Piazza San Marco

A luz quase me cega nesta luminosa tarde de sábado. Um truque? Talvez. Vejamos: você vem pelas vielas tortuosas onde não chega o sol, acompanhado pelo marzinho dócil que bate palmas nas amuradas, saudando sua passagem. Você vai amolecendo com essa cadência de sinais fraternos e anda com a alma sentada em enormes almofadões floridos. Algo muito doméstico lembrando os “gatos moles de sono rolando laranjas de lã” do Mario Quintana. Há muitas gôndolas ancoradas no cais, nervosas com o balanço das águas parecendo ansiosas para revelar aos passageiros as fascinações especiais de Veneza. Aí então, de repente. Aí, então de repente, você despenca num espaço vazio que lhe parece de uma dimensão descomunal. A luminosidade é intensa e, como disse, quase me cega. As formas vão se desenhando lentamente: a catedral, o leão de São Marcos, o Campanille... Mas não é isso. O grande espaço aberto é, em si mesmo, o enigma fundamental. Compreendo os que não suportam tanta beleza e começam a dizer palavrões desconexos. Quanto a mim, não fui capaz de dizer absolutamente nada. Explico-me: o passeio calmo pelas vielas esconsas estava sendo uma espécie de compensação pelo dia anterior carregado de inimagináveis emoções quando encontrei alguns parentes do Vêneto. Parentes que não via há mais de cem anos. Você ali, diante de seu passado. As pessoas se olhando e procurando nos vincos dos rostos vestígios da longa caminhada pelo tempo. Ninguém sabendo exatamente o que dizer. O incomensurável azul do oceano Atlântico interpondo-se entre nós. Elevamos nossas vozes para exorcizar os fantasmas e tentamos algumas senhas: “Lembra-se da grande confusão no dia em que o diabo se distraiu e deixou cair uma grande pedra no meio do Piave?” “Sim, mas é claro. Todos se lembram dessa história. O local é perto daqui. Podemos ir até lá. Antes porém, prove este vinho tinto, sangue desta terra.” Alguns copos depois, bebemos também o oceano Atlântico. Esquecemos o diabo e sua pedra.

Estes, portanto, os antecedentes mais imediatos nessa entrada no espaço inesperado da Piazza San Marco. Não há nada parecido com refeito do susto. O susto permanece até agora. Consigo apenas relembrar fiapos esgarçados dessa aparição espectral. Estou consciente que se trata de uma reação muito íntima e particular. Talvez por isso, por essa falta de pontos de apoio, é que a explicação ou a descrição se toma mais difícil ou mesmo impossível. Puxando um desses fiapos da memória vejo uma orquestra defronte o Harry's Bar. Nessa orquestra há um violinista muito magro e desanimado que olha com desconsolo para um ponto vago na direção do Palácio dos Doges. Está visivelmente triste. Mas, no momento seguinte, o maestro faz o sinal de rotina para que a orquestra recomece a trabalhar. O violinista pega seu instrumento, vai para cima de um estrado e lá se revela um excepcional virtuose. Há uma surpreendente vitalidade em seus acordes, que enchem os ares da praça com as dilacerantes notas iniciais do quinto concerto do “Estro armonico” de Vivaldi. A música é como uma grande bandeira que vai drapejando em direção ao mar, entra pelo edifício da biblioteca e atinge meus ouvidos como uma estocada fatal. Não resisto. Me agarro nas colunas de mármore do edifício para pousar a cabeça e chorar.

 

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