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RECANTO DA POESIA

 

 

 


 

 

 

Terceira rapsódia

 

Fernando Achiamé

 

 

O silêncio dos espaços infinitos

é próprio de Deus. Nasceram Dele

os cantos dos astros em noites azuis,

as árias que as divas gorjeiam,

até as buzinas klaxon dos carros

em ruas parisienses nos anos 20.

Mas o silêncio Ele não cedeu.

O silêncio é o próprio Deus.

 

Para compensar tal ausência

criaram o amor, enlatado desde

1869, igual às sopas Campbell.

Almas e corpos... Amores e sopas

produzidos em série para fazerem

de cada homem um rei.

Não fizeram.

 

E inventamos um tempo de verão,

com peixes a saltarem alegres.

Verão de pais sempre ricos,

mães bonitas sempre,

crianças sem chorar por nada

e uma canção de ninar,

terna como a do boi da cara preta.

Somos culpados se o verão domina

a Terra com verdades insanas?

Basta subir o preço do algodão.

Basta os peixes brilharem

nas águas da Carolina do Sul.

Basta fazer calor e as pessoas

fumam, bebem, gemem umas

sobre as outras em acalantos.

Logo um barco parte para Nova Iorque:

muitos nele vão, embalados

por visões com noites espessas

de fumaça, álcool, gozo para

fácil esquecerem os fatos da vida.

Pros andarilhos do mundo, nós todos,

abrimos larga estrada de sonhos.

 

Depois de buzinarmos na sua alma,

Paris nunca mais foi a mesma.

Por ela flanamos, caipiras que pegam

amores e sopas em prateleiras de lojas.

Caipiras sim, mas com dinheiro no bolso.

Não vencemos o mundo – só Ele o fez.

Apenas fizemos a América. Dizem ser

a América maior que o mundo

e Hollywood, maior que a América.

A vida é injusta, mas existe música:

o swing do clarinete convida

para um soluço ou uma risada.

 

Dispomos notas em nosso Gênesis

de olho no bife com fritas da sobrevida.

Quantos de vocês sofreram martírios?

Fundamos o cerne da modernidade,

o ritmo da luz, o ritmo para ser feliz.

Corram para um youtube qualquer,

teclem “days can be sunny” e pronto.

Eis o ritmo de um mundo novo,

o ritmo de tagarelar o dia todo.

 

O amor, nós o tiramos das latas.

As sopas Campbell acabarão um dia,

mas o amor, livre em letra e música,

esse veio para ficar.

O resto é Silêncio, o outro nome Dele.

 

 

 

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