
Este livro é composto de 55 ensaios distribuídos em 155 páginas, com temática variada. Como o título indica, o escritor capixaba, José Roberto de Oliveira, tece inúmeras reflexões penumbrosas, que levam o leitor a refletir sobre a vida, com seus relacionamentos, muitas vezes, sombrios e melancólicos. Algumas dicotomias se entrelaçam ao longo da obra: amor/desamor; vida/morte; fidelidade/traição; enlaces/desenlaces; alegria/tristeza... A temática predominante concerne à ruptura amorosa, à incompatibilidade nas relações conjugais, aos ciúmes, à ética, à poligamia, à utopia da fidelidade... As reflexões do pensador levam-no a questionamentos inusitados. Por exemplo, na página 108, seu texto intitulado “Não temos amigos”, contendo a desconstrução da amizade, com baseamento científico, cai como uma bomba sobre os relacionamentos ditos amigáveis. Ele esclarece que, segundo pesquisa de Dr. Erez Shmueli, “amizade é só interesse unilateral, na maioria das vezes, não confessado de início. Estamos diante de uma barganha consciente ou inconsciente, da qual sempre aguardamos a correspondente paga [...] ninguém é amigo de ninguém”.
Suas elucubrações (segundo ele, pseudoloucuras) “nas encruzilhadas do nada”, levam-no a questionamentos ontológicos e à eterna busca da felicidade. No texto “Ojeriza sacerdotal”, ele diz “Mas... sou assim, sem noção e sem sentido. Vivendo no habitat da razão; porém existindo subjetivamente, dissolvido entre esta e aquela irracionalidade.” (p.114). Ele lamenta a atitude de alguns líderes religiosos que empunham descaradamente a bandeira do cristianismo, mas vilipendiam a doutrina cristã original. Conclui o ensaio com o alerta do evangelista Mateus: “Tenham cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelha, mas por dentro são lobos devoradores.” (P.116).
Dezessete páginas do livro são reservadas a um assunto delicado e discutível: o duvidoso o obscuro acesso a certas Academias de Letras.
No texto “Minha mulher... meu homem” o autor ironiza o machismo linguístico dos gêneros. Os homens dizem usualmente minha mulher; a mulher, por sua vez, diz usualmente meu marido, meu esposo, meu companheiro... Mas nunca diz meu homem, devido a uma conotação indesejada. Ele cita um exemplo: “minha filha é mulher do professor Enoque”. Evita-se dizer “meu filho é o homem da professora Enoe” (p. 105).
Às vezes o autor deixa transparecer seu lado romântico, mas no texto “Penumbras do pensar”, que dá título à obra, ele registra sua racionalidade referente ao sentimento amoroso. Diz ele “... É este estado de êxtase fugaz que intitularam amor. Ocitocina pura! [...] É também sinônimo de carência, necessidade enorme e instintiva de suprir, entre outros, o instinto do gregarismo e do interesse peculiares aos animais humanos. Em termos gerais...nada mais!” (p. 120)
Contrariamente, nos textos seguintes, ele demonstra uma visão positiva do amor, e apela para que “prevaleça o romantismo, a sensualidade, o erotismo que os transporta a um mundo sem igual, inimaginável, no qual não há o entristecer banal, onde o único ‘mal’ é ter alegria de muito prazer [...] O amor é a argamassa que faz a diferença em relacionamentos... pelo encanto.” (p. 130)
Em “Vida, uma concessão da morte” (p.142), o autor considera a vida como uma escrava, um divertimento da morte. Segundo ele, todos começam a morrer desde o nascimento, ou melhor, antes dele, no momento da concepção. Por conseguinte, todos se veem na iminência de enfrentar o fantasma da morte e, na medida do possível, de afastá-lo de seu caminho.
José Roberto fecha seu livro com o texto “Vazios intergaláticos”, que leva o leitor a inúmeras reflexões. Este é um bom livro para ser lido sem pressa, para cismar, cogitar, meditar, refletir... Como diria Guimarães Rosa, para matutar, no ritmo do sertão.
Deixo ao leitor o prazer de fruir do entrelace dos 55 textos e mergulhar nas profundezas abissais da complexidade do ser humano e da convivência social. A prefaciadora tem toda razão ao afirmar que esse livro transcende as palavras impressas. Há nele uma mescla de tons sonantes e dissonantes da “... complexa sinfonia que é a existência”.
