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Visitas ao Éden

 

Fernando Achiamé

 

                    I

  

A toda hora nos expulsam de algum paraíso

e, suplício de Tântalo, aos poucos sabemos:

para nenhum deles jamais iremos voltar.

A cada instante abre-se mais uma caixa

repleta de velha e novíssima poeira: Pandora,

que bens e males ainda existem pra revelar?

  

Noites se fecham, dias se abrem.

Pela Capitania

Dom José começa a viagem.

  

Deuses são Deuses em macrocosmos extremos,

mas, sem Humanos, quem os pode adorar?

Dom José Caetano da Silva Coutinho,

seu nome forma um verso alexandrino.

Homens são Homens em universos amenos,

por que suas obras não conseguem acabar?

A Capitania do Espírito Santo

tem seu nome em alexandrino também.

  

Portas se fecham, janelas se abrem.

Pela Capitania

D. José vai em viagem.

  

É um céu aberto: saúdam povos, canhões salvam

quem põe os pés aqui e desce do éden cortesão.

De sul a norte em 1812 o bispo vistoria um paraíso.

Em 1819 de cima pra baixo inspeciona outro parecido:

dos dois nos degreda em suas anotações de serviço.

A Palavra foi revelada, mas só depois da Expulsão.

  

Paraíso, um recinto circular,

pode ser o coração de um amigo,

até que o desamor nos tire de lá.

  

Assados se fecham, frutas se abrem.

Pela Capitania

Dom José aproveita a viagem.

  

 

                     II

 

Episcopal dever de casa:

despachar para a palavra

o que na memória se salva,

e bancar criador nessa história.

Palavra vale mais que tudo?

– Se a usou Deus, por que não eu?

 

Pastoral dever público:

sempre se fala ao passado,

algo dele sempre se escuta.

Em tudo Dom José repara,

tudo Dom José assunta.

Vê mulatinhas, doutrina meninos, presenteia meninas.

Com pobres conversa, lista nomes, anota línguas.

Anda ocupado na tarefa José Bonachão...

  

    ...se fecham,      ...se abrem.

...Capitania

Dom José...        ...viagem.

   (Escolham os termos que faltam.)

  

De tudo dá conta no seu caderno secreto.

Se secreto, por que então escreve?

não era melhor guardar no peito?

Poder exige registro, e é eterno por isso.

  

José ralhador rabisca.

Nas linhas e entrelinhas

bota usos e vícios de gentes mesquinhas,

discórdias de vereadores, bebedeiras de padres.

Reconta santos nos andores?

Serve o céu em altares?

Deixam-no bravo as desavenças

dos mulatos carolas da confraria do Amparo

com os mulatos carolas da confraria da Boa Morte

pela disposição de imagens na igreja de São Gonçalo.

Hoje não nos irritamos em reuniões de condomínio?

  

A Utopia, criação da gente,

fica no seu ou no meu cérebro,

mas não vale se for particular.

A quase Canaã é sempre distante:

necessário tocá-la, juntos nela entrar.

  

Caras se fecham, risos se abrem.

Pela Capitania

Dom José passa em viagem.

  

 

                         III

 

Com ou sem cisma ele crisma,

que isso é poder de bispo.

Quantas almas confirmou? almas em quantos fogos?

fogos em quantas ruas? ruas de quais vilas?

Vilas, oratórios, capelas: tudo de Nosso Senhor.

  

Um severo Dom José, com ele não se brinque!,

em seu oculto diário compila pecados antigos,

inveja, orgulho, luxúria,

e pecadilhos de gente que não sabia pecar,

faltas de pescadores que só amavam pescar.

Poluição, genocídio, tortura:

não sei se já pensava nos industriais pecados de agora,

mais pesados e dementes.

  

Casulas se fecham, véus se abrem.

Pela Capitania

o bispo firme na viagem.

  

Do litoral não se afasta.

Seu rebanho ribeirinho mora na beira d’água.

Doce água, água amara.

Água salsa, pura água.

Água pra todos os gostos.

Melhor não beberes água nenhuma

nem comeres qualquer fruta, hein Tântalo,

do que as tomares de um pântano de mitos.

  

Com dom de variado pastor,

pra que, José, inventar mais dor?

Mas, em trabalho de Sísifo,

num suplício de Tântalo,

qual acorrentado Prometeu,

você volta à de todos os dons, Pandora,

velha Eva, Vênus, nossa Mãe, Senhora.

  

E agora, Dom José?

Você, com dons de desvairado pastor,

dana a pregar às rosas-e-aos-ventos:

– A cada um seu valor! A cada um seu valor!

Báculo para os brancos.

Bastão pros mestiços.

Bordão nos escravos:

– Sejam sujeitos ao seu senhor,

como Nós tememos ao Senhor!

Liberdade é pasárgada pro cativo.

  

– No sertão só mata e bugre,

não vou em mato sem povo!

Guerra justa ao gentio!

É justo matá-lo de novo?

cadê a Terra Sem Males?

  

– Bispo Capelão-mor sou do rei.

Submissão aos grandes fatiga.

Altivez com os humildes cansa.

Mesmo assim as exercerei.

 

Tempos se fecham, sóis se abrem.

Por águas e terras da Capitania

Sua Reverendíssima segue em viagem.

  

            

               IV

  

– Dizei-me cá o apelido do país; lugar pobre e vazio...

Como vos chamam os de fora?

Capixaba, mas também Capitania,

que o dizer Capitania, sem o nome Espírito Santo,

a terra e seus naturais nomeia.

 

Clássico é o que fica do mudável.

Clássico é o que nunca se esgota,

para as mesmas perguntas

tem sempre novas respostas.

Releio o Romanceiro da Inconfidência,

depois de ouvir Dom José Caetano,

e topo com o negro Capitania.

Carrasco de bom coração?

Algoz oficial a chorar?

Verdugo que se lamenta?

  

Negro Capitania – homenzarrão

que pula no ombro dos enforcados

para abreviar-lhes o tormento

como se lhes pedisse perdão.

No ar eterno da misericórdia

também congelo este pulo.

 

Negro na Capitania nascido?

Ou vindo da África pra aqui?

Para estalos e enigmas

existe licença poética sim.

  

Se encontram capixaba e mineiro,

um no pescoço do outro enganchado,

na Grande Madrugada dum país inteiro.

     Adeus praias! Nunca mais desfiladeiros!

Entrelaçam-se capixaba e mineiro,

um no destino do outro montado,

pêndulo de patíbulo no Rio de Janeiro.

  

Ao tempo da primeira visita do bispo

fugida no Rio vive a Rainha Louca,

que irá morrer onde sua longa sentença

balançou pra sempre tais homens na forca.

  

Disso façam curtas, prédios, músicas,

pintem, bordem, poetem, modelem.

  

Do esquartejado sabe-se a história:

nós, como contínuos carrascos,

o cortamos em pedaços,

salgamos seus quartos,

separamos a cabeça;

e, tal como o negro fizera,

numa carreta o levamos,

de novo completo, pela vida brasileira.

 

Difícil escolher sua memória:

mártir de ruas, herói de escolas, patrono de batalhões,

herói de ruas, mártir de batalhões, patrono de escolas.

Ou como as palavras vocês trocarem.

  

Vive bem o negro Capitania.

Só na poesia. Na poesia de Cecília.

  

Histórias se fecham, poemas se abrem.

Sorvendo os ares da Capitania

nosso Dom José adianta a viagem.

  

 

                            V

  

Viu fumaças, fábricas? viu madeiras tombadas?

viu pedreiras vazias de pedras bem derribadas?

Blocos e blocos cortados, partidos pra jamais!

Ao menos agreguem valor às rochas; Quem

criou tal Jardim, igual outro não faz.

Dom José tomou café? café Capitan ia?

O caminho para Minas com certeza vislumbrou.

Falem-me da sua bronquite, dos cavalos que usou,

do novo parque de artilharia, dos casos de amores.

Nada digam sobre procissões, colchas rendadas, luzes,

governador em uniforme, rezas, sonetos, louvores.

  

No paraíso somos de casa: já estivemos por lá!

Estradas vindouras levam ao passado?

 

se fecham... se abrem...

Capitania...

viagem...

  

Tudo Dom José sabe, tudo Dom José noticia:

ladainhas, missas, padres, e seu dia-a-dia,

Veni Creator Spiritus e o que na pregação se dizia.

Grande Olho Social, em nenhum tempo falhas!

Interdita? vitupera? excomunga?

Interdita sacerdotes abocanhados de barreguice.

Vitupera leigos devido a muita sem-vergonhice.

Excomunga a mim e a vós

por não sabermos trasladar seus sinais.

De bom e puro somente o Éden original, não nós,

criados pelo mundo para ser sua degradação.

  

A terra não é a mesma,

nem as águas desta Capitania, nem os mares,

cheios de marlins (ex-espadartes), petróleos, gases:

urinar aos milhares no Atlântico Sul é profanação.

Não é o mesmo esse firmamento noturno

repleto de estrelas halógenas,

nem os claros céus são os mesmos,

cirros baixos, férreos estratos, cúmulos de poeira

e 97 vôos a jato pra cima e pra baixo todos os dias.

  

É bom e justo, razoável e necessário,

salutar e aceito que neste antigo Estado

devam existir mais caranguejos que pessoas.

Caras pós-modernos, temei o contrário!

  

façam o refrão de Capitania,

Dom José,

viagem...

  

 

                        VI

  

Paraísos e Apocalipses, começos e fins de histórias,

misturam-se bem mais do que deviam:

muitas Árvores e Cavaleiros em nossas trajetórias.

Ninguém foi 100% nada,

nem sei se também algo seria.

Ninguém é 100% negro ou 100% amarelo,

100% rubro-negro, Vasco, América, Olaria.

Não dá pra ser 100% auriverde pendão da minha terra.

Bispo não é 100% bispo.

Ninguém é 100% nada,

e neste rol até Deus e o Dito-cujo entrariam.

Uma porção disto, outro tanto daquilo:

somos o meio-termo do universo.

Aos puros instintos sem escolhas

preferimos os desgostos da Queda.

 

Apelo para os muitos mitos gregos:

Esfinge, Hefesto, Caronte, Hera, Zeus.

Invoco meia dúzia dos trabalhos de Hércules,

me responde infância monteiro lobata:

arte dura mais que gente e deus.

Notícias de Lugar Nenhum

penso num monte de Nãondes, de Harmonias

tipo bororo, nagô, hindu, cristão, islã, judeu.

Ah, New Harmony, Indiana, USA!

Consulto mitologias – Baal, Thor, Sakiamuni.

Vejo (o que já se viu): mito é a religião do Outro.

E reflito sobre o dito de uns xangrilás ateus:

Mateus, primeiro os meus, depois os teus.

  

Arcazes se fecham, malas se abrem.

Pela espiritual e santa Capitania

Dom José prolonga a viagem.

  

Há Nirvana com esta palavra-desejo?

Canso-me do monitor; sentado espreguiço os braços.

Dom José se aproxima, impõe sobre mim as mãos,

neste 19 de março, dia são josefino,

e, depressa, reproduzo voante oração:

  

Ó Deus!

Obrigado por me dardes a graça de não crer em vós!

Obrigado por me fazerdes cuidar dos vossos selos,

impressos fundo em mim, sem acreditar em vós!

Pois sem fé tudo é mais difícil.

Amém.

  

Dom José não é turista ligeiro

dispensa impedimentos de consangüinidade,

nem viajante estrangeiro

vê casar parelhas e parelhas de noivos.

Como um deus mofino,

vem de fora nos olhar por dentro.

  

Registra as patacas recebidas,

reclama da enxurrada de mendigos e lhes dá esmola.

Por que, como ele, não fiscalizar a natureza?

pelo verbo recriar rios, pedras, plantas, pássaros?

José faz política, apadrinha e benze,

super-humano inspetor de gente.

Um Tântalo a mais nessa história:

crê, escreve – descrê, descreve.

De sua letra miúda sai um grande ESPÍRITO SANTO

de duzentos anos-luz passados.

  

Paraísos são circulares,

só homens fazem quadrados.

Para tecer edens variáveis, Pandora,

na caixa a Esperança fica.

  

Livros findam; deles novas obras se fazem:

na Capitania do Espírito Santo

Dom José Caetano da Silva Coutinho

nunca mais acabará sua viagem.

 

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