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Graciano Neves

 

Graciano dos Santos Neves nasceu na cidade de São Mateus, em 12 de junho de 1868.

 

Médico, biólogo, professor, escritor e político, Graciano Neves foi um dos mais completos intelectuais da história do Espírito Santo.

 

Como político, foi eleito presidente do Estado, sucedendo a Muniz Freire, em 1896. Assumindo num contexto de crise econômica, com os preços do café em baixa no mercado internacional, Graciano pouco pôde fazer, sendo forçado a suspender as obras iniciadas no governo anterior. Como a situação se agravasse, Graciano Neves preferiu renunciar, datando o seu pedido de renúncia, de São Mateus, aos 16 de setembro de 1897, num simples papel de embrulhar pão.

 

Em 1901, Graciano Neves publicaria a sua Doutrina do Engrossamento. Engrossamento era o nome que se dava, no início do século, ao "puxa-saquismo". Engrossar era, pois, puxar-saco. Mas, atrás de uma fachada de riso e sátira - o volume era dedicado, por razões óbvias, ao Congresso Federal -, a Doutrina era substancialmente séria em sua análise da formação da sociedade humana, mostrando-se Graciano não só como o primeiro escritor capixaba a citar Marx, mas sendo, sobretudo em sua exposição, o primeiro marxista consciente de nossa história.

 

A interpretação histórica esposada por Graciano em sua Doutrina, é economicamente marxista: "Como disse Karl Marx - sem contudo aprofundar o problema - a religião, a política e a ciência são simples epifenômenos do fenômeno econômico." Ou "Não são precisos grandes esforços de interpretação histórica para reconhecer que é sempre uma questão econômica que decide da marcha de uma sociedade qualquer." Mais contundente ainda é a sua conclusão: "A mais superficial análise sociológica mostra-nos que a ideia de Pátria é indissoluvelmente ligada à ideia de Capital." E ainda: "A História da Humanidade não é mais do que uma História do Capital: e toda ordem política tem repousado exclusivamente sobre a instituição da Propriedade." E: "Os governos só se consolidam quando representam os interesses das classes mais fortes." O que vale dizer que, no seu caso, a representar os interesses das classes mais fortes, preferiu renunciar. Mas, depois de assinalar que "a verdade suprema é que o Capital faz a Ordem e a Ordem faz o Capital", Graciano passa a emprestar à Doutrina o tom jocoso que a caracterizará, destacando que "Quem sabe engrossar governa", ou governa quem puxa-saco. E isso Graciano diz com rara felicidade nos capítulos "Justificação histórica e política do engrossamento", "A técnica do engrossamento" e "A arte de engolir a pílula" .

 

Graciano Neves faleceu em 1922 e dele não sei de outro retrato melhor pintado que o que lhe fez Renato Pacheco em A oferta e o altar.

 

Os episódios se sucedem: Graciano biólogo, no Jardim Botânico da Capital Federal, elogiado pelo Ministro Simões Lopes; Graciano em concurso de filosofia, com Farias Brito; Graciano perdido na mata, de onde se salvou com auxílio de uma bússola; Graciano campeão de tiro ao alvo e de bilhar; Graciano calígrafo; Graciano biólogo, se divertindo ao escrever a Doutrina do Engrossamento; Graciano excêntrico (redigiu sua petição de renúncia ao cargo de presidente do Estado em folha de papel de embrulho); Graciano sempre primando pela perfeição. [Renato José Costa Pacheco. A oferta e o altar. São Paulo, Ática, 1983, p. 16]

 


Este texto foi escrito por Miguel Depes Tallon, publicado sob o título A doutrina graciana, introdução da edição do livro A doutrina do engrossamento feita pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo.

 

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- Doutrina do engrossamento, de Graciano Neves, prefácio à edição de 1935 por Mendes Fradique.

 

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