Criatividade, resistência, persistência

Maria Isolina de Castro Soares

Como surge um escritor? O que o molda? Em que forja é feito? Que inquietações o instigam a começar a escrever e que visão de mundo suas obras oferecem ao leitor?

Há escritores que desenvolveram a intimidade com a escrita desde crianças, como revelam quando são entrevistados; em outros, escrever os afasta de seus demônios. Para Clarice Lispector, a escrita é uma maldição que salva, como afirmou em crônica que posteriormente fez parte da reunião de seus escritos para jornal em A descoberta do mundo:

Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva.

Não estou me referindo muito a escrever para jornal. Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação.

Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.

Quero apresentar-lhes um escritor que traduz muito bem a concepção clariceana da necessidade de escrever como salvação: Martinho Raasch Júnior. Esse escritor nasceu a partir da derrubada de inúmeras barreiras, a partir do vencimento de inúmeros obstáculos, da adoção de uma postura filosófica moldada pelo estoicismo e pelo marxismo.

Martinho Raasch Júnior nasceu em 1970, em Itapina, o bucólico distrito de Colatina, palco de glória e decadência. Por questões familiares, precisou interromper os estudos, aos quais só retornou aos 24 anos de idade, enfrentando uma turma de 5ª série do Ensino Fundamental. Esse retorno aos estudos, na Escola Maria Ortiz, de Itapina, foi um dos muitos desafios que Martinho precisou enfrentar. Desde adolescente ele gostava de criar histórias, mas devido aos obstáculos que enfrentou, “sonhar com a faculdade e em ser escritor parecia uma mera utopia”, como o escritor já revelou. O suporte inicial veio da escola Maria Ortiz e da sensibilidade dos professores, aos quais ele sempre demonstra gratidão.

Esse retorno aos estudos ocorreu em 1995. Em 2001, Martinho já concluía a faculdade e, dois anos depois, publicava seu primeiro livro. O autor afirma: “As inúmeras frustrações de minha vida fizeram com que eu visse a Literatura como um refúgio seguro, onde eu pudesse fazer os eventos acontecerem do jeito que julgava ser o melhor”.

Seu primeiro livro, O casarão, com dez contos, foi publicado em 2003. Em 2014, saiu o romance A vila dos meninos degolados. Logo a seguir, em 2015, A reunião dos encapuzados e outros contos. Enredos sobre assombrações, assassinatos, rituais macabros são a tônica dessas primeiras obras, com a Morte marcando presença constante. Em 2024, publicou dois livros: Metáforas, que reúne cerca de dois mil aforismos que foram escritos diariamente entre 2014 e 2019; e Crônicas satíricas, que criam um retrato desolador da contemporaneidade ao considerar a sociedade deste terceiro decênio do século XXI. O narrador não tem complacência, seu olhar é duro e a crítica a uma vida sem privacidade e sexualizada é contundente. Já pronto, com lançamento previsto para abril [de 2026], seu projeto mais ambicioso, sobre o qual se debruça desde 2011: A incrível história do senhor Lankes, obra em 3 volumes, totalizando 1.200 páginas. O enredo parte de um fato histórico, a corrida do ouro na Califórnia, EUA, entre 1848 e 1854, e recorre ao Realismo Fantástico e à Filosofia na trama romanesca.

Martinho é um escritor que se vale de inúmeros recursos de construção textual, em intenso trabalho de escrita literária. A linguagem conotativa, a ironia, o sarcasmo, a sátira e as metáforas são alguns desses recursos. No âmbito das Ciências Humanas, explora com profundidade em seus escritos a Filosofia, a História, a Psicologia, a Sociologia e a Religiosidade.
Confessa que os escritores que mais o influenciaram foram Pedro José Nunes, capixaba, membro da Academia Espírito-Santense de Letras, e Edgar Allan Poe, escritor norte-americano do início do século XIX, conhecido pelos seus contos de mistério, suspense e tramas macabras.

Adentrar no universo da obra de Martinho é sondar muitas vezes o sobrenatural, provocando em nós a sensação de que somos joguetes de forças que nos subjugam, assim como a suas personagens. Sobre os temas abordados, o autor privilegia mistério, realismo fantástico e loucura. E acrescenta:

O imprevisível, o absurdo, o grotesco e irracional podem surgir a qualquer momento guiando os passos e as mãos de meus personagens. A loucura, por sinal, sempre me intrigou bastante, mormente quando era usada para tipificar os atos que contrastavam com os valores consagrados pelas leis e pelas tradições. Eu ficava com uma impressão oposta, que insanidade seria exatamente fazer o que todos fazem. Os considerados “loucos” eram meus heróis preferidos.

Martinho Raasch Júnior oferece ao leitor, com o conjunto de seus livros, uma obra crítica que articula com destreza inúmeros recursos literários e expressa uma visão de mundo que revela o olhar agudo e nada condescendente do autor. É ler para crer.

Maria Isolina de Castro Soares é graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com Mestrado e Doutorado na área de Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Aposentou-se pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (Ifes), campus Colatina. É autora de Português Instrumental (ISBN 978-85-6293432-2), obra que faz parte do catálogo de material de cursos técnicos do Ministério da Educação, acervo dirigido a alunos de Ensino Médio Técnico da Educação Profissional e Tecnológica. Publica poemas na zine Tropicalzin, de Colatina, ES. Possui inúmeros artigos publicados em livros, revistas e anais de congressos, abordando aspectos teóricos de obras literárias. É membro da Academia de Letras e Artes de Colatina (Alarc), ES.

Esta matéria foi publicada com autorização da autora e da revista Entrelinhas.

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