Terra firme no caos: a violência silenciosa
na prosa de Jeovanna Vieira

Eli Pires

A discussão sobre a violência doméstica no Brasil ganhou novos contornos jurídicos com a Lei 14.188/2021, que tipificou a violência psicológica contra a mulher e instituiu o programa Sinal Vermelho. No entanto, a compreensão real desse fenômeno muitas vezes escapa à frieza dos textos legais. É nesse vácuo que a literatura contemporânea se faz necessária, traduzindo em experiência o que a lei define como crime. Virgínia Mordida, romance de estreia de Jeovanna Vieira, cumpre essa função de maneira exemplar, oferecendo uma narrativa que funciona tanto como objeto estético quanto como um documento social sobre as microviolências do cotidiano.

Jeovanna Vieira, nascida em Vila Velha (ES) em 1985 e formada em jornalismo pela UVV, aporta à obra a sensibilidade de quem já transitou pela poesia, gênero explorado em Deserto Sozinha (2023). Atualmente residindo nos Emirados Árabes, a autora utiliza sua vivência de deslocamento para compor a atmosfera de inadequação que permeia o livro. A obra, finalista do Prêmio Kindle de Literatura e publicada pela Companhia das Letras, narra a trajetória de Virgínia, uma advogada negra que troca o calor e as raízes do Rio de Janeiro pela promessa corporativa e o concreto frio de São Paulo.

Na capital paulista, a protagonista envolve-se com Henrí, um ator argentino cujo charme inicial mascara uma personalidade narcisista. Vieira detalha com riqueza a construção desse cenário: a linguagem alterna entre a aridez das interações com Henrí e a sinestesia das memórias afetivas de Virgínia: o cheiro de tempero, o som das matriarcas e o afeto das amigas. O ponto de virada reside na sutileza com que o abuso se instala: não através da agressão física imediata, mas pela "mordida" metafórica que arranca pedaços da identidade da vítima. O leitor acompanha táticas de gaslighting, invasão de privacidade e o isolamento estratégico de Virgínia de sua rede de apoio.

Sob uma ótica crítica, a obra é extremamente enriquecedora ao desconstruir o estereótipo da "mulher negra forte". A autora demonstra que a emancipação financeira e o sucesso profissional, já que Virgínia ocupa uma cadeira de decisão em uma grande empresa, não blindam a mulher contra a vulnerabilidade afetiva. Pelo contrário, o livro expõe como o racismo estrutural e a solidão em espaços de elite podem tornar a "migalha" de afeto oferecida pelo abusador irresistível, criando um ciclo de dependência que desafia a lógica externa.

Além da qualidade literária, Virgínia Mordida possui um caráter quase pedagógico. A narrativa ilustra o funcionamento prático do "violenciômetro", permitindo identificar sinais que muitas vezes passam despercebidos socialmente. A redenção da personagem não ocorre pela intervenção de um salvador, mas pelo resgate de sua ancestralidade e das amizades que são pejorativamente chamadas de "cobras" pelo abusador, mas ressignificadas na obra como seres que, na natureza, se alertam e se protegem.

Conclui-se que a leitura de Jeovanna Vieira é fundamental não apenas para estudiosos de literatura, mas para qualquer pessoa interessada em compreender as dinâmicas relacionais contemporâneas. Ao unir uma prosa envolvente à denúncia de uma realidade brutal, a autora nos lembra que a conscientização é o primeiro passo para a transformação, e que a literatura pode ser, de fato, terra firme em meio ao caos.

Esta publicação é uma parceria com o professor Vitor Cei. As resenhas foram selecionadas e revistas por ele a partir de produções na disciplina "Literatura do Espírito Santo", da qual é professor.

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