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Isso afinal mostra que certas glórias dos bons tempos não foram sempre tão deslumbrantes, pelo menos até onde alcança minha memória. Tínhamos plena consciência de que não podíamos nos alinhar com os deuses olímpicos do futebol carioca. O exemplo mais acabado dessa condição não foi o ocorrido nesse jogo do Fluminense, mas com um time do Flamengo que apareceu por aqui em meados dos anos quarenta. Ao falar desse time não sei se estou falando de um time de futebol ou de uma ficção, de um punhado de heróis gregos que vai à caça do gol como quem vai pegar o velocino de ouro com o descansado gesto de rotina de apanhar a marmita do almoço. Vejam a linha média: Biguá, Bria e Jaime. Bem mais tarde, cerca de uma década depois, o Brasil se sagrou campeão do mundo, mas na memória dos que assistiram àquele jogo aqui em Vitória permanecerá sempre a dúvida se aquele time do Flamengo não deixava a anos luz de distância a própria seleção canarinho de 1958. Falei de linha média, mas isso é de uma indesculpável trivialidade. Tratava-se de um trio de gigantes que não apenas dava condições para tornar inexpugnável a chamada última cidadela, como também fazia razias mortíferas no terreno adversário. Biguá era um gigante de um metro e sessenta e cinco, se tanto. Um indiozinho atarracado que parecia um desses personagens de história em quadrinhos, o “homem elástico” ou equivalente. Qualquer bola vinda em sua direção era alcançada por sua perna gigantesca. Na lateral esquerda, o Jaime. Pensem num jogador extremamente leal e que diante do adversário parecia pedir-lhe desculpas antes de tomar-lhe a bola. Com um detalhe: tomava todas, aceitasse ou não o adversário seu educado pedido de desculpas. Se não me engano, esse Jaime é o pai de um treinador do mesmo nome que trabalhou aqui em Vitória há algum tempo: Jaime de Almeida.

 

Era a época do centeralfe. No campo de batalha ele era o estrategista que, além de exercer uma função defensiva, comandava o ataque às hostes inimigas. O centeralfe era o indiscutível proprietário do meio de campo e parecia haver uma espécie de consenso entre os litigantes quanto ao respeito ao território sagrado compreendido em seus domínios. Sabe-se que as táticas atuais profanaram esses domínios e chegaram à extinção do centeralfe, cujo correspondente, no jogo moderno, não consigo identificar. Deve ser um burocrata da bola, um homem de terno cinzento que nada tem a ver com aquele nobre personagem protegido pelas normas de um código invisível que lhe concedia o grau de cavalheiro na hierarquia futebolística. Quem não se lembra do Veraldo do Vitória, Rafael do Caxias, João Pedro do Rio Branco? Todos verdadeiros senhores feudais, muito cônscios da responsabilidade que lhes era delegada: administrar seus domínios com sabedoria, em nome da beleza do futebol. A culpa pelos gols perdidos jamais podia ser atribuída aos centeralfes. As falhas ficavam por conta dos beques ou do infeliz goleiro. No centro do campo eles pairavam acima do bem e do mal. Também não eram culpados por não fazer gols, tarefa dos atacantes. Sempre que os perdiam os tais atacantes seriam apenas desastrados emissários que não cumpriam adequadamente as missões propostas pelos inatacáveis centeralfes. Esta longa introdução ao papel do antigo proprietário do meio de campo serve apenas como referência ao maior de todos que já vi jogar em minha vida: Bria, desse mesmo time do Flamengo que veio jogar em Vitória nos anos quarenta. Pode ser que a fantasia de meus olhos adolescentes contribua para exacerbar essa lembrança, mas é difícil alguém me convencer que, naquele jogo, se quisesse, Bria não poderia dar saltos de três metros de altura, e até mesmo alcançar a marquise do Estádio. Uma atuação fantástica e que fica como um dos momentos inesquecíveis em minha trajetória de espectador.

 

A linha de ataque desse mitológico time do Flamengo? Bem, meus caros, “compacto” à parte, declaro que vi Zizinho jogar. Para Zizinho, o campo era uma folha de papel milimetrado onde ele desenhava dribles invisíveis. Fala-se muito, com inteira justiça, nos fenomenais dribles de Garrincha. Mas havia nos dribles do legendário extrema um toque de comediante com suas infalíveis escapadas pela direita. Com Zizinho o espetáculo ficava por conta de uma inexplicável mágica de esconder a bola durante um drible milimétrico. Mas a razão sempre imperava e, no traçado das coordenadas cartesianas, seu passe era meio caminho andado para o gol. Enfim, Zizinho encarnava um mágico que não usava truques e isso enriquece a condição humana na medida em que um portador dos tradicionais cinco sentidos nos aponta uma insuspeitada possibilidade de superação de triviais limites. E assim foi porque me pareceu.

 

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