Poemas e traduções

Poemas brevíssimos

Com todo o peso
do apego à pista
rola por ela
o ávido;
com a leveza
do desapego,
perde-se dela,
ganha a amplidão.

Tua palavra
e a minha
fazem vibrar
o ar;
teu silêncio
e o meu
fazem vibrar
o céu.

Falas
e a tua
palavra
é linda;
calas
e o teu silêncio
é mais
ainda.

Eis que abro mão
de tudo
e já não falta
nada.

Passo a passo
o caminho
vou colhendo
como quem colhe
a linha
de um anzol:
que fogo é esse
envergando
o caniço?
É o ouriço
do Sol.

O andar
como vou
andando,
andarei
indo ou
voltando?

Publicados originalmente no jornal A ORDEM, ano LXI, São José do Calçado, domingo, 24 de janeiro de 1988, nº 2443.

Poemas brevíssimos

Qual
dos apóstolos
teria percebido
as duras conversas
mudas
entre o traído
e o judas?

Mas quem será esse
que dura e não sente
que sente e não pensa
que pensa e não conta?
Mas quem será esse
que segue e não chega
que chega e não bate
que bate e não entra?
Mas quem será esse
que passa e não para
que para e não olha
que olhe e não vê?

Quanto mais longe o berço
vai ficando
tanto menor a vida vai
sumindo
e então graduam-se
vidros de aumento
- calotas de uma bola
de cristal
onde reluz a esperança de ver-se
a vida em seu portento
primordial.

Se às vezes não me vês rir
da fábula deste mundo,
é a lâmina do existir
que está cortando mais fundo.

A chuva a cair
batendo lá fora
é um jeito de rir:
a vida não chora.

Que hora é esta?
É hora de aprender.
Aprender o quê?
Todos querem saber.

Publicados originalmente no jornal A ORDEM, ano LXI, São José do Calçado, domingo, 31 de janeiro de 1988, nº 2444.

Poemas brevíssimos

Abelhas e borboletas
voluteiam aquém
da margarida
que não tem
para mim
perfume algum:
que gosto terá
o perfume
que atrai assim
para a margarida
tantas
abelhas e borboletas?

Cadê Maria Teresa?
Teresa leva Maria
pelas pontes levadiças
do seu castelo de um dia.
Teresa aprendeu a língua
que Maria há de falar
quando afinal estiver
no seu castelo de ar.
Teresa sorri às vezes
mas Maria é sempre séria
a ver cheio de marqueses
seu castelo de imatéria.

Que luz é essa
que vem e vai
com tanta força,
com tanto brilho?
É a luz da prece
do filho ao pai,
é a luz da graça
do pai ao filho.

Quem chamou assim
por nós? Foi a vossa voz
ou a do jardim?

Hamlete insiste
e ainda não sei
lhe responder:
ser ou não ser?

Publicados originalmente no jornal A ORDEM, ano LXI, São José do Calçado, domingo, 7 de fevereiro de 1988, nº 2445.

Marinha

Entre os bigodes e a esteira
inteiro vai meu navio
sejam as águas de mar
ou de lagoa ou de rio,
roda a roda ou de través,
sopre o vento quente ou frio...

E a bordo vai a esperança
espichada no convés,
com a cabeça na proa
e no tombadilho os pés
a arrepiar-se com o vento
roda a roda ou de través.

E a gana de navegar
vai da quilha ao mastaréu,
e enrola um rabo-de-galo
à maneira de chapéu
mais branco que a vela branca
a azular no azul do céu...

Navegação

Navegante de tempo nada escasso
entre a arribada e o zarpar de um porto,

sabendo por igual as vias retas,
sigo por rumos cada qual mais torto

- sem deixar neles impresso meu passo
mais que o das areias nas ampulhetas.

Não como um risco feito a ponta de aço,
mas como o canto de um pássaro morto.

Publicados originalmente no jornal A ORDEM, ano LXII, São José do Calçado, domingo, 12 de fevereiro de 1989, nº 2494.

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