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LEITURA

 

 

 

 


 

 

 

Toada da globalização

ou Pedro J. Nunes ponteia a viola

 

Fernando Achiamé

 

Quantas flechas tem no mar

navegando pra lá e pra cá?

Petrel Arrow, Isuru Arrow,

Disto Arrow, Daquilo Arrow.

 

Flechas partem e chegam,

é do seu feitio e do ser navio.

Palladium Arrow, Etc. Arrow.

 

Ó grosso livro do Lloyd’s Register londrino!

Quantas naves arrows ships

registras em tuas páginas de mar?

Quantas flechas lanças

nessas folhas com 10% de umidade?

Higroscópico material onde navios navegam,

navios naufragam, nomes se trocam.

 

Nomes são tudo.

No Register Book

cada linha – deusa criadora

cada palavra – Terra de Esperanças, mesmo afundadas.

 

Nomes de navios são amostras de futuro,

são casos obscuros, são auto-homenagens,

são lascas de passado, incógnitas o tempo todo.

Repubblica Di Genova

Sea Epoch

Star Alabama

MSC Yokohama

Star Hosanger       Star Hardanger

Ibis Arrow       Burger Arrow  –

   estrelas, muitas estrelas bóiam a sotavento,

   setas e mais setas flecham oceanos.

 

Livro do Lloyd’s Register de Londres.

Preservas num mar de navios

pedigrees, sucessões, homenagens lígias,

nomenclaturas inventadas, sonhos de época,

sei lá o que mais.

 

Grande livro e

Barcos em pleno porto

Realidade

 

Cê nunca pirateou um CD,

fita, amizade, uma transa? 

Ah! Sturm und Drang no peito,

ao modo dum tattoo interior,

abrigo neste pequeno porto

todos os barcos idos e vividos

que nem existem no Lloyd’s.

 

É verdade, cara, que você

nunca se autoplagiou?

Ah! Tormenta e Impulso em mim,

qual tatuagem interna,

copio sem minha autorização

músicas e navios que fabrico

para área de transferência ignota.

 

Navio é só um nome.

Axion I

MSC Aurora

Res Cogitans

Arucia Krajowa

Astro Enchova

Gur Master

Feng Shan Hai –

   eis a colheita em ponto da Sul América,

   ventania de nomes aportados em Vitória.

 

Eis a pequena messe:

Barão de Tefé

(e sua divisa Stella Nautis Ducens)

Holly

Drin.

Tudo num nome.

 

Qual redivivo Rui em Haia pergunto-respondo:

– Em que língua vocês querem que eu fale?

Coreano, inglês, português?

Italiano, grego, árabe?

Russo, polonês, chinês?

Latim, japonês, alemão?

Babel continua no porto,

mas sem o GRITO corânico – é só Juízo Parcial.

 

Sabe-se que os poetas continuam a poetar,

com nomes de navios que nadam pelo mar.

Poetas somos nós, gente quente ou fria,

que sempre se envergonha da poesia.

 

Importante é isto:

Free on board

FOB

Free on board

FOB

Livre a bordo

FOB

FREE

ON

BOARD

Livre a bordo.

 

Livre e desembaraçado de qualquer ônus?

Livre e desembaraçado de qual ônus?

Livre e desembaraçado de querer ônus?

 

Portas e janelas abertas!

proclama o oficial do registro civil.

Portas e janelas abertas!

Com portas e janelas abertas,

e doors e windows e dores,

o Outro se casa com o Mundo.

 

F.o.b. continua.

F.a.s. permanece,

f.a.s. – free alongside ship.

Livre ao lado do navio,

livre no cais ao lado do navio,

livre no cais,

livre no armazém do cais,

livre, livre.

Todo comércio é free,

preso ao tempo-dinheiro.

 

F.a.s. – acordo entre as partes envolvidas,

em telefonemas, cartas, faxes, e-mails, desejos.

F.a.s. – mercadorias livres,

livres das despesas com transporte,

transporte até o costado do navio,

navio no porto de embarque,

embarque para onde quiseres.

Porque as faturas e as cartas comerciais

são o princípio da história.

E os navios que levam as mercadorias

pelo mar eterno são o fim.

 

Cláusula c.i.f.

C.i.f. – cost insurance freight.

Tudo ficou bem claro,

Não adianta ter um troço:

Custo, seguro, frete

Estão no preço do negócio.

 

Trabalho de estivador.

Não falta dinheiro, mulher,

filhas, filhos, namorada.

Tudo isto vale, mas

felicidade é por nada.

 

Bom ser feliz por nada.

Por um canto de galo, música animal,

em qualquer tarde de qualquer sol.

 

Dependes de pouco, difusa felicidade,

dependes de pouco.

Basta olhar o branco / vazio

da página e

guindasteiros entoam free on board!

arrumadores em coro free on board!

conferentes contraponteiam free on board!

E contêineres,

insatisfações, carregamentos,

sacarias, cobiças, bobinas,

vaidades e engradados

chegam a bordo.

 

E toda vez ouvem-se

cantos de free on board!

aboios de FOB! ou

duetos de CIF! CIF! em sotaque capixaba nosso.

Ondas sonoras abraçam o mundo –

o grande cosmo marítimo now é mar íntimo.

 

Intimidade mesmo é com vento sul.

Num nanossegundo saber seu sopro:

- Virou leve, de manhãzinha lá no morro.

Intimidade que nem sax com jazz:

- Está entrando vento sul!

 

Nesta opereta da estiva

(sem ser o planeta certinho de lanchonete McDonald’s)

motorista sai do caminhão

solando no cais: FREE ALONGSIDE SHIP! 

ou FAS! se for sintético.

 

É necessário que exista uma gravação ao menos,

uma buzina, uns apitos, sei lá,

uns avisos, um som, uma vontade,

não somente exigências em contratos e condições.

Por que não entoar a plenos pulmões:

COST INSURANCE FREIGHT? Ou CIF?

COÛT ASSURANCE FRET? Ou CAF?

Por que não cantar alto:

CUSTO SEGURO FRETE?

Por que não esse ritual?

 

Mas sem muita certeza de nada.

Deus é o acaso humanizado.

Desumanizar deus – força das religiões.

Pelo sim, pelo não:

ritual no coração,

como seriam os BONS DIAS!

que vizinhos um dia se dessem.

 

Todo coração é FOB.

A gente é FOB, às vezes.

Às vezes CIF.

Às vezes NADA.

 

Esta é mais uma história.

Longa história de descobertas dos mares d’antes navegados.

Mais difíceis, mais ingratos, os tempos d’antes navegados.

A melhor história, a que nos contam?

A que contamos?

Qual melhor?

A que tem mais coração?

 

Ritual no coração.

Do outro lado do mar redondo

um companheiro responde: free on board!

Outro mais alto entoa, mais coração traz na toada:

FREE ON BOARD!

Todos continuam a melodia,

f.o.b. em poesia vira e

de cabo a rabo nos fazemos poetas

no mar sereno da nossa intranqüilidade.

 

Em qualquer lugar deste poema,

interpolação imperfeita,

comparece outro Fernando Antônio

– nome composto, duplo xará –

mas vero poeta e português.

Onde estarão seus versos?

É mania humana marinheiros só quererem Mar,

músicos só Música e poetas viverem de Maia-ilusão.

 

Register Book do Lloyd’s Register of Shipping.

Encerras no volume antigo,

em quatro novos volumes,

na liturgia-internet novíssima

sons e fúrias em navios globe-trotters

 

Na vida, tudo é ritual. 

 

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