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O futebol capixaba era importante. Conheceu embates memoráveis e atores inesquecíveis. As tardes de futebol na cidade eram imperdíveis, e alguns jovens não perdiam mesmo. Entre eles, o jovem Roberto Mazzini, que depois se tornaria cronista e narrador da imigração italiana no Espírito Santo. E que em conversas com Ivan Borgo, que, como ele, frequentava os matchs, veio recuperando da memória pessoas e acontecimentos que à altura lhe fizeram indelével impressão. 

Ambos cresceram, Roberto e Ivan, e suas impressões se confundiram por entre esses enovelados obscuros que viram páginas literárias. Já contadas por duas vezes por Roberto Mazzini, nas edições que delas fez publicar o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, da terceira vez que vem a público foi Ivan Borgo quem assumiu a empreitada de revelar a nós, que não os vivemos, as impressões que lhe ficaram daqueles dias. 

O futebol, no caso, é pretexto do autor para rememorar. Mas atenção, o fato de as memórias serem contadas tendo por base o futebol só atesta a importância que este tinha para os jovens da época, e para o autor em especial, torcedor ilustre do centenário Rio Branco Atlético Clube. De que, aliás, foi diretor nos idos dos anos 50, que é onde inicia o percurso do seu esforço de relembrar. Esmiuçando mais: é que além da paixão que o futebol desperta em nós, brasileiros, eram as partidas “um dos poucos itens de lazer da cidade, naquela época”. Memórias lúdicas, pois calcadas em situações de lazer (é a visão de “um jovem”, adverte o autor), as lembranças fazem parte “daquela cidade” de Vitória. Eis aí o interesse que despertam no público em geral estas recordações de Ivan Borgo. 

Crônicas daqueles dias, por quem esteve lá. Longe de nos trazer um registro de glórias, ainda que relativas, dentro do campo de futebol, estas linhas dão vida a uma cidade que não existe mais, com a mentalidade da época, os costumes, as personagens. Sobretudo as personagens. E que tipos interessantes de vitorienses (ops, vitoriense aqui é o natural de Vitória, não o torcedor do mais antigo clube de futebol da cidade, mesmo havendo alguns interessantes, vá lá, nas hostes alvianis), em que se misturam nas arquibancadas o homem do povo e os que futuramente despontariam na vida pública, todos irmanados no mesmo amor – no mínimo, o mesmo interesse – pelos encontros em torno do então chamado “esporte bretão”.  

Memórias podem ter um interesse limitado para o público comum. Não neste caso, em que o autor acrescenta ao estilo refinado suas agudas observações sobre as pessoas, torcedores ou não, e não deixa de fora sequer o bispo! E que perfis interessantíssimos de torcedores, “amigos” e “inimigos”! Como deviam ser animadas as tardes de futebol no Estádio Governador Bley, quase um quintal da casa do autor... 

Então Vitória cresceu, o Estádio Governador Bley foi tirado do Rio Branco, que acabou exilado em outras plagas, o Santo Antônio foi extinto, dos trilhos da estrada de ferro despontou outra agremiação vitoriosa, os jovens torcedores cresceram, a vida seguiu. 

Puxar pela memória, traçar em linhas escritas suas recordações, não deixa de ser um ato de generosidade para com os contemporâneos. É que assim uns restarão eternizados; outros, estando entre nós, se verão desafiados a contar a própria versão dos fatos, revivendo tempos que já se foram. Ganhamos todos, e ganha a historiografia capixaba por contar com esta crônica de costumes que, como as melhores no gênero, nos revela o palpitar da vida da cidade, como era então. 

Ah, e tem também, de quebra, a narração de memoráveis matchs do futebol capixaba. O futebol capixaba que, para aquele jovem na arquibancada, atento a tudo, era tão importante.

 

Getúlio Marcos Pereira Neves, da Academia Espírito-santense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo

 

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