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Luzes desfeitas

 

Fernando Achiamé

 

                                                                                                        Para Miguel Marvilla

 

 

Últimos aguaceiros de verão e um sol rasante

Forçam pequenos lírios na bacia de cimento

A tecerem com furor o seu fugaz tapete rosa.

Você que me lê agora

Mesmo depois de trezentos anos

Me ajude a fazer este poema,

A fazer este poema imortal

Ao menos por trezentos anos.

Vendo versão anterior dos versos

Um amigo informa que o poeta Flecker

Dirigiu-se a quem o leria depois de mil anos.

Eu me contento com trezentos.

O Mistério existe, e é por Ele que tudo existe.

 

Não, sozinho nunca fiz poema algum

Somente lanço desejo mínimo

A que se junta o seu, leitor, bem maior

E unimos palavras em versos

Dispomos versos em estrofes

Etc. e tal.

Últimos arquejos do verão e um sol em razia

Na bacia de cimento forçam pequenos lírios

A tecerem com furor o seu fugaz tapete rosa...

Se de antigas poesias me encarrego

E sugiro outros cantos pro futuro

Seguindo uma ou duas dicas de T. S.

É para você, hypocrite lecteur, por mais trezentos anos

Cumprindo uma ou duas profecias de T. S.

Permanecer meu semelhante, meu irmão!

Segredo puxa segredo: atrás de um surgem vários.

 

Mas após trezentos anos

Convém nos ignorarmos um ao outro

Para não pedirmos em tom rouco

Qual velhíssima Sibila em Cumas: – Quero morrer.

De novo em Cumas, outra vez crianças

Dizemos: – Sibila, o que queres?

Ela responde: – Quero morrer.

E também aqui não é atendida.

Todos sabemos, Caio Petrônio Arbiter,

Que você é o maior responsável por isso.

Sibila, um pouco mais de paciência

Passados uns trezentos e tantos anos

Ils reviendront, ces Dieux que tu pleures toujours!

Para com Eles você outra vez transigir.

Nós, leitor, continuaremos los desdichados, ah, continuaremos!

Mas após trezentos e mais trezentos anos

Eu pó, você fumaça, os dois

Luzes desfeitas na Invisível Luz

Que este poema se vire sozinho.

 

Últimos aguaceiros de verão e um sol rasante

Forçam pequenos lírios na bacia de cimento

A tecerem com furor o seu fugaz tapete rosa?

 

 

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