Meu encontro com Kafka

Quando comecei a publicar no Diário Carioca algumas de minhas histórias curtas, não faltou quem visse, em minha prosa de ficção, grande parecença com a do tcheco, de fala alemã, Franz Kafka, assim como tampouco havia faltado quem identificasse minha poesia com a do poeta tcheco-alemão Rainer Maria Rilke. Meu encontro com Rilke principiou por sua autobiografia e por umas cartas dele, ao passo que meu encontro com Kafka deu-se já no plano da obra literária.

O que há de impressionante para mim, em meus contatos com Kafka, através da leitura de obras dele, tem sido uma espécie de paralelismo entre os enredos que leio e eventuais circunstâncias de minha própria vida ao tempo de tais leituras.

Quando li O processo, por exemplo, eu andava realmente às voltas com um caso pessoal em andamento na Justiça do Trabalho; e toda aquela atmosfera de absurdo burocrático que envolve o cidadão “K”, inesperadamente julgado e incapaz de vislumbrar qualquer outra autoridade perante a qual reivindicar seus direitos, era mais ou menos a que eu experimentava em minhas idas e vindas por Juntas de Conciliação, tribunais trabalhistas de estâncias variadas, ora perdendo muito, ora recobrando o que a lei me assegurava, e era um aparente não-acabar, até que acabou. Felizmente meu destino nem foi parecido com o daquele cidadão “K”, que se viu eliminado ou perto disso quando lhe parecia que afinal iria entrar em cena o único personagem capaz de o ajudar ou salvar... Eu acabei ganhando a questão.

Outra coincidência da leitura de Kafka com passagens de minha vida real foi quando li A metamorfose, uma edição argentina. Estando eu em férias, e em regime de saúde, eu era praticamente forçado a seguir de perto a movimentação de minhas duas irmãs no atendimento que elas davam a minha mãe, já então paralítica e dependendo delas para a satisfação de todas as necessidades. Aquela impossibilidade de agir por conta própria, aquela espécie de estupefação da enferma (que de resto sempre fora em toda a vida dela, uma personalidade forte e independente, arrogante mesmo), tudo aquilo vincava em meu espírito as desventuras do personagem Kafkiano que despertara transformado em horroroso inseto incapaz de mover-se com rapidez, sem jeito para coisa alguma, nem sequer para o convívio familiar...

Acodem-me todas essas lembranças quando penso nas primeiras páginas que li, de Kafka, daí eu não estranhar nem um pouco que em algumas de minhas próprias histórias venha a refletir-se o mesmo clima de angústia, o mesmo novelo sem ponta de fio à vista, a mesma vacilação sem horizonte.

Ultimamente têm aparecido sobretudo na Europa Central críticos literários interessados em reestudar a obra de Franz Kafka, alguns empenhados em desfazer o que lhes parecem possíveis equívocos que essa obra tem suscitado em todo mundo. Alguns exegetas de Kafka têm-no apresentado como autor que melhor sentiu e expressou a sensação de desamparo (e desespero) do ser humano em face da máquina burocrática: Kafka era amanuense numa companhia de seguros... Outros críticos lhe atribuem uma antevisão do grande absurdo da condição humana, sem nenhuma saída a não ser metafísica... E em cada cabeça de crítico parece fulgurar uma sentença diferente sobre aquele tcheco hipersensível e angustiadíssimo...

Nem toda a obra de Kafka está ainda traduzida no Brasil, e talvez agora, que ele passa ao chamado “domínio público” pelo fato de ter falecido há mais de sessenta anos, várias editoras tupiniquins parecem interessadas em traduzir e publicar os livros dele, romances e volumes de contos. Há até uma famosa editora que apresenta os livros de Kafka como traduzidos diretamente do original, e dão o título do original em inglês, quando Kafka escrevia em alemão. Os livros de Kafka, tanto os mais longos quanto os menos volumosos, dão ideia de uma espécie de tragédia grega em que a chamada máquina do mundo toma o lugar dos antigos deuses e heróis mitológicos.

É possível que, se houvesse condições para um diálogo entre a alma individual e a alma coletiva, diálogo demonstrando por fim que o infinitamente grande nada mais é que a soma de infinitamente pequenos, e que a porção quantitativa destes não deve resultar em alterações de ordem qualitativa, modificando a face do conjunto, a “máquina” deixasse de girar tão afobadamente toda vez que uma de suas peças começasse a dar sinais de fadiga ou inadequação E é possível que fosse essa a mensagem de Franz Kafka; mas em nada disso eu penso quando o leio, e apenas deixo que ele me conduza pelos tortuosos caminhos de sua angustiada imaginação.

Publicado originalmente no jornal A ORDEM, ano LXI, São José do Calçado, domingo, 19 de junho de 1988, nº 2503. Esta é uma publicação de cooperação entre o site Tertúlia e a Academia Calçadense de Letras.

 

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