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Réquiem por um amigo

 

                                            Para Miguel Marvilla

 

 Oscar Gama

 

 

Eu o vi, cérebro em chamas rasgadas por talento,

Morrendo ao meu lado, de aids e câncer em linfa sem ninfas, e lento

como o chumbo derretido em balas

de açúcar e sangue. Ardente, você fá-las

de sua cova, no lugar da obra-prima que nunca fez,

No lugar que seria sua vez.

 

Gerador de nada em velocidade alta,

Gerando a energia que te falta,

Você girava sua boca por mulheres tristes

que te amamentavam  com seus pênis em riste,

Sem que você notasse nem a si

nem às belas amantes que estavam ali.

 

Sim, jogador de nada, eu as vi,

Pálidas cartas frágeis em castelos de baralho,

Antes fortes e sóbrias e sábias, e agora penduradas em retalhos

de você, inúteis como uma noite de maio

para um cego-surdo-mudo

furtador de olhos, de ouvidos, de língua e de tudo,

Ladrão solitário de um armazém

onde não havia nada nem ninguém

a não ser você  mesmo ardendo em febre,

Suando, não líquidos, mas suando seu corpo e o de outros, mais leve

a cada minuto, como vela queimando que se desfará em breve.

 

E porque a morte escolhe os santos,

O mal que você fez te transformou em mártir e tanto,

Das mortes que você fez brotaram cravos

que te crucificaram tomando seus membros como alvo:

Pernas, mãos e pênis, e pela dor você foi salvo

porque santamente você nunca as desejou:

Apenas desejava ser desejado

de uma forma que fizesse valer sua beleza, sua inteligência, seu fado

e sua virilidade: tudo que não lhe foi dado.  

 

Antes de você morrer,  me bastava de relance

perguntar o que te fez morrer de câncer,

Assassinado longe do suicídio que te fascinava;

 

Mas agora que as doenças vêm te envolver,

Belas como um revólver,

Pergunto o que você fez

de seus anos vinte e seis;

 

Pergunto em que grutas você deixou o esperma rico

que nunca reaverá com seu jeito de pária,

Que nunca reaverá com juros e correção monetária:

— Em que putas você deixou tantas palavras e emoções

quanto as que não restaram para seus livros e para seus corações?

 

O silêncio da resposta mistura tratamentos e lê os livros

que você nunca escreveu, mas que estão vivos

em  mim que sei que você os viveu;

O silêncio sorri para famílias, mulheres e amigos

que você nunca teve

e que nunca te tiveram.

 

Vejo-o: vindo de uma guerra, feito porco

por um monte de cicatrizes pelo corpo

preso em uma máscara de chumbo que o chumba

e o oculta, irmão-sósia-lobo,

Do reino de sua tumba.

 

Grito: o que você fez de nós e de você

ou o que te fizeram ser

pelos bares, pelas bebedeiras,

Pelas drogas e pelas besteiras?

 

Cai a noite. Já não ligo:

Em um tempo em que foram extintos

— ou transformados em lobos da estepe — amores e amigos,

Sua morte humana,

De novo, ímã, nos irmana

e lobamente choro pelo amigo

que se vai e que se ama.

 

(Sim, pois o amigo enfim posso tocar e amo

  longe das imperfeições de  ser humano.)

 

 

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