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Sonetos

 

Pedro J. Nunes

 

  

I

 

A boca toma da noite uma sombra

lunar, desdenha de mim, boquiaberta

fúria. Ainda há pouco, em tarde zonza,

o lençol azul: braços, bocas, pernas,

 

o corpo feito de grutas, de montes,

de inesperados abismos. Janelas

misteriosas, os olhos de bronze

embalam os quereres e a quimera

 

usurpa-me a matemática dor

de existir. Junto na palma da mão,

em tom de dúvida, feixes de cor

 

e me desfaço, desmontado em branco

e preto. Dócil e saciado potro

ganho, na trégua, a errante manhã.

 

 

II

 

Dorme: enquanto eu me desfaço em fúria

os desvãos de mim tropeçam no éter

do setembro insone. Não é o cúmulo

que, entregue aos sonhos, este severo

 

vulcão assim a olhe, de faminta

retina? A manhã me espera em dó

menor — que as vísceras não desmintam

a loba. Não me refaço do pó

 

olhando daqui seus misteriosos

cálices: o vinho ganha a noção

do ácido. O cavalo em mim a postos

 

parte a trote noite adentro. São

as evoluções de vagas magnólias

a mais cruel certeza do porão.

 

 

III

 

O meu corpo é ausente do seu corpo,

meu amor: a noite apenas começa

e não é senão o anúncio da dor,

essa dor do furioso cio, etérea

 

dor. A noite não engana do amor

a fúria mal contornada, a eterna

angústia dos que debruçam famélicos

sobre o éter o desejo e o vapor

 

da nave que flutuou em azuis.

Da sorvência das horas vãs palavras

nada podem. É tudo furta-luz.

 

O amor prescinde de lavrar a pá

o perfeito verbo: tudo conclui

que o amor é um vento apaziguado.

 

 

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