Páginas de uma bibliotecária

Marli Rodrigues Coppo

Casos vivenciados

1) Na primeira visita à Casa de Detenção, eu e outros profissionais conhecemos todo tipo de droga, desde cocaína ate pasta e baseado. O diretor nos chamou e mostrou. Naquele dia, os policiais estavam verificando as celas para encontrar armas, drogas, etc.

2) Trabalhamos no presídio IRS todo final de ano. Num deles, o diretor nos convidou para fazer uma festa de confraternização e fomos. Era um almoço, lembro-me bem. A Biblioteca tinha um carro Lada a álcool, alemão, azul escuro, parado no pátio. Um dos presos bebeu o álcool do carro e colocou fogo na cela. Houve troca de tiros, os presos fizeram o motorista levar um colega ferido para o hospital. O preso faleceu e o carro ficou cheirando a banana nanica. Nosso Departamento era o Estadual de Cultura, o DEC, e nosso diretor ficava telefonando para saber notícias nossas. Não foi mole não!

3) Outro que eu fazia era o Presídio de Mulheres, na Praia do Canto. Lá também foi barra pesada! Fomos convidados para uma confraternização e neste dia houve uma rebelião. Quando estávamos esperando, as presas fizeram uma delas refém e cortaram a garganta dela. Houve aquela confusão e tivemos que sair correndo de lá.

4) No Presídio, muitas das vezes os presos nos convidavam para jantar com eles. Era muito engraçado quando aceitávamos! Eles falando que eram ricos e o jantar tinha um feijão cheio de brocas. Confesso não era fácil não!

5) Quando trabalhávamos no Setor de Cultura Popular, levávamos filmes para as comunidades. Era uma máquina muito antiga. Às vezes a máquina quebrava e o filme não passava, era muito triste.

6) Quando a comunidade solicitava implantação de uma Biblioteca no bairro, eu fazia um questionário socioeconômico para saber se gostavam de ler. E havia outras atividades junto. Uma vez perguntei a uma senhora se ela gostava de capoeira (a dança), aí, ela se confundiu e disse que os filhos trabalharam na roça. Eu e ela rimos muito!

7) Um dia, trabalhando em Santa Rita (Vila Velha), na divulgação da Biblioteca Comunitária do bairro, perguntei a uma moradora o que ela achava de uma Biblioteca no bairro. Ela disse que achava ótimo, porque eles eram muito pobres. E completou que eram felizes, porque quando na casa deles tem comida, todos comem; quando não tem, ninguém come.

8) Quando eu trabalhava no carro-biblioteca, a Kombi era muito velha, eu ia trabalhar nos bairros, os guardas apreendiam o carro porque estava sem farolete e os pneus estavam um pouco gastos. E eles falavam: “Vocês não podem seguir!” Aí, eu pedia e eles falavam: “Deixa os carros passarem, depois libero vocês.” E toda vez era a mesma coisa.

9) E esta Kombi não tinha manutenção. No projeto “Mutirão da Cidadania”, a Biblioteca Volante (a Kombi) estava cheia de crianças e o governador, que sempre ia, se aproximou de mim e falou: “Vou te arranjar um carro novo!” Passou um tempo, o carro veio, fiquei muito alegre! Era uma Besta, trabalhamos muito com ela, foi maravilhoso para as comunidades.

10) Uma vez, vindo de um município, baixou um temporal daqueles. Aquele sábado foi terrível!

11) Foi muito importante ter trabalhado 10 anos viajando pelos municípios do Espírito Santo para divulgar o Sistema Estadual de Biblioteca. Às vezes eu ia de carona levar os livros nas caixas e até policial federal me dava carona.

Quero agradecer muito ao Senhor Expedito, que muitas vezes partilhou das minhas dificuldades.

Interior do Estado

Participei da equipe designada para trabalhar no Interior do Estado, no Programa Nacional de Leitura e Biblioteca Pública. Foi um dos trabalhos de que gostei muito!

O objetivo desse programa era democratizar o acesso à leitura e à informação, por meio da Biblioteca Pública, e assim contribuir para formar um país de cidadãos leitores. Tinha como meta zerar o déficit de Biblioteca nos estados. O nosso Espírito Santo foi um dos primeiros a zerar este déficit.

Trabalhei em cinco municípios: Barra de São Francisco, Brejetuba, São Domingos, Cariacica, Vila Valério. Foram nossas ações para melhorar o acesso ao livro e a outras formas de leitura: implantar novas Bibliotecas, fortalecer a rede atual, ações para conquistar novos espaços de leitura, distribuição de livros gratuitos, entre outras.

Ia aos municípios conversar e falar da importância deste programa com prefeitos e secretários de Educação e de Cultura. Em geral, eram várias as visitas: a primeira, para levar o termo de responsabilidade e o compromisso com o Governo Federal; a segunda, para conseguir o kit de bens para montagem da Biblioteca, um acervo total de 1.930 itens, entre eles: 1 computador IBM, 1 teclado, 1 mouse, 1 monitor, 1 impressora, 1 TV 29 polegadas, 1 aparelho de som (com AM, FM, CD e teipe), 1 aparelho de DVD, 1 aparelho de videocassete, 2 ventiladores, 1 no-break, 5 estantes de aço com prateleiras, 3 estantes de aço com 4 prateleiras, 24 cadeiras de aço para leitura, 1 mesa de madeira para trabalho, 1 cadeira giratória com braço.

Depois de várias reuniões, eu fazia várias viagens para o prefeito assinar, mas, às vezes, não conseguia localizá-lo e aí marcava outra viagem.

Em um município, eu lembro, era o último dia para assinar, procuramos o prefeito por todo lugar, até em Minas Gerais. Aí, me levaram à casa dele. Chegando lá, apelei para a esposa dele, uma mulher pequena e ágil, que na mesma hora pegou o telefone e ligou: “Bem, vem cá agora atender à moça!” Na mesma hora ele assinou o documento!

Outra hora era para ver se o espaço estava adequado e saber da Prefeitura se o documento foi enviado para Brasília, se os tributos do município estavam em dia, para poder ganhar o kit.

Foi muito trabalho, mas valeu!

Depois, veio a parte da organização das Bibliotecas Comunitárias que couberam a três municípios (Cariacica, Barra de São Francisco e São Domingos do Norte), com a ajuda da colega Suely Mara Sielemann na organização.

Nos municípios mais distantes, às vezes nós ficávamos 15 dias. Tudo para entregar as Bibliotecas conforme o previsto pelo Sistema de Biblioteca Nacional.

Conclusão

Apesar de toda a dificuldade do trabalho em áreas carentes, valeu a pena, porque, como profissional da área de biblioteconomia, vivenciei a experiência diferenciada e aprendi muito, conhecendo realidades que me marcaram muito.

Marli Rodrigues Coppo é bacharel em Biblioteconomia, pela Ufes, pós-graduada lato sensu na área de ensino, em educação pré-escolar, de 1º e de 2º graus.

Começou a atuar em bibliotecas em 1984, no DEC (Departamento Estadual da Cultura), na Divisão de Cultura Popular, com a missão de implantar Bibliotecas Comunitárias nos municípios da Grande Vitória. Passou a trabalhar na então Biblioteca Pública Estadual, do Sistema Estadual de Bibliotecas, na década de 1990, como responsável pela distribuição de acervo e pela assessoria técnica às bibliotecas públicas municipais de todo o Espírito Santo. Em 1993, foi chefe da Divisão de Bibliotecas Municipais e Comunitárias. Também foi bibliotecária na Faculdade Cândido Mendes, de Maruípe (Vitória).

Atuou ainda nas seguintes instituições/projetos:

Presídio de Mulheres da Praia do Canto (Vitória).

Presídio Feminino de Tucum (Cariacica).

Casa de Detenção (Glória, Vila Velha).

Mutirão da Cidadania (diversos locais).

Carro-Biblioteca (diversos locais).

Em 1986, participou do “I Ciclo de Estudos”, da Comissão Brasileira de Bibliotecas Públicas e Escolares, com o tema “Bibliotecas Comunitárias”.

Faz parte do Conselho Regional de Biblioteconomia.

Faz parte do Conselho Estadual de Cultura.

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