chico Buarque e Vinicius de Moraes. Leia

 

Roberto Almada

Ester Abreu

Roberto Almada (1935-1994), professor, crítico literário, dramaturgo, contista, romancista e poeta, nos deixou, também, comentários jornalísticos. Alguns de seus livros continuam inéditos. Em 1985, ganhou o Prêmio “Geraldo Costa Alves” com a obra O País d’el Rey & a casa imaginária, publicada, no ano seguinte, em 1986, pela FCAA-UFES.

Almada era escritor, mas um bom leitor. Apreciava os escritores ingleses, franceses e os hispânicos. Leia

 

Biblioteca Pública do Espírito Santo

Faça um passeio pela Biblioteca Pública do Espírito Santo com este vídeo produzido por Pedro J. Nunes, escritor residente da BPES. Assista

Colunas

 

Textos mais recentes

O fantasma e os anúncios do bonde

- Mãos ao alto e não vai dizer que não! – apontou-me o fantasma do centro histórico de Vitória a mão direita com o polegar para o alto e o indicador em riste imitando um revólver de meter mais medo do que se fosse verdadeiro, rendendo-me na ladeira Dom Fernando quando eu ia em direção à cidade alta. Em retribuição à simulação de ataque levantei os braços e ainda brinquei: - Não atire, por favor. Pode levar minha carteira.

O fantasma deu uma risada com ranço de lameirão e falou satisfeito: - Vejo que você está de bom humor, meu digno. Mas não é a carteira que eu quero, e sim sua memória.

Leia

 

Um olhar

O olhar da minha nonna quando eu tinha cinco ou seis anos é um velho tesouro que guardo comigo. Seria bem mais pobre se não pudesse contar com o estoque de ternura que essa avozinha italiana depositou em minha sensibilidade. Ela era pequenina, vestia uma roupa simples de camponesa com a saia quase arrastando no chão e usava um lenço branco na cabeça.

Nas festas de São Miguel colocava um lenço estampado de seda e isso era o máximo de vaidade que se permitia. Mas em compensação seu olhar era puro luxo. Havia nele uma sombra nostálgica, mas sobretudo era um olhar inteligente que chegava a mim com a marca da compreensão irrestrita.

Leia

 

Aeroportos

Aeroportos sempre me evocam uma lembrança triste, como a de certa feita, anos atrás, quando após passar dez dias a trabalho no Nordeste, não encontrei a festa dos que aguardam no saguão de desembarque a chegada de alguém. Não vale a pena retornar se não há quem nos espere. Nada há mais triste do que tomar um táxi no aeroporto a caminho do nada. Melhor seria, certamente, virar nos calcanhares e tomar um voo para qualquer destino. Um olhar vazio combina com qualquer lonjura.

Leia