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Zézin

 

Marilena Soneghet

Quem tem tem. Quem não tem não compra, não aprende na escola. Não adianta o anel de doutor, de nada serve decorar o dicionário. É bem de nascença! Não é como certas coisas que você pode driblar a natureza e fingir que tem. Quer ter olhos verdes, basta comprar umas lentes; quer ser loura, ruiva... é só tingir o cabelo. Equilibra-se num salto sete e meio — vai parecer um pouquinho maior. Arrocha uma cinta na cintura, ela afina; põe pestanas postiças, implanta dentes, aumenta os seios, diminui o nariz, alisa o cabelo, injeta botox nos lábios, preenche rugas, “pés de galinha”... pra quase tudo dá-se um jeito. Mas...

Sensibilidade!?... ter a alma à flor da pele, aberta às impressões, às cores, formas, sons, sentimentos... deixar-se apanhar pelo instante e vivê-lo intensamente, ser capaz de ver o que outros não viram, de captar a beleza fugidia, de permitir-se o espanto, a emoção, de tornar um simples detalhe em “uma abertura para o mundo”, saber ver, saber sentir...

Não; sensibilidade não se inventa, não exige cultura, nem saber — é um presente  que se ganha ao nascer - uma clarividência. Pode-se, sim, apurá-la, mas, adquiri-la, nunca!

Apois! Eu vou falar do Zezinho: tímido, bronco, Zézin não olhava a gente nos olhos; punha a cabeça assim de lado. Ciscava o chão com o pé; bandeava o olhar pra qualquer “pé-de-pau”, menos pra gente. A voz vinha sumida, resumida a um “sim, sióra”, “não sióra” — um murmúrio. Por pouco não ficava invisível.

Era peão: tocava “os boi”, ordenhava “as vaca”, ajudava “pari bizerro” e azulava morro acima com seu pangaré, sem arreio nem nada. No ambiente dele se soltava.

Mas o que eu mais quero contar começa na casa do Zezinho, cuja simplicidade, pura como ele, me encantou. Era a típica choça caipira, de pau a pique trançado de cipó, as frestas preenchidas com barro. Mais a bica de água, mais a tábua de lavar as coisas, com um pedaço de sabão ao lado, pilão, chiqueiro, três galinhas, um galo, uma rocinha verdinha de dar gosto, uns pés de manga vergando de tanta fruta. Gato, cachorro, papagaio.  

Um dia, quando ele já estava um tantinho mais acostumado com a gente, forcei a barra pra uma conversa. Perguntei: — Ô, Zezinho, quanto tempo você leva daqui até seu rancho? Após um silêncio pensativo, ele disse: — Pra lá de “duas óra”. Achei que eu não tinha entendido, pois sabia que não era longe. — Quanto, Zezinho?, repeti, espantada - “Ora e meia... tarvez”, repensou. E ante minha incredulidade, Zezinho destrambelhou:

— É que gosto das estrada (disse sonhador); vô oiando as árvre, conferindo os ninho, vendo as nuvi... e quando tem lua se banhando no laguin, fico vadiando... oiando... que a lagoa tem três cô: de manhãzinha é dorada, no meio do dia é azul, de tardinha prateia. É ver que boniteza! E tem as garça...

Bruscamente se calou, avexado, caindo em si da ousadia. Bandeou a cabeça pro lado, riscou o pé no chão, ajeitou o cós “das carça marrada com cordão” (como o ouvi dizer um dia), voltou-se num repente e zupt! arrepiou caminho, como quem foge do coisa ruim. Nem pra trás olhou! Depois disso passou a evitar a gente, tamanha a vergonha.

Apois! Zézin era um poeta... quem diria!

Deve de tá lá no céu, (já cavalgou a curva do horizonte) oiando cá pra baixo, vendo os rio, as casa tudo pequetitinha, o campinho onde jogava futebó, o laguin prateado onde se banha a lua, os passarinzin dormindin nos ninho, as garça pescando num pé só...

Apois! poeta não se faz. Floreja!

 

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