Luiz Guilherme Santos Neves

 

A Pedro J. Nunes (*)   

 

ÍNDICE

(Clique no link e acesse os textos.)

 

1. Tertuliano

2. Cavalgadas de luxúria e êxtase

3. Nunca morrer num dia assim

4. Lembranças fugidias

5. Formosura distante, jamais esquecida

6. Paixão silvestre

7. Nudez escultural e exata

8. O dia seguinte

9. Visita à casa paterna

10. Rapsódia em azul

11. Infância

12. Delírio espetacular

13. Delírio extremo

14. Particularidades

15. Dança na ilha dos Amores

16. Amor sonâmbulo

17. Noites de via-láctea

18. O gênio pigmeu

19. A tanajura e o gafanhoto

20. Confissão

21. Justificação

Apêndice. A propósito da dedicatória

 

 

 

© Luiz Guilherme Santos Neves. Todos os direitos reservados.

 

VOLTAR

 

 

 

 

 

 

1

 

Soneto mote de todo o contexto: Velha anedota - Artur Azevedo


Tertuliano, frívolo, peralta,

Que foi um paspalhão desde fedelho,

Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,

Tipo que morto não faria falta;


Lá um dia deixou de andar à malta,

E, indo à casa do pai, honrado velho,

A sós na sala, diante de um espelho,

À própria imagem disse em voz bem alta:


- Tertuliano, és um rapaz formoso!

És simpático, és rico, és talentoso!

Que mais no mundo se te faz preciso?


Penetrando na sala, o pai sisudo,

Que por trás da cortina ouvira tudo,

Severamente respondeu: - Juízo.

 

   
   
   
   
 

Tertuliano
 

 
 

Forçoso dizer que não sou o que meu pai esperava que eu fosse: sério, decente e respeitável. que se há de fazer? Não se pode mudar a roda da vida. Nasci como sou, como sou, sou: frívolo, peralta, paspalhão desde fedelho. Decepcionei o velho? Paciência. Sempre tive complexo de Narciso e, vaidoso e velhaco, fui e ainda sou. À minha imagem refletida num espelho, em qualquer espelho, mas de preferência nos ovais e grandes, com molduras de pau marfim incrustadas de florões dourados, nos quais pudesse me admirar de corpo inteiro, sempre me dirigi a mim mesmo em voz bem alta para que pudesse ouvir o som de minhas palavras nos auto-elogios que me fazia. Não tenho culpa se, certa feita, na casa de meu pai, quando na sala em penumbra mirava-me qual prima-dona, à frente de um desses espelhos ornados de nobreza, veio-me à sorrelfa aquela honrada e sisuda criatura para interromper o meu diálogo com a imagem refletida em prata e severamente me recomendar juízo. Não gostei do que ouvi, embora reconheça que juízo sempre me faltou.

 

Mas juízo para quê?  Se juízo tivesse, como queria meu velho pai, não teria amado as mulheres que amei, não teria ganhado (posto que também não perdido) o dinheiro que ganhei, nem provado das bebidas e comidas que provei.

 

Juízo, meu pai?


A mim nunca me foi preciso. E foi bom assim, porque posso dizer agora, no ocaso dos meus dias, que vivi a vida. E ainda conservo os sisos.

 

 

 
 

2

 

Soneto mote: Saudade - Raimundo Correia

Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...

Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos...

Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lajes frias;

E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...
 

 
 

Cavalgadas de luxúria e êxtase
 

 
 

Eu, frívolo, peralta, declaro, sem pudor: em muito coche real rodei nas calçadas e praças, hoje abandonadas, da velha cidade, de arcarias negras e torreões medonhos. Por suas ruas de cinzentas brumas e desencontrados paralelepípedos, subi aos píncaros dos prazeres carnais enquanto desfrutava, de facho purpurino e hirto, amantes que avassalava nos bancos estreitos e sacolejantes dessas carruagens tiradas a burro, colhendo-lhes (delas e não deles) gemidos desfraldados de prazer entre o farfalhar das saias repolhudas com que vinham vestidas, e ainda rendadas de finos ouropéis - o Diabo que o diga! - para as nossas cavalgadas de luxúria e êxtase.


Vivi - vivemos - momentos de loucura, entregues aos ardores do sexo, vibrando em uníssono como quem canta retumbantes hinos, ao som de distantes e imaginários clarins e bimbalhar de sinos, mutuamente tragando-nos no obscuro nicho dos coches obscuros que, de cortinas erradas, cruzavam por legiões de povo.


Tudo passou!


Mas nem por isso, como um Jeremias sobre a Jerusalém de tantos sonhos e prazeres incontidos, meus olhos se fazem úmidos ou tristonhos. O que me ficou foi uma saudade antiga, mas sem prantos e sem lamentos.

 

 

 
 

3

 

Poesia mote: In extremis - Olavo Bilac

Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! De um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! Postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados...

E um dia assim! De um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...

E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! E este medo!
Nós dois... e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais a morte...

Eu com o frio a crescer no coração - tão cheio
De ti, até no horror do verdadeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!

E eu morrendo! E eu morrendo,
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! A delícia da vida!
 

 
 

Nunca morrer num dia assim

 
 

 

Outras houve, claro que houve, e asseguro que não foram poucas, nos dias da minha vida em que andei à malta. Poderia até recitar seus nomes e sobrenomes, com eles compondo frases inteiras em alexandrinos versos, numa enxurrada infindável, e queiram crer que não me gabo de sabê-los todos de cor e cor porque afirmo que nomes femininos têm cor.

Ninguém, porém, jamais fez de mim o que de mim fizeste porque somente tu foste capaz de me fazer morrer, morrer assim, num dia assim, de um sol assim, mais até, morrer no esplendor do fim da primavera, gemendo e bradando assim, assim, enquanto tu, desgrenhada e fria - como era possível este mistério da carne, amar exaltadamente e, no entanto, manter-se fria ou de frígida se fingir? - postos nos meus os olhos teus molhados, apertando nos meus os teus dedos gelados, assim, assim, transportando-me à esfera azul do firmamento onde meus gritos de prazer voavam e reboavam como pássaros com asas tontas de luz sacudindo arvoredos, despencando rosais, agitando em flor a terra toda, assim, querida, nós dois somente, únicos e eternos, e, entre os dois, implacável e forte, o nosso espanto e o nosso ardor ensandecido, ardor de insanidades canibalescas, ardor de morte morrida (Nunca morrer assim? Mas claro que sim!) num dia assim, de um sol assim, e eu morrendo com o frio a me dominar o coração cada vez que, entrelaçado em ti, beijava freneticamente a tua boca, desfalecendo de gozo, assim, querida, mais forte, mais forte ainda, tão forte e poderoso gozo que me fazia ver o sol de dentro dos meus espasmos prazerosos, e ver o céu, e ver a lua, e ver estrelas, o firmamento todo azul-profano, vendo-te tão bela a delirar de contentamento sob o meu corpo, vendo em flor a terra toda, sentindo o vento sacudir o arvoredo, ninhos cantando, asas de luz, ah, delícia da vida, delícia que me fez morrer assim, num dia de sol assim, postos nos meus os teus olhos molhados, apertando nos teus os meus dedos gelados, assim, querida, oh, desgrenhada mulher que me fizeste provar em vida os regalos da morte.

Houve outras? Claro que houve. Mas nenhuma como ti - proclamo aos gritos.

 

 
 

4

 

Soneto mote: Indiferença - Guilherme de Almeida

Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado.

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos,
Volta-nos sempre a pálida lembrança,
Daqueles tempos que não voltam mais!
 

 
 

Lembranças fugidias
 

 
 

Foi brutal o nosso rompimento. Apontaste-me a porta da rua, serventia da casa, e raivosa escorraçaste-me como a um cachorro: "Some, nunca mais te quero ver." E ainda acrescentaste: "Cretino, ordinário, paspalhão, moleque!".


Mas daquelas duras palavras com que me enxotaste, a que mais feriu os meus ouvidos, enquanto deixava a tua casa de fininho, foi aquele paspalhão que me atiraste em cheio, fazendo-me lembrar os tempos idos da minha ida mocidade e a figura de meu velho pai ao surgir de mansinho, às minhas costas, para me repreender secamente, em frente a um espelho, no qual me contemplava embevecido, achando-me formoso, simpático e talentoso.

Durante meses, não mais nos vimos. Eu por aqui fiquei, nesta cidade velha e embolorada, de arcarias negras e torreões medonhos. Tu, alguém me disse, porque há sempre alguém para dar notícias sobre os epílogos dos romances desfeitos, viajaste para Santa Catarina, para São Francisco do Sul, se não erro o nome do lugar aonde foste curtir as mágoas do nosso falido amor, como se assim pudesses varrer o nosso passado.


Um dia, por mero acaso, vi que estavas de novo nesta cidade velha e bolorenta, quando ao teu lado passei e me voltaste o rosto, como se nunca me tivesses visto. Numa segunda vez, também inesperadamente, fui eu quem te viu, mas, ressabiado e precavido, baixei a vista num gesto rápido como se eu sempre não te houvesse amado.


Criamos assim um código de esquivanças automáticas e de não-olhares defensivos, nós que fomos tão íntimos, e quão íntimos fomos!


Ontem, porém, sem querer nos entrevimos. E nesse instante delicioso e cruel, no teu olhar que me alcançou e no meu olhar que se cravou no teu, voltou de súbito (falo por mim, mas percebi também em ti, na desconcertante reação que esboçaste), a pálida lembrança daqueles tempos que não voltam mais. E que lembranças estonteantes - só Deus sabe, só nos dois sabemos -, num simples entrecruzar de olhos fugidios!

 

 

 
 

5

 

Soneto mote: Formosura ideal - Zeferino Brasil

Esta visão que em sonhos me aparece,
e que, mesmo sonhando, me resiste,
por que foge, por que desaparece,
mal eu desperto, apaixonado e triste?

Por que, branca e formosa resplandece
como uma estrela, e a torturar-me insiste,
se é certo, - oh! dor cruel que me enlouquece!...
que ela somente no meu sonho existe?

Cheia de luz e de pureza e graça,
- alma de flor e coração de estrela -
ela, sorrindo, nos meus sonhos passa...

E sempre a mesma angústia dolorida:
branca e formosa dentro d´alma tê-la,
sem poder dar-lhe forma e dar-lhe vida!

 

 
 

Formosura distante, jamais esquecida
 

 

 

Esta visão que em sonho me aparece, sempre às sextas-feiras de lua cheia, é triste porque desnuda a besta-fera que eu sou, à cata do hímen imaculado das donzelas.


O sonho é recorrente: vejo-me diante de um sobrado colonial que tem janelas com venezianas douradas e varandinha de ferro batido. Pelo lado de fora, uma escada sinuosa de madeira dá acesso à parte superior, onde termina numa porta que se abre em duas bandas, separadas pelo meio. Mas a entrada está sempre fechada, quando começa o sonho. Ouço então uma voz que me chama docemente: "Vinde a mim, Tertuliano, oh, meu amado!"


Sei que meu nome, um feio nome, não é de inspirar romantismo a ninguém, mesmo às mais românticas donzelas, mas, no sonho em que flutuo, desconsidero essa desvantagem nominal para me concentrar apenas na parte que encerra o chamamento, "oh, meu amado!"


Porque ali, sozinho, em frente ao sobradinho de outros tempos, eu sou o amado daquela que me chama docemente. E imagino-a cheia de pureza e graça - alma de flor e coração de estrela -, aguardando-me trêmula e desejosa. Ou será que a imagem que teço da ignota criatura só no sonho que eu sonho é que existe?


Mas passo também por cima dessa dúvida para atender, pressuroso e aflito, ao chamado que me leva pela escada sinuosa - sim, porque já estou a subir os seus degraus qual gato pardo em noite de cio -, ávido, avidamente ávido para trespassar ao meio a porta que se abre ao meio, e que, no entanto, está fechada até que eu a vare como um desvairado aventureiro.


E eis que a transponho e ponho o pé direito - o pé da sorte - dentro do sobradinho, onde desemboco numa alcova, porque este meigo sobradinho onírico não passa de uma alcova.


E vejo então ali, deitada sobre um leito, aquela que há pouco para mim era uma voz clamando docemente em surdina, mas que agora é uma nítida donzela que me olha enternecida e branca e que formosa resplandece como uma estrela (novamente a imagem da estrela me acomete), sorrindo para mim como somente em sonho é capaz de sorrir uma estrela, formosa, branca e enternecida.


Paro estupidificado ante tanta beleza, aos meus olhos exposta, e ainda por cima indefesa, esquecendo-me por alguns instantes que, nos meus sonhos das sextas-feiras à luz da lua cheia, sou uma besta-fera famélica - oh! dor cruel que me enlouquece! -, que sai à caça da pureza das donzelas.


Mas é parada curta, somente para recobrar o fôlego. Logo, viro a fera bestial das sextas-feiras enluaradas e, de pêlos eriçados, caninos à mostra, baba espumante, olhos incandescentes, arremeto sobre a visão que em sonhos me aparece, e a torturar-me insiste, mas que se desfaz num átimo ante a minha fúria, porque foge, porque desaparece, sem que eu possa dar-lhe forma e dar-lhe vida.

 

 

 

 


6

 

Soneto mote: Miriti - Martins Fontes

Beijei, na Ilha do Sol, a uma palmeira,
Que ainda mais que o jasmim e o vetiver,
E a malva-rosa de São Paulo, cheira,
Cheira, em setembro, a carne de mulher!

Porém trescala o odor, de tal maneira,
Que entontece e perturba a quem tiver
A volúpia brasileira
De provar esse eflúvio rosicler.

Falei-lhe, à noite, apaixonadamente,
No harém do bosque, perfumado e quente,
Ninho aromal, romântico aranhol...

Outros prazeres esqueci na vida,
Mas não te esqueço, Miriti florida,
A quem beijei, ao luar, na Ilha do Sol.
 

 

 

Paixão silvestre

 

 

 

Pensem no Paraíso antes da serpente. Digo melhor: pensem nele antes de Eva. Ali vivia um solitário Adão, porém feliz e satisfeito, até porque estava só, sem se aperceber que só estava. E por que se aperceberia Adão da sua humana solidão se o Paraíso todo lhe bastava? Flores, frutos, frondosas árvores, aromas silvestres por toda parte se espalhavam. E Adão reinando à vontade, dono do seu umbigo, senhor do seu nariz, e, ainda por cima, nu, nu em pêlo ou sem pêlo como quiserem.


Complete-se agora o quadro de felicidade do nosso pai Adão: estava solitário, feliz, satisfeito e nu, e ainda assim sentia-se simples e ingênuo, porque não se sabia nu, nem se sabia exposto com a sua vergonha cabisbaixa e triste.


Por que ir tão longe, ao recuado Paraíso, antes de Eva, antes da serpente, no tempo que a Adão nada mais no mundo se fazia preciso, para contar aos que me lerem o que aos que me lerem a lhes contar estou?


Explico-me, pois justificar preciso.


Eu também vivi o meu momento de Adão numa ilha de sol, aonde fui ter um dia, pelo vento da poesia transportado. E na ilha chegando, e na ilha me estabelecendo para uma longa temporada de isolamento e devaneio, fiquei entregue apenas a mim mesmo, sem ninguém para conversar, sem mulher alguma para amar, sem serpente nenhuma para me ameaçar a paz. E foi então que me voltei, naquele ambiente primaveril e insular, para a natureza que à minha volta me cercava num amplexo verde, de verde mata, de silvestre verde, trescalando odor de tal maneira que a mim me entontecia e perturbava.


Mas estou lhes falando da sensação primeira, a sensação que me causou a ilha perfumosa logo que nela aportei e que me invadiu num sentimento geral de voluptuosa descoberta. Pois saibam que era só o começo, antes que eu desse com os olhos na jovem palmeirinha que cheirava a malva-rosa, ou, para ser mais exato, antes que a jovem palmeirinha a mim se insinuasse tentadora, recendendo a jasmim e vetiver (tanto perfume numa palmeirinha única, saberia eu depois, era cheiro de carne de mulher, odor de pecado).

Que amei a palmeirinha na ilha solitária, ninho aromal onde fui parar, amei. Que lhe falei à noite, apaixonadamente, no harém do bosque, perfumado e quente, falei. Que a beijei na ilha deserta, beijei. E da volúpia que provei não me recrimino nem me espanto. Talvez o pai Adão, em seus tempos de felicidade paradisíaca, antes da serpente, antes de Eva, quando ainda mantinha a vergonha cabisbaixa e triste, nunca tenha vivido experiência semelhante à minha, com o meu amor naturalista pela Miriti florida.

 

 

 

7

 

Soneto mote: Na alcova - Zeferino Brasil

Formosa e diáfana visão de lenda,
Elsa, subindo o leito de escarlata,
o cortinado cerra, e a rir, desvenda
a alva nudez escultural e exata.

Antes que o fino laço se desprenda,
a loura coma em ondas se desata,
e a moça esconde em flóculos de renda
o régio corpo modelado em prata.

Doce perfume o colo lhe embalsama...
Abrindo as asas de rubi e lhama,
olha-a, entre flores, um cupido louro...

Cerra, afinal, as pálpebras de neve,
e o sonho desce, e estende, leve, leve,
sobre o leito o estrelado manto...
 

 
 

Nudez escultural e exata
 

 
 

Lembram-se vocês do quadro de Velásquez, Vênus olhando-se ao Espelho? Vista de costas, numa pose nua, ocupando toda a extensão da tela, uma jovem acha-se estendida sobre um leito coberto com uma manta azul turquesa, tendo no fundo um cortinado rubro, de rubor erótico. Diante da deusa, um cupido de feições matreiras sustém um espelho onde se reflete o rosto da Vênus em camafeu à parte.


Mas o rosto refletido no espelho, dizem os entendidos em artes plásticas, é um mistério intrigante no mundo das artes, porque não parece corresponder ao da jovem à frente do espelho, antes está ali como se fosse um outro rosto, um rosto estranho e misterioso, um intrometido rosto que não guarda sintonia com o corpo lânguido e casto da diva estendida sobre o leito.


Por que invoco aqui o quadro de Velásquez, me perguntarão alguns. E a esses alguns respondo: havia uma gravura que reproduzia o quadro da Vênus olhando-se ao Espelho no quarto, colado ao meu, na casa de meu pai, onde a minha prima Elsa - a preferida dentre as minhas primas - veio dormir uma semana.


Avaliem a extensão do que lhes digo: ao lado do meu, no quarto com a pintura da Vênus olhando-se ao Espelho presa à parede que os dois quartos separava, uma outra Vênus, em carne e osso, veio dormir uma semana.


Se perdi o juízo com a proximidade provocante dessa deusa, real e pura, ao meu lado disponível em noturno abandono, hão de querer saber alguns dos que me lêem? Pois respondo que só não perdi o juízo porque nunca o tive. Mas confesso que fiquei alucinado. E alucinado fiz o que só um alucinado faz: armei uma tocaia.


Com uma habilidade pervertida de que nunca me julguei capaz, abri, na parede entre o meu quarto e o da minha priminha preferida, um furo, furo discreto, insignificante furo, que dava exatamente em cima (não adivinham adonde o furo dava?), pois dava bem em cima de um dos olhos da imagem da Vênus de Velásquez refletida no espelho que o cupido segurava.


Se o rosto da deusa já era estranho para o mundo das artes, mais estranho passou a ser com a intromissão do meu olho de pirata que, em secreta segurança, pôde devassar o interior do quarto onde a diáfana Elsa veio aterrissar.


E assim, graças ao meu inventivo estratagema, pude desfrutar da visão da divina gema no quarto vizinho ao meu, visão de lenda que todas as noites se reproduzia.


Com o sublime prazer dos voyeurs, deliciei-me durante sete dias com a formosa Elsa subindo o leito de escarlata, o cortinado cerrando, e a rir, deixando cair em ondas, sobre seu régio corpo modelado em prata, a cabeleira loura que do laço desatava para desvendar, diante do meu olho fremente de prazer, encravado na imagem do espelho da gravura de Velásquez, toda a sua alva nudez, escultural e exata.


Mas como não há bem que sempre dure, veio o triste dia em que a prima Elsa foi embora. Ao nos despedirmos no jardim da casa de meu pai, honrado velho, este seu não tão honrado filho deixou escapar uma confissão que, em seu duplo sentido, era absolutamente verdadeira, além de uma homenagem àquela que partia:


- Vou sentir muito a sua falta...

 

- Eu sei - respondeu-me a deusa que se ia. E completou: - Mas agora você não vai mais ficar de olho pregado na parede.


Assim falando, riu o mesmo risinho cheio de malícia que ria quando subia ao leito de escarlata e, de cabeleira solta sobre o régio corpo modelado em prata, deixava-se desvendar em toda a sua beleza escultural e exata.

 

 

 
 

8

 

Soneto mote: ...Depois - Guimarães Passos

Para mim, pouco importa a recompensa
dos meus carinhos quando te procuro;
dirão que tens um coração tão duro,
que pedra alguma há que em rijeza o vença.

Dirão que a calculada indiferença
com que tu me recebes é seguro
condão que tens de todo o meu futuro
trocar, sorrindo, em desventura imensa.

Dirão... que importa a mim? Dá-me o teu leito,
dá-me o teu corpo, fecha-me nos braços,
une os lábios aos meus, o peito ao peito,

que eu nem saiba qual seja de nós dois...
Mentem teus beijos? Mentem teus abraços?
Seja tudo mentira... mas depois.
 

 
 

O dia seguinte

 

 
 

- Você foi pra cama com Tertuliano? - perguntou a amiga de Pietra.


- Quem lhe disse isso?


- Tertuliano...


- Cafajeste!


- Cafajeste sim ou cafajeste não?


- Como assim? - indagou Pietra.


- Você foi ou não foi pra cama com ele?


- Claro que não! Vê se ia me abrir para aquele calhorda...


- Mas vocês jantaram juntos...


- Quem te falou?


- Tertuliano...


- Cafajeste... - voltou a repetir Pietra.


- Jantaram, então?


- Não é porque jantei que fui para a cama com ele...


- E por que jantou?


- Por quê? Por quê...? Jantei por uma questão feminista...


- Esta você vai ter de me explicar - disse a amiga.


- Foi para mostrar àquele calhorda que nem toda mulher ele conquista... Honrei meu nome e me fiz de pedra, toda vez que ele tentava a investida. Para falar a verdade, ri da sua cantada, deixando-o maluco com a minha recusa... Comigo sua lábia não deu certo.


- Dizem que ele é bom de lábia... - observou a amiga.


- É o que não lhe falta... Chegou a me dizer uns versinhos.


- Versinhos...?

 
- Pelo menos achei que fossem.

 
- Que versinhos?


- Sei lá... Disse que o sonho dele era me levar pro leito (ele não falou cama, falou leito), que queria me fechar nos braços, juntar meus lábios aos lábios dele, juntar os nossos peitos sem que a gente soubesse quem era ele ou era eu, vê só...


- E depois? - insistiu a amiga.
 

- Foi o que eu perguntei a ele... e depois? Depois você vai sair por aí contando vantagem, dizendo pra seus amigos que me comeu... - disse Pietra.


- Você falou isso pra ele?


- Falei!


- Falou comeu?


- Falei...


- E qual foi a reação dele? - quis saber a amiga.


- Disse que eu estava enganada, que jamais faria uma coisa dessas...  que até respeitava minha resistência de pedra em não "ir" com ele, mas que, se eu fosse, ele guardaria segredo para sempre, segredo inviolável... Chegou a me propor que se fôssemos para a cama, e alguém soubesse ou perguntasse, diríamos que era mentira, tudo mentira... Seria um acordo entre nós... Acordo sagrado! Ele realmente é bom de lábia...


- Mas não é o que ele anda dizendo por aí... - confidenciou a amiga.


- E o que está dizendo?


- Está dizendo que viveu com você uma experiência gloriosa... Que você até ganiu na cama ... Pelo menos foi o que me disse...


- Filho da puta!


- É tudo mentira?


- Claro que é... - disse Pietra.


- Mas é a mentira que vocês combinaram dizer ou...?


- Mentira pura! Nunca fui pra cama com ele. E sabe o que mais: que importa a mim o que ele está dizendo se eu sei que não é verdade? Pra mim o que vale é o que eu fiz, ou o que eu não fiz! - E arrematou, agastada: - Cafajeste...! Calhorda!

 

 
 
 

9

 

Soneto mote: Braços - Cruz e Souza

Braços nervosos, brancas opulências,
brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
alvuras castas, virginais alvuras,
latescências das raras latescências.

As fascinantes, mórbidas dormências
dos teus abraços de letais flexuras,
produzem sensações de agres torturas,
dos desejos as mornas florescências.

Braços nervosos, tentadoras serpes
que prendem, tetanizam como os herpes,
dos delírios na trêmula coorte...

Pompa de carnes tépidas e flóreas,
braços de estranhas correções marmóreas,
abertos para o Amor e para a Morte!
 

 
 

Visita à casa paterna

 

 


Sentimentalismo de velho, o impulso doentio que nos faz voltar aos tempos de infância. Mas a ele me curvei e, quando dei por mim, estava na casa de meu pai, no casarão centenário, hoje quase em ruínas, onde vivi meus dias de criança. Passei pelo portão de grades desgastadas, outrora prateadas, hoje beirando a ferrugem, e caminhei no jardim em decadência sobre o tapete de folhas secas como se pisasse em ovos. E de certa forma pisava porque voltava ao encontro de mim mesmo, de um Tertuliano peralta e ardiloso, num retorno que era de ser feito pisando leve.


Segui pela alameda de pedras rudes, entre as quais o mato espichava a cabeleira verde, e parei diante do banco em frangalhos, onde meu pai se sentava nas tardes límpidas de outono para ler Garrett, Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco. Ali, também eu, de fuça voltada para o alto, esticava-me indolente para ver os raios do sol se infiltrar entre as folhas da grande castanheira até ferir o fundo dos meus olhos, no limite da cegueira.


Do banco fui além, mergulhando no além da casa morta: cheguei ao orquidário; do orquidário, ao caramanchão onde tivera endereço uma parreira agreste, agora totalmente extinta; da parreira esbarrei no pé de tília que, com suas folhas ásperas e vivazes, ignorava a derrocada que reinava à sua volta; da tília dei à estátua que imitava a Vênus de Milo, estanque perto de um lago estanque, por sinal imundo.


A Vênus parecia ter envelhecido tanto quanto eu ou quanto o lago, talvez evido ao limo acumulado pela pátina do tempo sobre a sua epiderme de mármore, antes alva e virginal, mas que adquirira a aparência de um fantasma com seu tom de verde repulsivo.


Mesmo assim aproximei-me dela, reverente e circunspeto, como quem revisse uma antiga amante. E me revi amante quando pulava, menino, à hora da matinas, a janela do meu quarto, para ir abraçar a Vênus do jardim da casa paterna.


Dirão os que me ouvem que o meu abraço era um abraço frio, mórbido e mortiço, um amplexo sem nexo numa mulher desprovida de braços e de vida. Enganam-se, porém, os que assim pensarem.


Na minha imaginação incandescida, na lubricidade assustadiça e florescente de quem se entregava às iniciações do sexo, a estátua tinha braços, braços nervosos, de fúlgidas brancuras. Não disse tudo: a deusa tinha braços de brumais alvuras e de brancas opulências. Melhoro a hipérbole: seus braços, que me apertavam contra os seios duros e perfeitos, eram por mim imaginados como tentadoras serpes, de letais flexuras. Querem saber de mais? Eram braços de latescências das raras latescências, e aqui eu disse tudo.


Quando já rondava a estátua para entrar na casa abandonada, eis que paro como se ouvisse na voz do vento, a voz da Vênus que, numa entonação de velha experiente e sábia, corrigia-me a imprecisão da descrição: - Braços, querido, abertos para o Amor e para a Morte!


Terminei minha visita ali, naquele instante, voltando sobre meus passos no tapete de folhas secas que percorri, não mais como se estivesse pisando em ovos, mas fugindo do atordoante assalto dos fantasmas - o meu próprio e o da minha primeira amante.

 

 

 

10

 

Soneto mote: Azul – Orlando Teixeira

 

Chapéu azul, vestido azul, de azul bordado,

Azuis o pára-sol e as luvas. Senhorita,

Como um lótus azul por um deus animado,

Passa, toda de azul, por mil bocas bendita.

 

Há um bálsamo azul nesse azul que palpita,

Misticismo de um mundo, há muito e em vão, sonhado,

Azul que a alma da gente a idolatrá-la incita,

Azul claro, azul suave, azul de céu lavado.

 

Deixa na rua um rastro azul que cega e prende,

Não sei quê de anormal, de fantasma ou de duende,

Que prende os pés ao solo e ao mundo os olhos cerra;

 

Vendo-a, não se vê mais nada que o azul, tonteia...

Como num sonho azul, logo nos vem à idéia

Um pedaço de céu azul passeando a terra.

 

 

 

Rapsódia em azul

 

 

 

Na sala de um azul esmaecido, ela surgiu – esboço de mulher, encanto de menina. Vestia um vestido de veludo azul, de gola azul rendada, porém de um azul mais claro do que o do vestido. Tinha à cabeça um chapéu azul, de aba descaída para o lado, de azul bordado. Calçava botinhas azuis, de bicos finos e fivelas prateadas, que iam além dos tornozelos, amarradas com cordéis azuis entrançados em laçadas várias.

 

Num ronronar de gata disse meu nome, meu nome horrível, mas apenas a primeira parte do meu nome – Tertu! –, num tom de voz também azul. E ao dizer meu nome, ainda que partido ao meio, apossou-se de mim inteiramente, senhora do meu desejo, dona da minha vontade.

 

Por favor, entendam-me: até então nunca ninguém dissera meu nome assim tão curtamente, extraindo de um insípido Tertuliano um Tertu intimista e carinhoso.

 

Num sortilégio mágico fiquei rendido. E ela, percebendo a anulação dos meus sentidos, assumiu o controle das ações, infanta e obscena.

 

Disse-me então que eu ficasse nu, e nu fiquei. Tendo-me nu diante dela, o meu corpo percorreu ao léu, apalpando-me as reações dos nervos e dos músculos com a mão enluvada. Não se contendo, desfez-se peça por peça das peças azuis que a cobriam, atirando-as em minha direção uma por uma, à medida que as tirava: as luvas azuladas; o chapéu de azul bordado e aba descaída; o vestido de veludo azul. Ficou apenas com as botinhas azuis de bicos finos que lhe iam além dos tornozelos, amarradas com cordéis azuis entrançados em laçadas várias.

 

Não nego que estava sugestiva. Eu disse sugestiva? Pois me corrijo: estava deslumbrante! Mais ainda: arrebatadora estava, e arrebatou-me.

 

Senhora do meu desejo, dona da minha vontade, obrigou-me a percorrer seu corpo de léu em léu, primeiro com as mãos, depois com os lábios, por fim com a língua.

 

Naveguei assim aquele corpo azul, os seios de um azul mais claro, de mamilos azuis marinhos, o ventre de suave azul, o sexo azul de céu lavado, sentindo-me envolver num bálsamo azul que, palpitante, se exalava de cada toque que eu lhe dava. Finalmente, eis que ela finalmente me oferece o lótus azul da sua fenda extrema, ainda inviolada.

 

Não sei quê de anormal me reteve os pés ao solo, à beira de precipitar-me loucamente sobre a frincha de um azul profundo, azul que tonteia, a mim oferecida sem que eu a pedisse. No entanto, contive-me e interroguei-lhe:

 

– Aonde me quereis levar, com vossa impudência e imprudência, oh senhorita da tentação azul que cega e prende?      

 

– Ao celeste azul do céu e ao negro azul do inferno – respondeu-me com o bálsamo azul de sua voz azul. – Ou acaso não sois o frívolo peralta de quem ouvi falar?

 

Era desafio demais para a minha falta de juízo. Num arranco, tomei-a e, tomando-a, cravei-lhe na carne azul, nua e infanta, a chama azul do meu ferrete, enquanto ela, gritando ardentemente, sentia escorrer, do lótus azul que a chama azul varava, o rastro azul da sua perdida virgindade.   

 

 

 
 

11

 

Soneto mote: Prosopopéia da Pepa ao Pupo – Emílio de Meneses

 

Parece peta. A Pepa aporta à praça

e pede ao Pupo que lhe passe o apito.

Pula do palco, pálida, perpassa

por entre um porco, um pato e um periquito.

 

Após, papando, em pé, pudim com passa,

depois de peixes, pombos e palmito,

precípite, por entre a populaça,

passa, picando a ponta de um palito.

 

Peças compostas por um poeta pulha,

que a papalvos perplexos empulha,

prestando apenas pra apanhar os paios,

 

permuta a Pepa por pastéis, pamonha...

– Que a Pepa apupe o Pupo e à popa ponha

Papas, pipas, pepinos, papagaios!

 

 

 

Infância

 

 

 

Versão 1

 

Parece peta mas não é. Quando eu vi Pepa nua, pela primeira vez conheci um corpo de mulher, em miniatura num corpo de menina.

 

Éramos crianças e brincávamos de chicotinho queimado no quintal da casa dela, por entre patos, porcos, periquitos. O chicotinho era um ramo de açucena que ora  eu escondia, ora ela, para o outro achar. Quem estava na vez de procurar o chicotinho tinha de fechar os olhos para não ver onde ele era escondido. (A bem da verdade lhes digo: Foi Pepa quem escolheu o ramo de açucena porque gostava da trovinha: “Açucena quando nasce / Põe a rama pelo chão / Menina quando namora / Põe a mão no coração”).

 

– Pronto, pode procurar – ela me ordenou, lá pelas tantas.

 

Andei às tontas pelo quintal ouvindo-a dizer “está frio”, quando eu estava longe do chicotinho, “está quente”, quando eu chegava perto dele.

 

Entre idas e vindas de um lugar a outro, fui percebendo que eu estava frio quando ficava longe de Pepa, e que ficava quente quando me aproximava dela.

 

– O chicotinho está escondido em você – acabei gritando, enquanto ela ria nervosa e excitada.

 

Avancei sobre ela agarrando-a para correr minhas mãos sobre o seu vestido fino.

 

– Assim não vale, assim não vale, Pupo! – contorcia Pepa o seu corpinho flexível de menina dentro dos meus braços magros.  

 

– Então deixa eu ver onde o chicotinho está – disse-lhe ao largá-la.

 

– Não está comigo! – respondeu-me Pepa.

 

– Jura que não está?

 

– Juro! – disse ela rindo.

 

– Se você está rindo é porque está mentindo! – concluí com certa lógica.

 

– Estou falando a verdade... O chicotinho não está na minha roupa – protestou Pepa com ar severo.

 

– Então tira a roupa que eu quero ver... – foi a minha resposta.

 

Aqui é importante que se abra um parêntese para uma necessária explicação: não é por ter sido eu um reconhecido peralta desde fedelho que pedi a Pepa para tirar a roupa. Meu pedido foi feito com naturalidade, sem a mínima intenção maldosa. Afinal, eu tinha apenas oito anos e Pepa apenas sete anos tinha. Dada a explicação, feche-se o parêntese. Até porque, para o meu espanto, Pepa satisfez o meu pedido. 

 

Primeiro, puxou o vestidinho fino pela cabeça e, depois, num gesto precípite, como se não quisesse pensar no que estava fazendo, tirou a calcinha.

 

– Viu? Eu não disse que o chicotinho não estava comigo? – disse uma Pepa pálida para um pálido Pupo, magnetizado pela imagem nuinha diante dos seus olhos.

 

– Onde é que ele está então? – conseguiu finalmente perguntar o magnetizado Pupo.

 

– Procure aí no quintal, seu bobalhão! – respondeu Pepa, depois de se vestir e fugir correndo para dentro de casa, perpassando, ainda pálida, por entre um porco, um pato e um periquito.

 

Foi desse modo mágico e inesperado que, pela primeira vez em minha vida, eu conheci um corpo de mulher, em miniatura num corpo de menina.

 

Mas que inesquecível pepa!

 

 

Versão 2 (preferida pelo poeta)

 

Pupo viu a pepa de Pepa.

 

Pepa viu o pupo de Pupo.

 

Eram crianças, ricos de infância, e viam a vida cheia de segredos.

 

– Por que Pupo é diferente de Pepa? – perguntou Pepa a Pupo.

 

– É porque Pupo tem pupo e Pepa tem pepa? – Pupo respondeu com outra pergunta.

 

– É... – disse Pepa.

 

– Acho que Pepa tem pepa porque faz pipi sentada e Pupo tem pupo porque faz pipi em pé.

 

– E por que a diferença é só na frente e não é também atrás? – Pepa perguntou a Pupo.

 

– Acho que é porque Pepa e Pupo fazem popô sentados.

 

Pepa ficou pensativa por um pouco. Depois voltou à prosa:

 

– Sabe que eu acho o pupo de Pupo feio? 

 

– E por que você acha o meu pupo feio? – perguntou Pupo.

 

– Tenho vergonha de dizer por quê – Pepa respondeu. Depois disse, ainda pensativa: – Você tem que perguntar à minha pepa...

 

– Pepa de Pepa, por que Pepa acha o pupo de Pupo feio? – perguntou um Pupo de olhar peralta.

 

Fazendo uma vozinha diferente, Pepa respondeu por sua pepa, pondo as mãos em concha em torno da boca para alongar a frase:

 

– É porque o pupo de Pupo parece um apito...

 

Foi a vez de Pupo ficar pensativo. Aí prosseguiu:

 

– Sabe que eu também acho a pepa de Pepa feia?

 

– E por que você acha a minha pepa feia? – perguntou Pepa. 

 

– Também tenho vergonha de dizer por quê. Você vai ter que perguntar a meu pupo.

 

– Pupo de Pupo, por que Pupo acha a pepa de Pepa feia? – perguntou Pepa.

 

Fazendo uma vozinha diferente, Pupo respondeu, pondo as mãos em concha em torno da boca e alongando a frase:

 

– É porque a pepa de Pepa parece uma passa...

 

Pode parecer peta. Mas foi assim que Pupo e Pepa, ante os segredos da vida, conversaram sobre a pepa dela e o pupo dele, puros de infância, ricos de phantasia.

 

 

 

 


12

 

Soneto mote: A Iara – Olavo Bilac

 

Vive dentro de mim, como num rio,

uma linda mulher, esquiva e rara,

num borbulhar de argênteos flocos, Iara,

de cabeleira de ouro e corpo frio.

 

Entre as ninféias a namoro e espio:

e ela, do espelho móbil da onda clara,

com os verdes olhos úmidos me encara,

e oferece-me o seio alvo e macio.

 

Precipito-me, no ímpeto de esposo,

na desesperação da glória suma,

para a estreitar, louco de orgulho e gozo...

 

Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:

e a mãe-da-água, exalando um ai piedoso,

desfaz-se em mortas pérolas de espuma.

 

 

 

Delírio espetacular

 

 
 

Recebo de um espelho antigo o reflexo de um rapaz simpático e formoso, e recebo das águas de um rio o reflexo de uma mulher de olhos verdes e úmidos, que espio e namoro.

A imagem do rapaz que o espelho reflete e a da mulher de olhos verdes e úmidos que vem das águas do rio viajam pelo espaço e sobre mim convergem, retornando depois aos pontos de origem. Mas retornam trocadas: a imagem do rapaz vai para o rio e a da mulher, para o espelho.

E, antes que eu tenha tempo e entendimento para decifrar o duplo sentido dessa móbil troca de reflexos, a imagem do rapaz irrompe do rio e, na desesperação de um ímpeto e num borbulhar de argênteos flocos, choca-se contra a superfície do espelho que se desfaz em cacos, dos quais me encaram os olhos verdes da mulher esquiva, que namoro com um ai piedoso, mas louco de gozo.

 
 
 

13

 

Soneto mote: Desdéns – Raimundo Correia

 

Realçam no marfim da ventarola

as tuas unhas de coral – felinas

garras com que, a sorrir, tu me assassinas,

bela e feroz. O sândalo se evola;

 

o ar cheiroso em redor se desenrola;

pulsam os seios, arfam as narinas...

sobre o espaldar de seda o torso inclinas

numa indolência mórbida, espanhola...

 

Como sou infeliz! Como é sangrenta

essa mão impiedosa que me arranca

a vida aos poucos, nesta morte lenta!

 

Essa mão de fidalga, fina e branca;

essa mão, que me atrai e me afugenta,

que eu afago, que eu beijo, e que me espanca!  

 
 
 

Delírio extremo

 

 
 

Batem-me à porta. Abro e vejo que era ela, com suas unhas de coral, felinas garras realçadas no marfim da ventarola, que abana à espanhola.

Mandei-a entrar, antes que se fosse.

Entrou fidalga e branca, sem nada dizer, sem se fazer de rogada. Sabia ao que vinha, por quanto tempo vinha. Puxando-me pela mão, levou-me para o quarto, esperta e tresandando a sândalo, não me dando azo para resistências. E resistir pra quê? 

Entramos juntos na alcova (naquele tempo eu tinha uma alcova), mas juntos é maneira de dizer porque ela ia à minha frente, arrastando-me como se tivesse uma tarefa a cumprir urgentemente. Antevendo o que me estava reservado, fiz-me dócil, entregue, abandonado, pronto para o que desse e viesse, e o Diabo mandasse.

Pois foi o diabo!

Ela me despiu com dedos ágeis e, com dedos ágeis de unhas ferinas cor de coral, percorreu-me o corpo todo, arranhando-me o torso, espancando-me o rosto, extraindo centelhas de fogo dos meus poros epidérmicos. As centelhas irradiavam-se pelo quarto como vaga-lumes, chegando a dar luz própria ao ambiente.

Gradativamente, no auge do prazer arfante que me dava aquela mão, bela e felina, que me batera à porta, tive a impressão de que, num estalo de dedos, ela se desdobrou em duas, e em três, em quatro, em cinco e seis mãos a cada novo estalo que dava com os dedos, para, assim multiplicada em pássaros, me fazer subir ao Céu e descer ao Inferno, arrancando-me a vida aos poucos, numa morte lenta!

Quando finalmente deu por encerrada a bacanal dos manuseios assassinos, deixou-me prostrado na alcova, numa indolência mórbida.

Retirou-se como veio: silente e esvoaçante, solta no espaço, abanando de leve a ventarola.

(Não sei se já lhes disse que, desde fedelho, sou obcecado por mãos – este é o meu fetiche! – e às vezes, só de pensar nelas, caio em delírio extremo). 

 
 
 

14

 

Soneto mote: Particularidades...  – Gilka Machado

 

 

Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,

os meus gostos crimino e busco, em vão, torcê-los;

é incrível a paixão que me absorve tudo

quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... os pêlos...

 

Amo as noutes de luar porque são de veludo,

delicio-me quando, acaso, sinto, pelos

meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo,

em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.

 

Pela fria estação, que aos mais seres erriça,

andam-me pelo corpo espasmos repetidos,

às luvas de camurça, às boas, à peliça...

 

O meu tato se estende a todos os sentidos;

sou toda languidez, sonolência, preguiça,

se me quedo a fitar tapetes estendidos.

 
 
 

Particularidades

 

 
 

Esclareci a Tertuliano que a função dele seria a de um coadjuvante que ficaria em cena quedo e calado. Menos até: um vulto apenas, na posição de olheiro discreto, uma sombra na espreita, nada mais.

Presunçoso e explodindo vaidade ele quis protestar. Mas não lhe dei chance.

– Ou uma pontinha, ou fica de fora!

– Aceito ser o vulto – concordou ele, vendo-me irredutível.

Voltei-me para a figurante principal:

– Você está pronta? Estudou o roteiro?

Ela disse que sim e iniciamos a filmagem. Seu papel seria o de uma odalisca recostada no leito, como no quadro de Matisse. Em gestos lascivos, ela perpassaria as mãos, inicialmente em toques ligeiros, depois bem mais arteiros, pelos altos e baixos relevos do seu corpo, que desnudaria aos poucos.

– Luz, câmera, ação! – soltei a ordem.

Com dedos de veludo, os gestos sedosos, o tato suave, a odalisca se pôs a acalentar os seios, a beliscar os mamilos, a acarinhar o ventre, a ouriçar os pêlos, a dedilhar o púbis, a alisar a cabeleira presa...

– Corta! – gritei veementemente. – Você tem que soltar a coma... Está no roteiro!

– Ela me olhou desconcertada e, meio sem jeito, disse:

– Eu li o roteiro, mas o que é coma?

– É cabeleira vasta... Os seus cabelos... – expliquei pacientemente como convém a um diretor que filma um script. – Veja o que o roteiro diz logo adiante: “sobre o meu corpo desnudo, em carícias sutis, rolaram-me os cabelos...”

– Posso dar uma sugestão? – interveio Tertuliano, saindo da sombra em que se mantivera.

– Quedo e calado! – cortei-lhe de chofre a pretensão.

– Mas é uma idéia para melhorar o script... – insistiu, intrometido.

– Calado e quedo! Tive muito trabalho em conseguir este roteiro – falei mais alto. E dirigindo-me à figurante principal, estendida sobre o leito, perguntei:

– Podemos recomeçar?

Ela assentiu com a cabeça e recomeçamos.

– Luz, câmera, ação!

Com dedos de veludo, os gestos sedosos, o tato suave, a odalisca se pôs a acalentar os seios, a beliscar os mamilos, a acarinhar o ventre, a ouriçar os pêlos, a dedilhar o púbis, a alisar a coma que soltou sobre o torso desnudo enquanto se agitava em espasmos repetidos, em toda a sua languidez e fingida sonolência.

– Corta, corta! Está perfeito... – gritei exuberante.

E a equipe toda de filmagem se cumprimentou em festa. Mas quando procurei Tertuliano para também saudá-lo pelo bom trabalho de olheiro em meio às sombras, ele, mudo e calado, havia se escafedido em alta velocidade, e me avexa dizer para qual inadiável particularidade...

 
 
 

15

 

Soneto mote: Dança do ventre – Cruz e Souza

  

Torva, febril, torcicolosamente,

Numa espiral de elétricos volteios,

Na cabeça, nos olhos e nos seios,

Fluíam-lhe os venenos da serpente.

 

Ah! Que agonia tenebrosa e ardente!

Que convulsões, que lúbricos anseios,

Quanta volúpia e quantos bamboleios,

Que brusco e horrível sensualismo quente.

 

O ventre, em pinchos, empinava todo

Como réptil abjeto sobre o lodo,

Espolinhando e retorcido em fúria.

 

Era a dança macabra e multiforme

De um verme estranho, colossal, enorme,

Do demônio sangrento da luxúria!

 
 
 

Dança na ilha dos Amores

 
 
 

Eu estava na ilha dos Amores quando uma ninfeta apareceu, os seios nus, os pés descalços, a saia longa. Trazia na cabeça uma tiara, com um cravo e uma rosa de adorno, e tinha na mão uma cítara de ouro.

Ao ver-me triste e solitário disse:

– Por que você está solitário e triste, formoso fauno?

Olhei para um lado, olhei para o outro, e confirmei, porque não havia mais ninguém ali por perto, que o formoso fauno a quem a ninfeta se referia era eu, Tertuliano. Então lhe respondi:

– Estou triste, bela ninfeta, porque estou só na ilha dos Amores...

– Pois vim romper sua tristeza, já que a sua solidão estou rompendo – disse-me ela. E num gesto mimoso – gesto de ninfa – entregou-me a cítara de ouro, pedindo: – Toque!

– Mas não sei tocar... – desculpei-me aparvalhado. 

Com sua mão de borboleta, ela tirou o cravo que adornava a tiara em sua cabeça e me entregou, dizendo:

– Toque com o cravo. É um cravo mágico que só de tocar as cordas da cítara, a cítara toca.

– A cítara toca ao toque do cravo? – perguntei agnóstico.

– Faça o teste...

Fiz o teste, e as cordas da cítara, tangidas pelo leve toque do cravo nos meus dedos, se fizeram musicais e maviosas.

Olhando para mim com olhos egípcios, disse a ninfeta:

– Agora vou dançar para você a dança do ventre.

Minha mão tremeu e tremeu o cravo nas cordas da cítara quando a ninfeta disse o que dissera. Mas nem assim a música estremeceu ou a cítara se fez menos maviosa, podendo a ninfeta iniciar sua dança de muitos requebros e empinos.

Onde buscarei palavras para exprimir tanta volúpia e tanto sensualismo quente no corpo da ninfeta, na cabeça, nos olhos e nos seios? Dança febril? Espiral de elétricos volteios? Convulsões ardentes? Lúbricos anseios? Vibrante serpenteio?

Que agonia tenebrosa a minha, assistindo ali à retorcida dança da ninfeta, e querendo defini-la aqui numa expressão precisa, numa palavra exata. Deus do Verbo, oh, deus do Verbo, aplacai minha agonia, dai-me o termo que almejo, soprai-me do seu celeste vocabulário o vocábulo a que aspiro... Como? Terei ouvido direito e entendido certo? ... Torcicolosamente!? Ora, graças, deus do Verbo, posso voltar agora ao que estava descrevendo!

Assim lhes digo que torcicolosamente contorcia-se a ninfeta, torcicolosamente contorceu-se muito tempo, torcicolosamente sensual e mística até que cessou a música da cítara e cessaram os pinchos da ninfeta como se o cravo em minha mão, que fizera vibrar as cordas do instrumento, tivesse cumprido o seu mágico papel e esgotado toda a sua energia.

Saindo dos seus bamboleios, o ventre retornando à calma natural do ventre, mas ainda de face ruborizada, disse-me a ninfeta, cravando em mim seus olhos egípcios:

– Agora é sua vez de dançar...

Ao ouvir estas palavras, tremeram-me as pernas, tremeram-me as mãos, os braços tremeram-me, tremeu-me o corpo por inteiro parecendo até que eu já estava começando a me bambolear antes da hora.

– Mas não sei dançar... – desculpei-me novamente aparvalhado, aliás, muito mais aparvalhado do que antes.  

– Eu dou um jeito nisso – disse a ninfeta. – Dispa-se! 

– Vai ser mesmo necessário? – perguntei envergonhado.

– Vai.

Impossível duvidar que não fosse necessário, ante a resposta categórica que ouvi.

Ao ver-me despido, a ninfeta se aproximou de mim sem cerimônia e tocou meu corpo com o dedo para me eletrizar e me predispor à dança. Foi uma aproximação de sonho, algo inaudito. Senti de perto seu hálito morno e perfumado, seu aroma inebriante, sua pele quase roçando a minha pele, a ponta aguda e quente do seu dedinho elétrico pousando no meu peito. Mas nem assim dancei, porque uma parte do meu corpo se tornara hígida!

Sem se afastar de mim, ela tirou então a rosa que adornava a tiara em sua cabeça e com sua mão de borboleta tocou de leve, de leveza leve, a porção que hígida se fizera no meu corpo, dizendo num encantamento: – Dança!

Em seguida, dedilhou a cítara com suavidade, e a dança aconteceu!  Mas estranhamente foi apenas a parte hígida do meu corpo que, tocada de leve pela rosa da ninfeta, entregou-se, num paroxismo crescente de serpente, a uma dança macabra e multiforme, empinando-se toda como um réptil abjeto, colossal, enorme, retorcendo-se em fúria incontida, fazendo lembrar o demônio sangrento da luxúria!   

Quanto tempo durou aquela dança esdrúxula e fantástica não sei dizer. Mas durou o tempo em que a ninfeta tangeu a cítara com sua mão de borboleta.

Quando a música cessou, minha higidez havia se desfeito – e graças ao deus do Verbo posso dizer que se desfez torcicolosamente.

O pior, porém, é que foi torcicolosamente para sempre.

 
 
 

16

 

Soneto mote: Vingança... -  J.G. de Araújo Jorge

 

Ontem eu a possuí... e você não é minha!

Paradoxo talvez, mas tudo aconteceu...

Em pensamento, o beijo que eu colhia, tinha,

O sabor desse beijo que você não deu...

 

De olhos cerrados, louco, a sua imagem vinha

Com a força do que é real e se impôs ao meu “eu”...

E o corpo que eu tocava e a minha mão sustinha,

Na sombra, aos meus sentidos cegos – era o seu!

 

Ontem, por mais que a idéia seja estranha e louca,

– você foi minha enfim!... apertei-a ao meu peito...

Desmanchei seus cabelos... machuquei-lhe a boca!

 

E possuía-a afinal, – num ímpeto criador –

Vingando o meu orgulho abatido e desfeito

Num doentio segundo de paixão e amor!

 
 
 

Amor sonâmbulo

 
 
 

O sonambulismo é uma doença, dizem, e ontem eu acordei sonâmbulo. Paradoxo talvez, mas isto aconteceu.

Nunca havia vivido uma experiência desse tipo e, por isso, acho que devo dar detalhes do que comigo se passou para figurar nos manuais de medicina que versam o assunto.

Meu sonambulismo foi um sonambulismo brando, pelo menos é o que penso, porque não apaguei de todo dentro do meu sono, mantendo-me semi-adormecido (um olho meio aberto, o outro dormindo), o que dá mais valor ao meu depoimento clínico.

Havia abusado do vinho, naquela noite, e fui dormir de língua empastada, o pensamento idem. Quando levantei de madrugada – e levantei dormindo – fui parar na casa da vizinha, uma jovem bela e presunçosa que se esquivava à asa que eu lhe arrastava dia a dia.

Como entrei lá não sei dizer, nem me perguntem, pois aprendi também que um noctâmbulo não sabe explicar tudo o que acontece durante sua crise sonambúlica. Fiquemos nos fatos principais.

A vizinha dormia bela adormecidamente quando perto dela cheguei, o feio adormecido que eu era, mais feio ainda porque usava um pijama de listas zebradas e tinha touca na cabeça.

Cutuquei-a de leve, acordando a bela, que me viu e se assustou, recuando sobre o leito. Eu fiz psiu com o dedo sobre a boca e ela, talvez porque ouvisse dizer que não se deve acordar um sonâmbulo em pleno transe, nada disse. Quieta ficou, mansa e quieta, nada arredia, consentindo que eu galgasse o leito quente, e a desnudasse da camisola transparente que mal a revestia.

De olhos cerrados, louco voraz, vendo-a ao meu lado – vendo é modo de dizer – desvalida e nua, apertei-a ao meu peito, desmanchei seus cabelos, machuquei-lhe a boca e possuí-a afinal num ímpeto de gozo, num doentio (o sonambulismo é uma doença, dizem), num doentio segundo de paixão e amor, sem admitir sequer que o beijo que eu colhi de sua boca tivesse o sabor desse beijo que ela não deu.

Hoje posso dizer, vingado o meu orgulho pela indiferença que antes me dedicara minha vizinha pela corte que eu lhe fazia e ela recusava, que ontem você foi minha enfim, oh, bela que abati no sono! Porque o corpo que eu tocava e minha mão sustinha, na sombra em que estava semi-adormecido, aos meus sentidos cegos era o seu, vizinha, que possuí com a força do que é real e se impôs ao meu eu – o eu do feio e adormecido Tertuliano, em sua primeira e única crise de noctambulismo.    

 
 
 
17

Soneto mote: Ouvir estrelas - Olavo Bilac

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro a janela, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda a procuro pelo céu deserto

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que te dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".
 

 
 

Noites de via-láctea

 
 
 

Houve um tempo em que Tertuliano gostava de ouvir Estela. Não vos direi quando foi isso. Digo-vos apenas que foi antes de Tertuliano vir a ser o tresloucado frívolo peralta que, diante de um espelho, foi flagrado por seu pai, quando contemplava desvanecido a tertuliânica figura dele mesmo, como sabeis e já ouvistes contar alhures.

 

Mas sinto que um cenário mínimo precisa ser composto para emoldurar Tertuliano nesse tempo em que gostava de ouvir Estela. Ponha-se então um enário mínimo nesse tempo.

 

Mas que seja um cenário romântico próprio de uma época em que Tertuliano (não se surpreendam os que me lerem) se atrevia a fazer versos e se lançava poesia adentro e poesia afora como um jangadeiro solto em pleno mar, porque, então, Tertuliano era bem jovem (embora não fosse jangadeiro). E, sendo jovem, era metido a poeta e, sendo metido a poeta, era metido a poeta parnasiano, eis o que Tertuliano era.

 

Mas vejo que ainda não temos o cenário, à cata do qual estamos rodando. Sejamos mais explícitos: imaginai então uma casa avarandada pintada de branco num ambiente rural, com telhado de quatro águas coberto de telhas canal, de janelas azuis abrindo para o campo, próximas a um pé de trepadeira são João e de uma jabuticabeira carregada, com um curral nem perto nem distante de onde as vozes dos bois e das vacas chegavam até o quarto de Tertuliano, à cama de Tertuliano, às oiças de Tertuliano, tirando-o ao sono da madrugada para abrir a janela e ver - não os bois e vacas ruminando a madrugada no curral, nem a trepadeira são João com suas corolas louras, nem sequer a jabuticabeira carregada de pérolas negras pelo tronco acima e pelo tronco abaixo -, mas para ver... Estela!

 

Porque Estela vinha até o quarto de Tertuliano para lhe ofertar o leite da mulher amada quando as vozes das reses mugiam na madrugada mal desperta e a via-láctea cintilava no firmamento como um pálio aberto.

 

Ao contrário, porém, da madrugada mal desperta, Estela vinha esperta e doidivanas, para se entregar a Tertuliano deleitosamente.

 

Se Estela vinha nua, quereis saber?

 

Não digo que viesse nua, mas quase-quase. Portanto, vinha semi-nua, envolta apenas (envolta é o termo) numa túnica leve e transparente.

 

E se buscais a imagem exata para o advento auspicioso de Estela, sob o pálio da via-láctea cintilante, digo-vos que Estela vinha envolta numa túnica inconsútil, que Tertuliano despia, não com dedos destros e canhotos, mas num sopro rápido e possante cheio de bovina volúpia que antecipava os longos mugidos que daria com Estela (e sobre Estela) até a madrugada se dilacerar em dia e Estela se dilacerar em êxtases.


E era aí, nesse translúcido e transitório instante em que a madrugada se rompia em dedos róseos sob o prepúcio do sol nascente, após o dilaceramento dos êxtases na palidez da aurora, que Tertuliano ouvia Estela, e enternecidamente ouvia.


O que ouvia Tertuliano, quereis saber?  Pois vos digo que Tertuliano ouvia o canto de sereia de Estela, mas um canto de sereia satisfeita, canto-acalanto assim tão em surdina, mas tão em surdina e tão acalanto que se diria até que nem havia canto nesse cálido acalanto, mas puro encanto - encanto canoro sem canoridade alguma que, no entanto, era captado pelas oiças aguçadas de Tertuliano  - oh, Deus, o que vos digo? -, canto de encanto que somente era captado pela sensibilidade amantíssima de Tertuliano, é o que quero dizer, porque relembro a vós que nesse tempo Tertuliano era jovem e parnasiano e o firmamento ainda se respingava das luzes da via-láctea cintilante, sob o prepúcio do sol rompendo a palidez da aurora.

 

Mas infelizmente o tempo passa, e como passa!

 

Tertuliano se fez adulto, o que significa dizer que deixou de ser parnasiano e largou do campo e das reses do campo para vir para a cidade, onde se fez frívolo e peralta como previra seu velho pai, não sabendo eu vos dizer em qual dessas duas especialidades se especializou primeiro, embora se especializando bem em ambas as duas.


E sobre Estela, o que posso dizer? Digo-vos, com muito dó no coração, que Tertuliano nunca mais a viu nem a ouviu encantadora e deleitosa.

 

E se quereis saber o que de Estela ficou em Tertuliano, na memória de Tertuliano, na alma de Tertuliano, sobre isso vos digo que ficou uma saudade terna, tenra e eterna, eterna e terna, e tão parnasiana que toda vez que Tertuliano se deparava com o conhecido soneto de Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, nome que por si só é um alexandrino perfeito, acudia-lhe à lembrança, enternecidamente, a imagem de uma casa branca avarandada, com janelas azuis, próxima de um pé de trepadeira são João e de uma jabuticabeira carregada, onde uma estrela candente ia a seu encontro para se entregar à epifania do sexo, em noites de via-láctea.

 
 
 

18

 

Primeiro soneto mote: Lusco-fusco – Carvalho Júnior

 

Da alcova na penumbra andavam flutuando

Em tênue confusão fantasmas indecisos,

Gerados ao fulgor da luz reverberando

Nos límpidos cristais e nos dourados frisos.

                                                                                              

Era como um sabbath fantástico e nefando!

Das velhas saturnais talvez tivesse uns visos

A enorme projeção das sombras vacilando

Esguias e sutis sobre os tapetes lisos.

 

Havia no ambiente uns mórbidos perfumes;

Os bronzes, os biscuits se olhavam com ciúmes,

Nos dunkerques, de pé, por dentro das redomas.

 

Enquanto eu, sem temor, ao lado de uma taça,

Um conto oriental relia entre a fumaça

De um charuto havanês de excêntricos aromas.

 

Segundo soneto mote: Antropofagia – Carvalho Júnior

 

Mulher! Ao ver-te nua, as formas opulentas

Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,

Como um bando voraz de lúbricas jumentas,

Instintos canibais refervem-me no peito.

 

Como a besta feroz a dilatar as ventas

Mede a presa infeliz por dar-lhe o bote a jeito,

Do meu fúlgido olhar às chispas odientas

Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t´estreito:

 

E ao longo do teu corpo elástico, onduloso,

Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,

Em toda essa extensão pululam meus desejos,

 

 – Os átomos sutis, – os vermes sensuais,

Cevando a seu talante as fomes bestiais

Nessas carnes febris – esplêndidos sobejos!

 

 
 

O gênio pigmeu

 

 

 

Deslizei o dedo distraído no cristal da minha taça de absinto e o gênio apareceu, disforme, abjeto, pigmeu. Com voz pastosa, disse:

 

– Aqui estou para satisfazer os seus pedidos, amo Tertuliano.

 

Se aquele era o gênio que me concedeu a taça de absinto – o avesso de um gênio saído de um conto oriental – não me era lícito duvidar dos seus poderes. Fiz o meu pedido:

 

– Quero ter a mulher dos meus sonhos num camarim de rei.

 

– Comecemos pelo camarim – disse o pigmeu. E, tirando da mão acromegálica um charuto havanês com a ponta em brasa fumegante, deu-lhe uma sugada forte, consumindo-o até o meio. Depois, soprou bochechas afora uma fumaça de aromas excêntricos, através da qual vi surgir o camarim real do pedido que eu fizera.

 

Mas o camarim que apareceu, com ar fantasmagórico em meio a mórbidos perfumes, estava longe de ser o camarim que eu desejara. Sobre os tapetes finos, nos límpidos cristais e nos dourados frisos, vacilavam sombras enormes como um sabbath fantástico e nefando, de fantasmas indecisos em velhas saturnais.

 

– Não foi este o camarim que eu lhe pedi – reclamei ao gênio pigmeu.

 

Com a voz pastosa, ele respondeu:

 

– Nem sempre a resposta a um pedido vem na medida do desejo. Vamos ver se me redimo com a mulher dos sonhos seus, amo Tertuliano.

 

E repetiu o ritual da fumaça de aromas excêntricos que soprou bochechas afora da sugada intensa e demorada que deu no restante do charuto havanês, que em cinzas se desfez.

 

Mas também a mulher que apareceu no camarim fantasmagórico, em meio a mórbidos perfumes, estava longe de ser a mulher com que eu sonhara. Estirada nua sobre o leito, tinha corpo de cascavel, elétrico, escamoso, que na penumbra reluzia abominável e onduloso.

 

– Não é esta a mulher dos sonhos meus! – bradei, aborrecido, ao gênio pigmeu.

 

– Nem sempre...

 

– Já sei... – cortei-lhe a frase que completei imitando sua voz pastosa: – ...a resposta a um pedido vem na medida do desejo.

 

– O amo Tertuliano pensa que errei na mágica? – perguntou em tom sarcástico o pigmeu.

 

– Um erro só foi pouco... Foram dois erros medonhos e grosseiros – respondi.

 

– Meu amo está dispensando os meus serviços? – açoitou-me a sua voz pastosa.

 

– Definitivamente. E desapareça da minha vista para sempre... – disparei, agressivo.

 

– Antes, porém... – ressalvou ele.

 

– Antes, porém...? – indaguei eu.

 

Antes, porém, com uma risada horrenda e debochada, qual besta feroz a dilatar as ventas de instintos canibais, o gênio pigmeu, movido pela fome voraz de lúbricas jumentas, atirou-se sobre o corpo elástico e escamoso da mulher nua sobre o leito, cevando em suas carnes febris seus ímpetos bestiais...

 

Quanto a mim, enojado e triste, restou sorver de um só trago o azedume azul da taça de cristal de onde saiu, ao toque distraído do meu dedo, um gênio disforme, abjeto e pigmeu.

 

 

 

 


19

 

Soneto mote: Devassidão (a ser composto pelo leitor)

 

 

 

A tanajura e o gafanhoto

 

 

 

Versão da tanajura

Disseram-me que Tertuliano era um devasso.

– Quão devasso? – perguntei.

– Muito devasso... – informaram-me.

Sou curiosa – é um dos meus defeitos – e quis conhecê-lo. No nosso encontro, disse-lhe de cara:

– Disseram-me que você é um devasso.

– Devasso quanto? – perguntou ele.

– Muito devasso – respondi.

– Não sei se tanto...

– Mesmo assim gostaria de saber – disse-lhe cara a cara, com a franqueza que eu tenho (outro defeito meu).

– Vejo que você não perde tempo – comentou Tertuliano.

E não perdemos, fomos para a cama. Na cama, entreguei-me de corpo e alma (mais de corpo do que de alma), porque na cama com um homem perco o tino, caio em desatino, dou-me de cima embaixo sem qualquer controle, embora assuma o comando, insensata e sôfrega, porque sou masoquista – outro defeito que tenho.

Assim foi que sofregamente me dei a Tertuliano, insensatamente o provoquei na ânsia da devassidão que nele procurava. 

– Seja devasso, honre sua fama! – dizia-lhe feroz. – Bata-me com força! Bem forte! Vire-me de bruços, arranhe as minhas costas, morda meu pescoço, deixe nele uma marca roxa, uma dentada violácea, coma a tanajura e o gafanhoto!

(Aqui me explico: a tanajura e o gafanhoto são duas tatuagens que eu tenho no bumbum, uma no bum direito, outra no esquerdo, consideradas do meu ponto de vista. O gafanhoto eu escolhi no mostruário do meu tatuagista; a tanajura eu tirei de um desenho de um livro de insetos, porque a tanajura tem um bumbum que lembra o meu, firme e arrebitado).

Voltemos aonde estávamos (estávamos eu e Tertuliano). Ao sentir que ele atendia ao meu pedido, cheguei ao auge do prazer, um prazer louco que para mim foi um espanto.

Despedimo-nos satisfeitos (segundo penso), eu com ele, ele comigo.

– Você é mesmo um devasso... – disse-lhe.

– Quão devasso? – perguntou.

– Muito devasso... 

Versão do gafanhoto

Disseram-me que disseram a ela que eu era um devasso.

– Quão devasso?  – perguntei.

– Muito devasso... – informaram-me.

Sou curioso – é uma das minhas virtudes – e quis conhecê-la. No nosso encontro, ela me disse, logo de cara:

– Disseram-me que você é um devasso.

– Devasso quanto? – perguntei.

– Muito devasso.

– Não sei se tanto...

– Mesmo assim gostaria de saber – disse-me ela, cara a cara.

– Vejo que você não perde tempo... – comentei com a franqueza que eu tenho, outra das minhas virtudes.

E tempo não perdemos. Fomos para a cama. Na cama, ela se entregou de corpo e alma (tanto de corpo, quanto de alma), sem fazer rebuços, sem qualquer comedimento, em completo desatino, comandando as ações, insensata e sôfrega, porque era masoquista (virtude que eu não tenho).

Na ânsia da devassidão que em mim ela procurava, mas que estava nela, sofregamente me gritava ordens: – Seja devasso, honre sua fama! Bata-me com força! Vire-me de bruços, arranhe as minhas costas, morda meu pescoço, deixe nele uma marca roxa, uma dentada violácea, coma a tanajura e o gafanhoto!

(Aqui explico: ela se referia às tatuagens que tinha no bumbum, por sinal, bem feitas, sobre suas formas firmes e arrebitadas).

Para não decepcioná-la, até porque sou obediente, outra virtude que eu tenho, atendi ao seu pedido e, contrariando um pouco o meu bom gosto, porque não sou devasso tanto, comi-lhe a tanajura e o gafanhoto.

Despedimo-nos satisfeitos (segundo penso), eu com ela, ela comigo.

– Você é mesmo um devasso... – disse-me ela.

– Quão devasso?

– Muito devasso...– respondeu um pouco estouvadinha e cheia de malícia, deixando-me a ligeira impressão de que eu fora além das suas tatuagens, quando ela pediu para eu comer a tanajura e o gafanhoto. 

 

 

 


20

 

Soneto mote: Eu – Álvaro Viana

 

Eu tenho amor pelo meu tipo feio,

Esguio e magro, muito magro e alto.

Às vezes fico embevecido e creio

Que o meu semblante é de terroso asfalto.

 

E noite adentro sonho um lago e em meio

Às águas calmas que em meu sonho exalto,

Vejo entre astros, a mim próprio alheio,

O meu perfil tristonho de pernalto.

 

Entre os dois céus iguais em que me perco,

De um grande amor pelo meu Ser me cerco

Abrindo as asas deste Ideal que é meu.

 

E assim perdido na quimera, absorto,

Espera pela paz, depois de morto,

Quem nunca soube para que nasceu.

 

 

 

Confissão

 

 
 

De muitos sei que falam com os seus botões. Eu não. Aos meus botões não dou conversa mole. Prefiro conversar com o meu umbigo. Por ele vejo o mundo e meço a vida, por ele tive a vida e vim ao mundo.

Rendo-lhe então as homenagens que merece, dele me fazendo escravo submisso, visto que nele repousa o meu princípio de Arquimedes, o ponto de apoio que me torna capaz de mover o Universo. E nas conversas que fazemos intimamente por pouco me falta ouvi-lo dizer, “sou todo ouvido”.

Não estranheis, portanto, a afeição que nutro pelo meu umbigo, a atenção que lhe dou, a ternura com que o trato, os cuidados de que o revisto, beirando os limites da idolatria. Beirando os limites da idolatria, uma conversa! Idolatrando-o mesmo porque, em se tratando do meu umbigo, não admito limites que o inferiorizem ou menosprezem. Ao contrário. Faço questão de vê-lo triunfal e onipotente, num alto páramo cultuado, como deus que é.

Sempre fui assim desde que me entendo. Desde que, menino ainda, pensava que umbigo era embigo, meu bom amigo!

Já naquele tempo me postava diante do espelho a contemplar embevecido meu corpo juvenil e nu, sem pejo ou pêlo. Criei assim o hábito de me amar em carne e osso, e de sobejo, amar o meu reflexo esbatido na superfície reluzente e lisa.

Desta forma aprendi que eu e meu reflexo somos dois, apesar de sermos um ser único, divididos pela aura especular que faz de um o outro, idênticos entre si em cara, tronco e membros, sem falar no espírito.

E se alguém me diz hoje que sou feio e fátuo, e nunca soube para que nasci, respondo, irado, que quem ama o feio, belo lhe parece, e que tenho amor pelo corpo que eu tenho. Feio? Esguio? Magro? Muito magro e alto? Um semblante terroso de asfalto? Um perfil tristonho de pernalto? Um frívolo peralta?

Pouco importa essa descrição entrecortada e fria, pois que me vejo pelo olho amigo do meu estimado umbigo e, embora sendo eu realmente esguio e magro, de semblante terroso de asfalto, em mim tudo se me parece bem proporcionado, até harmonioso, tendo meu umbigo por epicentro do conjunto como se fora um pequeno astro – o astro-rei da composição em que me tornei.

E quando, de umbigo atento, espreito-me nas contemplações intermináveis de mim mesmo, ponho-me a sonhar os sonhos que exalto e de um grande amor pelo meu ser me cerco, enquanto, de umbigo deslumbrado, perco-me no celestial endeusamento do meu corpo, abrindo as asas deste ideal que é meu, somente meu. E assim perdido na quimera, absorto, nada faz mudar meu jeito de ser ou de pensar, nem sequer quando me acode à lembrança uma frase da infância – “tipo que morto não faria falta” – que à outra frase se soma no presente: “quem nunca soube para que nasceu”. Porque assim sou eu! E pronto.

 

 

 

21

 

Soneto fim: Justificação - Tertuliano

 

O feio nome que meu pai me deu,

Graça sem graça, sem beleza e arte,

Como se eu fosse um outro Malasarte,

Como se fora reles Zebedeu,

 

É nome triste que me abate o Eu.

Só de ouvi-lo, o coração me parte,

Só em dizê-lo, digo um disparate,

Pecha cruel, meu pai me concedeu.

 

Se não bastasse, chamam-me peralta,

“tipo que morto não faria falta”,

Sátiro louco que na vida flano...

 

Justiça quero! Não peço desculpa,

Pois cabe a meu pai o peso da culpa

Que a mim denominou Tertuliano.

 

 

Justificação

 

É preciso escrever mais alguma coisa?

 

 

 

 

(*) Um asterisco à parte para um aparte

 

 
 

 Caríssimo Pedro J. Nunes:

 Além da nobre função de adornar os textos, os asteriscos têm a finalidade de fazer uma chamada para um esclarecimento no curso da leitura, geralmente em pé de página, numa conversa à parte. Vamos, pois, a essa conversa, não em pé de página, mas num dedo de prosa. 

Deixaram na minha caixa postal 517, um envelope amarelo com um punhado de textos denominados Tertulianas, pretensamente da autoria de um certo (ou incerto) Tertuliano. Será pseudônimo? Nome próprio?

Nunca encontrei ninguém na vida com nome tão pouco sugestivo e, que eu saiba, somente um eloqüente doutrinador da Igreja, nascido em Cartago lá por volta de 155, “gênio poderoso, absoluto e sombrio”, autor de A Apologética e de outros cartapácios, conforme leio no meu Dicionário Prático Ilustrado, foi premiado com tal nome.

Mas afora o cartaginês vetusto, o único Tertuliano de que me lembro é o personagem paspalhão do delicioso soneto Velha Anedota, de Artur Azevedo. Aliás, é o mesmo soneto com que se iniciam os textos que estou lhe remetendo.

E por que os remeto?

Fique tranqüilo que não é para ouvir a sua opinião crítica sobre o conjunto da obra que recebi no envelope amarelo. Não! Não iria submeter um amigo, tão cheio de afazeres como você, ao encargo de dar uma opinião crítica e abalizada sobre um material a respeito do qual eu próprio já formei o meu juízo. Que, por sinal, não é nada favorável.

O tal Tertuliano, ou seja lá quem for, meteu-se a escrever algumas divagações literárias inspiradas, diria até mal inspiradas, nas poesias de uns poucos vates brasileiros, num trabalho que, se algum mérito tem, é o de transcrever as poesias.

Aqui do meu discretíssimo observatório, inclino-me a dizer até que foi tempo perdido, o de Tertuliano, ao escrever os textos que escreveu, tanto quanto será tempo perdido o de levá-los a sério.

Dispenso, portanto, a sua preciosa opinião crítica, meu caro Pedro J. Nunes. E se remeto os escritos a você é porque talvez lhe seja interessante instalá-los no seu site Tertúlia para preencher espaço, nada mais do que para preencher espaço, se a tanto os escritos se prestarem. E só por isso, ou seja, por admitir a remota possibilidade de você vir a hospedá-los no Tertúlia, é que tomei a liberdade de entrar em texto alheio (o de Tertuliano) para cravar-lhe um asterisco logo no início, e dedicar a você as tais Tertulianas. Com o quê fica explicado o asterisco da dedicatória e a própria dedicatória.

Um abraço amigo, do amigo Luiz Guilherme Santos Neves.             

 

TOPO DA PÁGINA

© Luiz Guilherme Santos Neves. Todos os direitos reservados.