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BPES: 160 anos de história

 

Rita de Cássia Maia e Silva Costa

 

 

Julho de 2015: "Alice no País das Maravilhas", obra-prima de Lewis Carroll, completa um século e meio e continua a encantar leitores, continua a suscitar discussões filosóficas e a inspirar artistas do mundo inteiro. Escrito pelo reverendo e professor de matemática do conceituado Christ College em Oxford, Charles Dodgson, nome verdadeiro de Lewis Carroll, o emblemático manuscrito de 1865, um dos maiores tesouros da British Library, é cedido, sob sete chaves e certamente ao custo de alguns milhões de dólares, a The Morgan Library & Museum, estrela de uma exposição em Nova York a ilustrar uma das inúmeras comemorações espalhadas no mundo inteiro durante todo este ano. Na Inglaterra, como em vários outros países, "Alice" está nos palcos, entre apresentações de musicais e de teatro, está nos cinemas, em museus e exposições, em novas e ricamente ilustradas edições, dando mostras das inúmeras maneiras com que a personagem foi retratada durante os anos e principalmente evidenciando porque essa obra, supostamente para crianças, se tornou um grande clássico. Em outras palavras, o êxito da história atravessou fronteiras e décadas, acomodando-se às mudanças culturais de cada geração.

 

Muito mais que às crianças, é aos adultos que se dirige "Alice". Ao responder à pergunta da lagarta - "quem é você?" - a menina de cabelos louros e vestido azul responde: "Eu - eu não sei muito bem quem sou hoje. Sabia quem era quando me levantei esta manhã, mas fui mudando muitas vezes desde então". Reler a narrativa de Lewis Carroll causa assombro.  Repleta de jogos de palavras e universos paradoxais, a obra-prima de Carroll pode ser lida e relida sob diferentes prismas: contrariamente ao senso comum e à obviedade do sentido, o livro oferece ao leitor novas e diferentes maneiras de pensar. Nos mistérios do puro nonsense, ele apresenta aquilo que na linguagem é sua própria subversão, vasculhando nosso mundo pelo outro lado da lógica, a lógica da fantasia.

 

Como obra de fantasia, reflexo do gosto pelo nonsense, característico da literatura da Inglaterra na época vitoriana, “Alice no País das Maravilhas” realiza, por meio de seu discurso ambíguo e aparentemente sem lógica, uma crítica ao regime monárquico do século XIX, conservador e autoritário. Mas, acima de tudo, como a lógica do sonho que confere sentido ao que parece não ter sentido, o mundo de Alice, como diz Burgess, tem o poder de recuperar a inocência perdida.

 

Não por simples acaso "Alice no País das Maravilhas", segundo os críticos, teria influenciado autores como James Joyce, em "Finnegans Wake", Kafka, em "O Processo" e "O Castelo", e Nabokov, autor de "Lolita", além de artistas surrealistas como Magritte e Salvador Dalí. É no mundo do sono, e portanto do sonho, que Lewis Carroll, com seus trocadilhos e intraduzíveis jogos de linguagem, revira os sentidos e faz o leitor ver o mundo de ponta-cabeça ao tornar-se de novo criança, vendo o mundo como a criança o vê, dormindo e despertando para descobrir, citando Virginia Woolf, que o verdadeiro objetivo da vida é o desenvolvimento do character. Em inglês essa palavra significa simultaneamente personagem e caráter, permitindo um interessante trocadilho. Isso nos desafia a pensar a literatura em sua dimensão de jogo, de formação e transformação. Ao se referir ao caráter do escritor de "Alice", a escritora inglesa, ela própria rigorosa em sua ourivesaria com as palavras, sugere ter tido ele dentro de si "um cristal de perfeita dureza".

 

Por que falar dessa obra-prima da literatura inglesa se a nossa motivação é a celebração dos 160 anos de história da Biblioteca Pública do Espírito Santo? Qual o significado de voltarmos nosso olhar para essa feliz coincidência? Em uma das vitrines da exposição de obras raras e especiais que a BPES, de forma tão singela, apresenta ao público para dar a conhecer uma pequena mostra de seu tesouro, encontra-se a edição de 1990 de "Aventuras de Alice no País das Maravilhas", que integra a Pleiade, coleção francesa, valiosíssima e completa, da Gallimard, que o historiador e bibliófilo José Teixeira de Oliveira legou à BPES por meio de sua viúva, Sr.a Stella  Teixeira   de Oliveira, em 2007. Juntamente com a Pleiade, compõem este acervo a que o autor da "História do Estado do Espírito Santo" dá nome outras igualmente valiosas obras de literatura, filosofia, religião, história da arte, totalizando 2.750 títulos. Ao lado desta coleção especial estão a coleção intitulada Província, assim denominada em virtude de ter sido formada principalmente do que se colheu e guardou desde os tempos da criação da Biblioteca em 16 de julho de 1855, ampliada e preservada ao longo de todos esses anos por seu valor histórico e cultural, e a Documentação Capixaba, acervo fundamental à pesquisa sobre a memória e a identidade capixaba. Juntas, elas representam, embora ainda pouca gente conheça, patrimônio cultural de imenso valor do povo espírito-santense.

 

Guardiã desse patrimônio, a BPES vem se consolidando institucionalmente por uma série de razões: além das coleções mencionadas, há, no conjunto de vários e excelentes acervos, que se subdividem em função de suas características e do público a que cada um deles se destina, um total de 56.485 títulos devidamente catalogados, informatizados e disponíveis para leitura e/ou pesquisa. Por meio desses acervos e coleções e de seus diversificados serviços, a BPES cumpre sua função social de dar acesso à informação e ao conhecimento a todos que nela venham buscar material de leitura e fonte de pesquisa, assim como alento e estímulo ao debate de ideias como forma de enfrentar as vicissitudes de nosso tempo.

 

Fazem parte da estrutura e dos serviços da Biblioteca, dentre outros, os setores Braille, multimídia, a divisão que reúne as diversas áreas do conhecimento sob o nome de obras gerais - sala de visitas que atende ao grande público da Biblioteca -, a divisão de periódicos, que propicia livremente informação, conhecimento e lazer, além, claro, daquele que deve ser, como costumo dizer, “a menina dos olhos” de toda boa biblioteca pública, o setor infantojuvenil, por ser simbolicamente a porta de entrada ao extraordinário mundo da leitura aberta aos que são potencialmente os leitores de que o país precisa para se desenvolver: as crianças.

 

Não raro se vê, numa visita ou num passeio pela Biblioteca, pessoas observando estantes, descobrindo relíquias e curiosidades, acariciando edições que tocam guardados da memória, fustigam lembranças e imaginações. O interesse pela leitura pode ser visto cada vez com mais frequência por gestos e olhares que buscam, nas estantes, livros e autores, capítulos e páginas, edições e traduções de histórias contidas em numerosos e densos volumes. No século da primazia das imagens, a leitura continua sendo uma das mais enriquecedoras e singulares manifestações da experiência humana. Cecília Meireles assim se refere ao gosto da narrativa – e a isso podemos associar a experiência da leitura - em sua prosa poética:

 

O gosto de contar é idêntico ao gosto de escrever – e os primeiros narradores são os antepassados anônimos de todos os escritores. O gosto de ouvir é como o gosto de ler. Assim, as bibliotecas, antes de serem estas infinitas estantes, com vozes presas dentro dos livros, foram vivas e humanas, rumorosas, com gestos, canções, danças entremeadas às narrativas.

 

Com esse espírito de biblioteca viva, aberta à experiência humana e ao compartilhamento, a Biblioteca Pública do Espírito Santo desenvolve seus projetos e suas políticas. São exposições, visitas, ações culturais, atividades diversas em torno das quais as pessoas, profissionais e usuários, se envolvem, ampliando o leque de oportunidades de experiência e de descobertas sobre as relações entre o ler e o viver. Semeando a leitura no fértil campo das ideias, colhemos silenciosamente a intimidade com o livro e a leitura estimulada pelo rico e constante debate em torno da literatura, especialmente a literatura do Espírito Santo.

 

Há nessas políticas e ações um cuidado com a qualidade e a valorização dos acervos bem como com o seu caráter de formação. Assim como se busca valorizar a tradição e as conquistas científicas e tecnológicas, históricas e culturais, reunidas nas mais diferentes áreas do conhecimento, também se favorece o acesso a esses bens por meio dos mais variados e indispensáveis serviços. (Por oportuno, peço licença para aqui registrar nosso reconhecimento à eficiente e valorosa equipe técnica da BPES pelo zelo no desempenho de suas funções). A formação de leitores mais seletivos e críticos, qualificados para a vida em sociedade, articulada à valorização do conhecimento, da ciência e das artes formam as bases das políticas desta Biblioteca, especialmente sua política de preservação de acervos, que inclui, dentre outros, projetos de digitalização, conservação e restauração, e sua política cultural.

 

Alguns claros exemplos desse cuidado com o acesso à informação e com a inclusão social, de um lado, e com a valorização e difusão da literatura e da memória do Espírito Santo, de outro, são hoje de amplo reconhecimento público, a despeito de todas as dificuldades enfrentadas. Respondendo pela divisão itinerante da BPES para levar leitura e informação às comunidades mais distantes, a Biblioteca Móvel e a Biblioteca Transcol aí estão, consolidando essa política. Da mesma forma aproximadamente 100 títulos (todos de literatura do Espírito Santo) foram enviados, para integrar seu grande acervo, à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América.

 

"As grandes bibliotecas não se formarão de uma vez...". Cito aqui, com ênfase, trecho do relatório assinado por João Clímaco d´Alvarenga Rangel e José Camillo Ferreira Rebello apresentado à Assembléia Legislativa Provincial do Espírito Santo no dia da abertura da sessão ordinária, em 1861, pelo Presidente da Província José Fernandes da Costa Pereira Júnior. Peço novamente licença para repetir o que eu mesma disse em 16 de dezembro de 2008 por ocasião da reinauguração da BPES após sua reforma e ampliação:

 

“A Biblioteca Pública do Espírito Santo Levy Cúrcio da Rocha, fundada em 16 de julho de 1855 e sediada na Praia do Suá desde 1979, tendo sido a 5.ª biblioteca pública criada no país, representa um elo entre a tradição e a modernidade, entre o mito e a realidade, a transição de um projeto político à materialidade de um sonho, cuja construção se fez e se faz todos os dias “tijolo com tijolo num desenho mágico”.  Como no poema de Chico Buarque ou no de João Cabral, essa construção, ou reconstrução, só faz sentido e só é possível porque é de todos. Eis o desafio: redescobrir palavras e histórias para ajudar a compor, com todos aqueles que nos precederam, a história da reconstrução desta Biblioteca, que é também parte da história do povo espírito-santense e portanto guarda a sua memória”.

 

Profundas transformações sociais marcam o país e o mundo nesses 160 anos de história. A abertura de mercado resultante dessas transformações e a subsequente nova ordem mundial se fazem sentir em todas as instâncias da vida cotidiana: na mídia, na política, na cultura, na ciência, na economia e na informação. Esse movimento interfere de maneira decisiva no destino e na permanência - ou não - das instituições.

 

Cada vez mais o ritmo de expansão do volume de informações excede nossa capacidade de contê-las. Sempre gosto de lembrar o mito da Biblioteca de Alexandria: construída cerca de 300 a.C, ela resulta do sonho antigo de representar a biblioteca universal, sonho que ressurge com a promessa de se redimensionar os modos de produzir e disseminar conhecimento com a utilização das tecnologias da informação. Com a tecnologia, todo o conhecimento pode migrar para o universo dos bits. Sabemos quão indispensáveis são a informação e o conhecimento para as sociedades do século XXI.

 

Uma boa biblioteca jamais é completa. Modernizá-la permanentemente envolve grandes questões: os custos de manutenção, modernização e funcionamento; a necessária e permanente atualização de acervos; sua preservação; a indispensável qualificação de seus quadros técnicos; os dispositivos de acesso aos bens simbólicos pelos usuários; sua sustentabilidade... Tudo isso envolve o desafio de uma mudança de concepção, que requer principalmente valorização social e investimentos.

 

Toda boa biblioteca pública é uma entidade complexa, sofisticada e cara. Bibliotecas são tesouros. Elas fazem parte de nosso imaginário como emblema universal do desejo humano de imortalidade. Do ponto de vista histórico e político, penso que são necessárias mudanças de atitude e vontade política para vencer esse desafio. Mas sempre é bom lembrar que as boas bibliotecas possibilitam ao homem a suposição de ultrapassar todas as fronteiras do pensamento e do conhecimento de que falou Koyrè, fazendo-nos crer na infinitude do universo. Visão de mundo poética e tão coerente com a biblioteca universal e labiríntica que com Borges aprendemos a amar...

 

Ouso aqui reproduzir um sonho. Trago-o à lembrança apenas para, à maneira de Alice, buscar em sua suposta falta de lógica uma certa razão para ver no desafio das contradições "as maravilhas" desse  poço muito fundo que se chama biblioteca:

 

“Certa noite sonhei com uma casa de minha infância. Para dizer a verdade, a primeira casa em que vivi, na mais tenra idade e por muitos anos desde quando para cá vim com minha família, para viver tão distante de minha terra natal. Esta casa, de que me lembro muito bem, entre cômodos e sótão, cercada por um jardim de roseiras e uma pequena queda d´água nos fundos do quintal, guarda mistérios e lembranças que retêm o rascunho – ou o desenho – desta em que me tornei. Era uma bonita casa com varanda, com telhado e cumeeira, de onde escorriam as águas das fortes chuvas nas tardes de verão. Pois bem: nesta casa se alojam estantes e livros, em todos os espaços, organizados com tal ordem e beleza que o arranjo resulta numa biblioteca vasta, valiosa, admirável, aberta... Dela brotavam conversas, apagavam-se saudades, aprendiam-se cuidados e segredos.  Era uma casa feita de livros: uma biblioteca com seus labirintos (tal qual a biblioteca mítica de Borges), que me fascinava com seu inesgotável universo de símbolos.

 

Penso que, como no sonho, é sempre uma casa o lugar de nossa origem que, com suas paredes e janelas, abriga nossos desejos, tornando-os a bússola para nos orientarmos face aos nossos enigmas. Não somos nós quem vivemos numa casa. É ela que vive em nós. Assim como nossa casa, a biblioteca nos acolhe e nos habita. Cuidemos bem dela, portanto!”.

 

 

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