O Cais do Avião

Álvaro José Silva

As empresas aéreas do início do século XX usavam hidroaviões que decolavam e pousavam em mares, rios, lagos, lagoas, etc., e em Vitória, no bairro de Santo Antônio, era onde funcionava, antes e em seguida paralelamente ao Aeroporto de Vitória, o “hidro posto” chamado de “Cais do Avião”. Ou aeroporto marítimo. Nele, eram operadas aeronaves comerciais, inclusive de empresas aéreas internacionais já não mais existentes. Essa era a época em que aeroportos terrestres como conhecemos hoje eram raros.

Em 1936, o Governo Federal iniciou a construção naquele local de uma pequena estação de embarque e desembarque com flutuadores. Operavam em Vitória naquele ano a Panair do Brasil, o Syndicato Condor (nacionais) e a Pan American. Esta última, inclusive, na linha intercontinental Nova York–Buenos Aires com escala técnica (de reabastecimento) em Vitória. Para os padrões de então, uma linha épica de um voo que durava quase três dias.

O Syndicato Condor foi um braço brasileiro sul-americano da alemã Lufthansa. Operava aviões Foker de uso terrestre o marítimo e tinha o maior hangar de manutenção do aeroporto de Goiabeiras. Quando o Brasil declarou guerra à Alemanha em 1942, foi nacionalizado e se tornou a Cruzeiro do Sul Transportes Aéreos.

O hoje conhecido “Cais do Avião” era de concepção bastante simples, mas eficiente. Havia uma parte fixa onde ficavam a recepção, balcões de companhias aéreas e demais instalações burocráticas, com o setor de reabastecimento ao lado. Já na ponta de embarque/desembarque, o flutuante. O mar tem movimentos de sobe e desce (preamar e baixamar) e era necessário que os aviões seguissem esse vaivém. Por isso o flutuante subia e descia junto com eles, ligado por pranchas à construção de concreto.

O Cais do Avião foi construído por um consórcio do qual fazia parte uma empresa do Rio de Janeiro, a Construtora Mauá. O tanque de reabastecimento ficava ao lado da estação e os aviões eram abastecidos, quando necessário, por longas mangueiras. Ou então se posicionavam ao lado do equipamento com amarrações. Na prática “ancoravam” como se fossem navios.

Depois que o Aeroporto Naval foi desativado, por volta de 1948, ficou abandonado. Durante o governo de Jones dos Santos Neves, o flutuante havia se tornado “residência” de prostitutas e desocupados, inclusive com o uso de drogas. O governador pediu então a um dos construtores da antiga Mauá, que se encontrava em Vitória, Nelson de Albuquerque Silva, meu pai, que providenciasse o fim do flutuante. Este determinou a marinheiros de um rebocador, sob ordens do governo, que o soltassem e o afundassem adiante, a meio caminho entre Santo Antônio e a outra margem onde hoje se localiza o bairro de Porto de Santana, em Cariacica. O flutuante foi realmente solto, mas acabou sendo afundado ao lado do cais, onde está até hoje quase colado à calçada.

Nelson de Albuquerque Silva, que pediu o afundamento daquela parte do aeroporto marítimo, passou aos marinheiros as ordens do governador e pediu a eles para rebocarem a estrutura flutuante até o meio do canal para lá furarem os flutuadores. É que o flutuante era uma estrutura montada sobre uma determinada quantidade de barris de metal vazios. Eles sustentavam a base de concreto e piso, bem como os guarda-corpos laterais. Se os barris fossem furados eles se encheriam de água e afundariam. Isso deveria ser feito na parte mais profunda do mar naquela região.

Décadas se passaram!

Um belo dia, já em meados deste século, a historiadora Maria Clara Medeiros Santos Neves pediu-me para entrar em contato com meu pai. Fiz isso. Durante algumas sessões ela o entrevistou sobre assuntos ligados à Vitória dos tempos passados e à vida dele, tudo para o site que ela mantinha. Quando falou do Cais do Avião, Nelson contou a história de sua participação na obra e também o episódio do afundamento do flutuante. Então um popular que acompanhava o relato de longe e que era morador daquela região o interrompeu:

– Meu senhor, o flutuante está afundado aqui ao lado!

Meu pai não acreditou. Pediu para ser levado até lá, acompanhou o homem e teve que concluir: realmente a estrutura jamais havia sido levada até o meio do canal, conforme combinado, inclusive com o governador Jones dos Santos Neves.

Ele ficou inconformado. Pediu muitas desculpas à Maria Clara e falou sobre isso pelo restante do dia, inclusive na volta para casa, na Praia do Canto. Lá, enquanto abria uma garrafa de cerveja para combater ao mesmo tempo o calor e o mau-humor, falou finalmente com uma pontinha de sorriso nos lábios:

– Eu nunca deveria ter ido embora antes de ver a tarefa concluída. Fui enganado por aquele pessoal que parecia tão prestativo. Com toda a certeza, bastou meu carro dobrar a esquina e a lei do menor esforço fez o restante do trabalho.

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