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Os guizos da incompreensão

 

Pedro J. Nunes

 

 

Até ser desvendada em 1873 pelo médico norueguês Gerhard Armauer Hansen, com a descoberta do agente causador Mycobacterium leprae, a lepra, doença também conhecida como morfeia, mal de Lázaro, mal de Hansen ou hanseníase, foi um dos males mais cruéis de que padeceu a humanidade. Confundida com outras doenças dermatológicas, por muitos séculos a lepra foi para o doente uma sentença de morte, à qual se aludia com palavras como desonra ou vergonha. Sua referência em textos históricos e literários é enorme, dando conta da presença de leprosos em todos os continentes.

 

A igreja cuidou dos doentes durante séculos, mas o Concílio de Lyon, na França, decretou, na segunda metade do século VI, que os leprosos fossem segregados, uma vez que concebeu-se a ideia de que haviam sido afetados por um mal enviado por Deus, passando os enfermos a ser tratados como mortos. Tanto assim é que uma vez que a moléstia fosse confirmada, o infeliz, antes de ser enviado para o confinamento, tinha de comparecer à igreja para uma missa de corpo presente, recebendo, ao final, um hábito negro, uma pá de terra sobre a cabeça e os pés. Eventualmente, dentro de certas regras, os acometidos pela moléstia podiam se dirigir às cidades para esmolar, e muitos deles tinham sua presença denunciada por guizos, pequenas campainhas que faziam soar para sinalizar sua aproximação.

 

A história da hanseníase e as evoluções de seu tratamento e sua história no Brasil e no Espírito Santo são o assunto de livro que nos deram as assistentes sociais Alda Vieira e Dora Martins Cypreste, Hospital Dr. Pedro Fontes, antiga Colônia de Itanhenga, publicado pela Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo em 2014. Um livro valioso.

 

Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Espírito Santo, com especialização em Saúde Coletiva e Saúda da Família, Alda Vieira iniciou em 1982 seu trabalho como assistente social no Hospital Dr. Pedro Fontes. No mesmo ano, a também graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Espírito Santo Dora Martins Cypreste iniciou suas atividades profissionais no mesmo hospital, dedicando-se à luta contra o preconceito sobre os doentes.

 

Embora todo o livro seja notável, e ofereça uma leitura que empolga à medida que os fatos relativos a essa terrível moléstia vão surgindo, mais extraordinário ainda se torna ao lançar luzes na história da doença em nosso Estado, que só tem referência no Espírito Santo a partir de 1887, quando vinte e oito pacientes provenientes daqui deram entrada no Hospital dos Lázaros no Rio de Janeiro.

 

A Colônia de Itanhenga, mais tarde denominada Sanatório Dr. Pedro Fontes – um pioneiro no tratamento da doença no Espírito Santo – e hoje chamada Hospital Dr. Pedro Fontes, localizada no município de Cariacica, a 14 km de Vitória, foi fundada em 1937, e existe até hoje. Felizmente as assistentes sociais Alda Vieira e Dora Martins Cypreste, com o objetivo de registrar a memória do Hospital Dr. Pedro Fontes, escreveram este livro extraordinário, lançando a respeito dessa doença sobre a qual durante séculos pesaram os guizos da incompreensão um livro poderoso e um documento de inestimável valor.

 

 

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