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Minhas últimas lembranças do Miguel

 

                                                      Para Miguel Depes Tallon

 

Pedro J. Nunes

 

Uma semana antes de sua partida, definitiva, fui buscar o Miguel, eu mais a Lúcia e a Marília, as bibliotecárias da SEDU, na rodoviária de São Gabriel da Palha. Veio o Miguel e chegou por volta de uma e meia da tarde na agradável companhia de Silvana, a sorridente autora de livros infantis. Vinha um pouco pálido o Miguel, parecia cansado, sobraçava quatro exemplares do Romanceiro do Rio Pardo. Dizendo que tinha almoçado uma fatia de queijo em Baunilha, não quis almoçar com a Maria Helena, a secretária de Cultura de São Gabriel da Palha. Lúcia disse-me o Miguel está fazendo um regime severo, olha só como está magrinho. Exageros da Lúcia à parte, é bem verdade que a pança do Miguel estava menor, ele que teve o ventre caricaturado e pendurado na parede da Logos no tempo em que tinha barriga do tipo pau dentro sem beijinho, beijinho com pau fora.

        

E já que não ia o Miguel almoçar, e tendo eu, da minha parte, cumprido com essa obrigação, fomos dar uma volta pela cidade abarrotada de comércio — devia lembrar a meu amigo, em sua ancestralidade, os comércios orientais. Há uma variedade impressionante de comércio em São Gabriel da Palha: tonéis sobre as calçadas, panelas, facões, ferramentas e chapéus, tudo dependurado nas portas ao longo das ruas. Vendo um comércio tão ativo, impressiona-me as pessoas de lá indicarem a plantação de café e de coco como as principais fontes de renda do município e não oferecerem nem uma unha de fração às atividades varejistas. Lá pelas tantas, entra o Miguel numa loja de doces. Olha tudo, acaricia as barras de doce com uma doce lembrança, lá no fundo da loja acha alguma coisa e me chama, entusiasmado, olha aqui, meu caro, olha só, sabe o que é isso? E ele mesmo responde: absinto. Peguei a garrafa de rótulo amarelo que me estendia, olhei, olhei e não achei. Que absinto, Miguel, aqui não há nada. Olha a fórmula, olha a fórmula, determinou com ar professoral, estendendo o dedão indicador. Álcool, extratos vegetais, caramelo de milho, li. Ahhhhh, aí está, meu caro, extratos vegetais, é nos extratos vegetais que está o absinto, concluiu e acrescentou você tem que levar uma garrafa. Como eu me decidisse levar o “absinto” provisoriamente, ou desonradamente, chamado “Fernet Regiani”, o Miguel recomendou logo, meio farmacêutico meio nostálgico, não beba tudo de uma vez, vá com calma, não se brinca com absinto.

           

Guardada a preciosidade dentro da viatura da SEDU, que nos traria de volta a Vitória ainda aquela noite, sentamos Miguel e eu num banco de cimento perto da praça de São Gabriel da Palha, e eu entrei dizendo quanto tempo não me sento num banco de cimento, e ele muito, muito tempo eu também. E ali quedamos, desfiando nossos dez livros favoritos do primeiro escalão, do segundo escalão e do terceiro escalão da literatura brasileira. Não fosse alguém nos chamar para o pão de queijo da Maria Helena, ficaríamos ali eu mais o Miguel lembrando, ele, dos livros lidos, eu, dos livros por ler.

           

Dois dias depois, no sábado antes da quarta em que o Miguel resolveu ir embora sorrateiramente como foi, encontramo-nos na Logos, como se repete há alguns anos. O sábado de sempre: cafezinho, literatura, pau na política e nos políticos e as piadas cada dia melhores do Michelinho Minassa. A única diferença daquele sábado é que foi o último sábado que vi o Miguel. À saída, encontrei-o cobrindo os olhos com as mãos espalmadas na testa, estirava os olhos pelo brilho que o sol medonho estendia no calçamento. Fiquei com ele um instante, até que o fiel escudeiro na forma do motorista de táxi que sempre o vinha pegar chegou, até que me dissesse até breve, meu caro, até breve.

           

Quinta-feira, pela manhã logo cedo, toca-me Reinaldo o telefone Pedro, desculpe-me ser eu a dar-lhe a notícia, mas não trago boas novas sobre o Miguel. Que Miguel, Reinaldo? O Depes. E o que é que o Miguel  Depes aprontou, afinal? E Reinaldo responde cismou de morrer.

 

Daí em diante o enorme amigo que encontrei no Miguel transformou-se em últimas lembranças. Todas as recordações que tinha dele, os óculos quadrados enormes, a camisa listada sobre a pança, a costeleta cobrindo a verruga, o cabelo engomado e sobretudo o sorriso de menino, todas as recordações que tinha do Miguel tornaram-se urgentes e últimas, embaralhadas na falta que ele começava a fazer a todos nós.

 

Várias são as lembranças que trago de nosso pequeno tempo de convívio semanal: raramente o encontrava fora do Sabalogos. Todas elas dão a segura imagem de um grande amigo, além de um sujeito com enorme força realizadora. Leitor voraz, ficava triste quando tinha que sair da livraria de mãos abanando por não achar o que ler. Quando não achava um livro novo, espremia as sobrancelhas e dizia está mal, está mal. Parecia que o mundo não valia a pena. Apreciava a literatura pornográfica. Um dia encontrei a mesa cheia de livros pornográficos: a coleção Sátiros e Bacantes, da editora Imaginário. Miguel ia indicando Pedrinho, você tem de levar esse, Bonino, olha esse aqui, Zé Neves, você já viu? Insistia para que eu lesse o Mia Couto. Folheei um dos livros que me sugeriu, folheei, folheei e acabei decidindo que não podia ler um sujeito com esse nome: Mia, Mia, Mia.

 

Na tarde em que a quinta edição do Vilarejo foi dada a público, tarde animada no Instituto Histórico, Miguel estava feliz como sempre. Havia se esquecido da provisoriedade da vida e vivia cada dia seu mal. Até cantou com os dentes estirados num sorriso uma canção italiana com o Ivan Borgo. Aliás, nessa tarde, Ivan Borgo, o mais Mazzini dos Robertos, chamou-me à parte e disse-me Pedrinho, venha cá ver uma coisa. Provocando o Miguel, que estava a uns cinco metros, gritou-lhe, tão italianamente quanto lhe foi possível, Miguel, mas que esculhambação é essa? Esse Vilarejo já na terceira edição? E ele, estirando a mão espalmada num gesto retificador, dizia a Ivan quinta, meu caro, quinta edição.

 

Há três sábados abrimos a última garrafa de vinho do Miguel. Ele a havia deixado na livraria desde que parou de beber. Nenhum de nós tinha coragem de abri-la em sua presença física. Assim, se isso é possível, abrimo-la em sua presença espiritual. Ele é o primeiro entre nós na forma de lembrança, ou, como diz o Fernando Achiamé, é a primeira desaparição da mesa da Logos. Faz falta o Miguel, faz falta, mas o que há de se fazer? Um dia começamos a compor o capítulo das perdas, é inevitável. De qualquer forma, nenhum de nós quer lhe oferecer sua dor pela partida um tanto quanto fora de hora, mesmo porque sua presença está marcada na obra que realizou, da qual outros poderão certamente falar muito melhor, afinal convivi com ele por apenas pouco mais de três anos, período em que tornou-se assíduo frequentador do Sabalogos, e na amizade que nos ofereceu. Por todas essas coisas, as dizíveis e as indizíveis, e a todo resto de coisas que compõem uma vida, oferecemos-lhe nossas homenagens sem luto, sem noite, sem réquiem.

 

Vitória, setembro de 1999.

 

 

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