Para maior glória de Deus?

Luiz Guilherme Santos Neves

A história do Brasil se fez com sangue e morticínio, ou não seria História.

Desde a chegada do colonizador português às terras do pau-brasil, nos primeiros embates travados com os nativos da terra já se prenunciava o intenso derramamento de sangue que viria nos capítulos seguintes da dominação lusitana. 

       

Tome-se por referência a pregação do Cristianismo com o propósito da conversão e salvação dos índios brasileiros que se exteriorizou numa cruzada bélica contra os que não se submetiam à catequese jesuítica.

Sob o lema da Companhia de Jesus Ad majorem gloriam Dei foram os jesuítas legítimos soldados de Cristo (não tivesse sido o fundador da Ordem, Inácio de Loiola, um militar) empolgados pela Fé e pelo ardor religioso na conversão dos indígenas do Brasil. Absolutamente convictos de que agiam para o bem do gentio a fim de levá-los ao regaço de Deus e livrá-los das garras do Demônio no confronto entre as forças da Luz e das Trevas, a missão catequética ganhou foros de vale-tudo contra os “bárbaros infiéis”, sobretudo a partir da chegada ao Brasil, em 1557, do terceiro governador geral Mem de Sá.

Dos três primeiros governadores foi Mem de Sá o que mais entranhadamente se aplicou à submissão do índio rebelde, vale dizer, do índio que, resistindo à cooptação civilizacional de interesse dos portugueses e abraçada pelos jesuítas, se tornava um obstáculo vivo (e como tal precisava ser banido) à colonização do Brasil.

Nesse sentido, aos olhos não apenas dos interesses políticos e seculares da Coroa Portuguesa, mas também da propagação do Cristianismo na América, obra a que se dedicaram denodadamente os jesuítas, configurou-se Mem de Sá como herói digno de glorificação e respeito.

É com esta envergadura quase mítica de cavaleiro da Fé que ele é retratado no célebre poema épico De Gestis Mendi de Saa, de José de Anchieta.

Nas linhas do poema, o governador não age por sua exclusiva vontade, mas como instrumento da vontade de Deus a serviço da implacável conversão dos índios. E ai do brasílico que oferecesse resistência à ação divinatória encarnada pelo colonizador luso. Sua rebeldia era tratada a poder de pólvora e pelouros sem o mais leve sentimento de misericórdia ou humanidade.

São dezenas e dezenas as passagens da gesta anchietana em que o poeta-sacerdote, sem qualquer resquício de piedade cristã e até com efusiva euforia evangelizadora apregoa o cabimento da guerra justa contra o pretenso mau selvagem que não se dobrasse à fé católica, genericamente taxado de “cão feroz”, “brutos da terra”, “bárbaras gentes”, “povos cruéis”, “bárbaro hostil”, “ímpio selvagem”, “feroz inimigo” “índio seguidor do Demônio”, “gente soberba” e et caterva, numa identificação a seres maléficos e trevosos. Contra essa gente soberba e esquiva à conversão toda sorte de atrocidades era legítima.

Leia-se a propósito o trecho do poema em que Anchieta narra os combates de Fernão de Sá e sua gente contra a indomável indiada do Cricaré, no Espírito Santo, travados no final do governo de Vasco Fernandes Coutinho:

Em contrapartida, todos os que confrontavam o gentio indomável se faziam cavaleiros do bem e da luz sendo-lhes mais do que lícito que recorressem às crueldades bélicas e ao derramamento brutal de sangue para exterminar o inimigo hostil da face da terra brasileira.

E não era aos jesuítas a quem cabia pegar em armas para a travação dos combates mortíferos, mas sim às forças que as autoridades da Colônia arregimentavam para tais campanhas de extermínio considerado justo. Ademais, na dialética jesuítica, a guerra contra os selvagens era invariavelmente pertinente porque era “sempre um contra-ataque, uma resposta a uma anterior ofensiva dos indígenas”, conforme observam Davis Moreira Alvim e Izabel Rizi Mação no excelente ensaio sob o título “Faça-os entrar no meu santuário: guerra e governo no pensamento de José de Anchieta”, publicado no volume I, Os Pensadores do Espírito Santo, Editora Milfontes, 2019.

E tudo para maior glória de Deus de quem, segundo se lê no poema de Anchieta, decorriam as decisivas intervenções militarizadas para a soberania dos portugueses sobre os índios insubmissos.

Desta forma, a guerra contra os selvagens, sempre vencida pelos cristãos ainda quando entre eles houvesse perdas dolorosas como a morte de Fernão de Sá, filho de Mem de Sá, era vista pelos jesuítas como uma ação em que a providência divina se fazia atuante, inclusive como meio exemplar de disseminar o temor entre os índios. Mas não apenas para disseminar o temor uma vez que a intervenção divina se dá prodigamente no decorrer do poema, como também para aniquilamento dos indígenas indomáveis.

Uma simples mostra dessa intercessão pode ser lida nos versos que se seguem, transcritos em texto corrido e relativos à descrição que Anchieta fez da capitania do Espírito Santo a partir dos versos 200 do poema: “distante terra, sujeita a muitas chuvas. Apesar de fértil, é pouco povoada pelos colonos portugueses, dado que o índio feroz os ataca frequentemente, devastando tudo e os devorando... o Espírito Santo a nomeia ... cultivada por lusos, contra os quais o atroz Tamoio... leva muito dano, aqui e ali, devastando campos e frutíferas searas, raptando homens, vai vencedor, roubada a presa, e enche o ávido ventre, com o sangue cativo ... e se a destra de Deus não se opuser aos planos cruéis,  levando auxílio celeste, e impedir a gente soberba de guerra, [grifei] ardente de ódio, de sangue ávida, já por Marte cruel manchem tudo e molhem a terra com o sangue dos pios.”

Como lucidamente assevera Fabrício Possedon, em seu erudito estudo De Gestis Mendi de Saa (A Saga de Mem de Sá), acessado à Internet em março/2020, “o poema anchietano ganha assim uma dimensão ideológica, não é simplesmente uma narrativa de um indivíduo, o herói Mem de Sá contra índios, mas sim a luta da doutrina cristã contra tudo o que se lhe opõe”. Luta que foi cruel e sangrenta como Anchieta deixa evidente em sua gesta, tanto quanto nela também está expresso o pensamento do ferrenho e belicoso catequista que ele foi, o que não o impediu de ser consagrado santo pela Igreja Católica. E toda essa ferocidade católica, ad majorem gloriam Dei ?

Ó tempos, ó costumes!

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