Os primeiros imigrantes do Espírito Santo

Luiz Guilherme Santos Neves

O genial José Carlos Oliveira elegeu o nome do cacique Maracajaguaçu (Gato Grande) como toponímico figurativo de Vitória.

No conto Mistério em Montagnola, incluído no livro Bravos companheiros e fantasmas, editado em 1985 quando o cronista capixaba participava, em seus últimos meses de vida, do projeto escritor-residente da Universidade Federal do Espírito Santo, diz lá pelas tantas o narrador: “Venho de Maracajaguaçu e vou para Heliorama.”

No Diário Selvagem – literatura confessional de primeiríssimo grau, pungente e atordoante, publicado por iniciativa de Jason Tércio – José Carlos, mais de uma vez, refere-se a sua cidade natal pelo nome do cacique Gato Grande.

Mas quer nas páginas do diário – manuscrito com a incandescência do incomparável escritor que ele foi – quer nos textos que assinou ao longo da vida, nota-se que Vitória não deixou de ser  uma terra mítica para José Carlos, da qual saiu ainda jovem para as colunas dos jornais cariocas. Pelo menos é o que se pode depreender das referências que ele fez ao toponímico indígena como berço de origem, revestindo-as da aura de mistério literário que imprimia às citações, criando um intrigante enigma traduzível na pergunta, venho de Maracajaguaçu, sabe onde fica?

Parto desta introdução, de memória literária, para algumas considerações sobre o cacique a quem Carlinhos Oliveira surrupiou, com amável mão de gato-mestre, o nome fictício da sua terra natal.

As referências a Maracajaguaçu e sua gente aparecem nas cartas jesuíticas do século XVI e na voz dos cronistas desse recuado tempo. Os temiminós, como a eles se refere Basílio Daemon, cooptados ao redil cristão pelo português colonizador, eram tupis da região da Guanabara, vivendo em beligerância permanente com os tamoios. Com a instalação da França Antártica no Brasil, os franceses tornaram-se aliados dos tamoios, desequilibrando, a favor destes, a balança do conflito com a tribo dos gatos.

Numa tentativa de se safarem de um extermínio inevitável, lograram os temiminós, contando com o patrocínio do padre Brás Lourenço em 1555, a ajuda de Vasco Fernandes Coutinho para se estabelecerem no Espírito Santo.

O transbordo dos índios, que podem ser considerados o primeiro agrupamento de imigrantes não lusitanos de nossa história e aos quais a historiadora Nara Salleto denomina maracajás ou “índios do Gato”, in Donatários, Colonos, Índios e Jesuítas, se fez em quatro embarcações aprestadas pelo donatário. 

Admitindo-se como real o número de embarcações empregadas nesse resgate e por muito que se possa exagerar a sua capacidade de acomodação para o transporte de pessoas àquela época, não deveriam ter condições para trazer, em seu total, senão cerca de quatrocentos índios de uma vez. A tal contingente deveria se resumir, portanto, “a gente de  Maracajaguaçu” e toda a sua parentela, como a eles se refere José Teixeira de Oliveira, na História do Estado do Espírito Santo.

É fato aceito pelos historiadores que foi com esse contingente que os jesuítas fundaram a aldeia de Nossa Senhora da Conceição, origem da Serra. Mas há também quem atribua ao mesmo grupo indígena participação na criação nas aldeias de Santa Cruz e São João de Carapina.

Os índios do Gato se anteciparam assim à saga dos futuros imigrantes fundadores de povoações no Espírito Santo.  

Mas nem sempre foi pacífica a sua convivência com os colonos. Apesar de ter a proteção dos padres e do capitão-mor Vasco Coutinho, a ponto de Maracajaguaçu ser batizado com o nome do donatário, e sua mulher, com o nome da mãe de Vasco, Branca Coutinho, a tribo do Gato sofreu constantes ameaças a sua integridade por parte dos portugueses. E até entre sua gente, Maracajaguaçu enfrentou reações adversas à aliança com os colonizadores devido à traficância dos maracajás escravizados.  

Nos tempos da boa convivência, porém, eles prestaram aos portugueses importante colaboração nos embates contra os franceses que o pau-brasil atraiu ao Espírito Santo.

Uma carta jesuítica sem autor e data descreve, conforme José Teixeira de Oliveira, a ação do cacique Marajaguaçu e seus guerreiros na defesa dessa especiaria, na foz do Itapemirim. Mais tarde, quando foram empreendidas as investidas contra os invasores da baía de Guanabara, comandadas por Estácio de Sá, índios da tribo do Gato, saídos do Espírito Santo, juntaram-se aos combatentes. O mais famoso deles, Araribóia, recebeu terras que originaram Niterói, em reconhecimento ao destemor com que se bateu contra os franceses e tamoios – e, em relação a estes últimos, muito provavelmente com o ímpeto redobrado da desforra. Vale a oportunidade para registrar que, com o título de Partida de Araribóia, existe quadro do pintor Levino Fânzares que integra o acervo da Assembleia Legislativa Estadual no qual o cacique aparece em pé, em postura guerreira, dentro da canoa da partida, cercado pelos demais guerreiros que o acompanharam na expedição.     

Em 1952, ao sair da sua Maracajaguaçu provinciana para assentar lanças literárias no Rio de Janeiro, o capixaba José Carlos Oliveira fez o caminho inverso do trilhado quatro séculos antes pelos primeiros cariocas que se estabeleceram no Espírito Santo – o cacique Gato Grande e sua gente. É o caso de se perguntar, em voejo literário: até onde, inconscientemente, esta inversão de jornada influiu no espírito de José Carlos ao batizar a sua terra natal com o nome do célebre morubixaba?

 

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