O desafio da cidade

Entremos, pois, em Veneza. Com serenidade. Cartesianamente. "Uma tentativa viável" - diz o homem de temo cinzento que guardo aqui debaixo do paletó. Seguindo suas instruções, vou judiciosamente constatando que estou numa embarcação denominada vaporetto. Uma embarcação que me leva para a entrada do Canal Grande. Relaxe. Uma embarcação movida a diesel com motor de uns 250 CV. No convés há muitos bancos pintados de azul onde os turistas se sentam. Mas neste momento há pouca gente no barco. Umas dez pessoas, no máximo. Vamos chegando ao canal com rapidez. Penso: daqui a pouco o hotel, o banho e o almoço. É conveniente dormir antes de faturar Veneza. Com calma e método. Hoje é sábado. Não é preciso correr. Calma. Cartesianamente? Entramos na larga avenida de água e o sol caminha pelas pequenas ondas do canal com muita familiaridade. Reafirmo: "Afinal o que há de tão extraordinário?" "Truques de propaganda", sussurra-me o homem de temo cinzento. René Cartesius me olha com extrema simpatia e um nítido ar de aprovação. Até o momento seguinte. Até o fatídico momento seguinte quando vão surgindo complicadores. O sol enlouquece e passa a pintar painéis de tempo nos grandes edifícios das margens, nos palazzi da beira do canal. Um pincel com fibras de vento e que tem a idade de cinco séculos, uma combinação do sol com outros elementos naturais vão revelando telas fantásticas nas fachadas desses prédios gastos e mudos que me olham pelas suas janelas, sem nenhuma curiosidade. Ali, ali embaixo, ao rés da água, o que é? É a assinatura do sol num de seus quadros? Não, está escrito apenas "aqui morou Byron". Os prédios mudos continuam a me olhar pelas suas janelas. Começo a ter dúvidas. Da indiferença, as janelas passam a me olhar com indisfarçável ar irônico. Não sei por quê. Mas ainda há focos de resistência. Cartesianamente. Momentos depois, porém, a resistência acaba. É impossível resistir porque as ninfas já começam a descer dos telhados dos palácios e fazem rasantes sobre a água tocando seus clarins prateados. O sol comanda tudo. Ao observar minhas fraquezas, num ato de rotina secular, o sol pede ao vento uma grossa lufada que balança os cachos dourados das ninfas e me faz jogar no rosto alguns respingos dessa água verde do canal. Empolgado com o espetáculo do sol não reparei que o barco havia parado no Piazzale Roma. Olho a água verde, de um verde cor de folha e, de súbito, soluciono um dos mistérios da infância longínqua: descubro afinal de onde vinha aquela tinta verde do tinteiro de cristal de meu avô.  

René Cartesius me olha desconsolado.

 

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