A primeira vez que vi o mar

Pensando agora, nunca imaginei que um dia escreveria sobre aquele verão em que fiz quatorze anos de frente pro mar. Meus olhos, até então, estiveram acostumados à vastidão das meias-laranjas que terminavam na serra do Bandeira ou na Pedra do Jaspe. Água, havia sim, as águas do Córrego do Bandeira, do Córrego da Areia e as temíveis águas do Rio Calçado e Rio Itabapoana, rios que já foram caudalosos e temíveis ceifadores da vida de quem se aventurasse demais em suas armadilhas. Mas eram águas que iam daqui para ali, com três braçadas ia-se de um lado a outro, de modo que, agora, aquele mundo de água ainda me parece uma imensidão suficientemente sedutora para que eu pudesse um dia pensar em traduzir os sentimentos que me causou. Não posso me esquecer do susto que levei quando, da margem de cá, não pude enxergar a margem de lá, a tal ponto que nem me asseverar podia se margem havia do outro lado.

Tinha eu quatorze anos em janeiro de 1976, janeiro em ventos, janeiro em novidades, em sargaços e sal e infinitude. Janeiro em que a pele morena de Joselane, fosse ela quem fosse, e era, de se ver – mas não de se tocar –, uma morena de pele marrom, de um marrom dos infinitos e dos incompreensíveis, janeiro em que a pele morena de Joselane inaugurava em mim umas angústias de homem que começa a largar a pele de menino. Janeiro da prima Vânia, para quem quase acaba o veraneio só de pisar em cheio num ouriço do mar, mar de tantos perigos, apesar da tamanha sedução. Janeiro de minha irmã caçula, que tão cedo via o mar. Mar de peixes nas redes, de barquinhos tremeluzentes, de gente calma, mar de uma época em que Piúma era o silêncio apenas interrompido por sussurro de marolas, apelo de vendedores e vozes alegres de quem se alegra com o mar.

Nem lhes disse eu que era Piúma, em casa de veraneio ofertada para a temporada de uma semana por Tibastião, irmão caçula de meu pai. E mais não lhes disse, que era Piúma uma vilazinha de pescadores de poucas casas, ruas de terra batida e cuja luz noturna, mortiça e amarela, mais fazia ansiar que o Sol viesse logo inaugurar o dia seguinte. Veraneio de pobres, de dormir em esteira de taboa e achar nisso a maior graça do mundo. Só pela graça de molhar a pele nas águas do mar.

Tinha eu quatorze anos em janeiro de 1976, e um medo horroroso de que meu pai morresse. Quanto mais que ele nos colocou a todos, mamãe, a mim e meus quatro irmãos, no seu rocinante Volkswagen azul, e se enfiou por uma rodovia federal a caminho da praia. Chegamos numa sexta, meu pai, sujeito às imposições do duro trabalho da roça, ficou conosco apenas até o depois do almoço de domingo. Tinha de voltar para cuidar de suas vacas, de seus pés de café, de seus roçados. E viria nos buscar no final de semana seguinte. Foi aí que me dei conta do tamanho do medo de que meu pai morresse, imaginando-o sozinho naquela rodovia selvagem num trecho de ida, cujo resultado eu não tinha como saber, e num trecho de volta que, por mistérios de adultos, eu não sabia quando se daria, mas que o traria de volta para mim. Dei em imaginar terríveis perigos cercando meu pai, sofri agonias terríveis nas abafadas noites de Piúma, derramei lágrimas ocultas que eram um verdadeiro mar escorrendo de meus olhos. Na manhã seguinte, burlando a vigilância de mamãe e minhas tias, que também haviam ido para essa temporada na praia, corri até a ponte de madeira de Piúma e pedi a ela que, do mesmo jeito que havia deixado meu pai passar de ida, deixasse-o passar de volta. Eu e a ponte éramos um pacto mudo de fé e promessas. Que se renovou todos os dias, tão logo a manhã ensejasse minha misteriosa fuga até a cúmplice silenciosa de minhas mais sofridas esperanças.

Na sexta-feira seguinte eu estava lá quando a ponte me devolveu meu pai. Lá vinha ele, sozinho e seguro na direção de seu Volkswagen, rocinante mas altivo, cheio de um brilho azul metálico que encheu meu coração de alegria e fez voltar a ventura de estar na beira do mar. Meu pai tinha voltado. Parou o carro ao lado de um menino aparvalhado, mas cheio de gratidão, ralhou comigo e me levou com ele. E então Piúma foi praia e mar e infinitude novamente.

É aquele cheiro de sargaços, peixe e sal que ainda hoje, quando passo em frente ao mar e o sinto, me lembra da primeira vez que vi o mar e do medo que tinha de que meu pai morresse. Medo que ofereceu uma longa trégua para que um dia, quando chegasse o momento, eu pudesse, de mãos dadas com a gratidão, oferecer meu pai de volta ao Eterno com um coração mais sereno. Por ora, e enquanto durassem as dádivas do tempo, tudo era praia e mar e completude.

 

Leia outros textos