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Por um novo Maracanazo

 

Sérgio Luiz Bichara

 

 

Chamo de brasileiros felizes àqueles que, quando questionados sobre o que está acontecendo no país, não sabem responder e ainda insistem em perguntar ‘mas o que está acontecendo?’ São iguais ao Mr. Jones de Dylan. Os brasileiros felizes afirmam que o único meio de promover mudanças no Brasil é por meio do voto, que a resposta à classe parlamentar virá das urnas. Mas não são capazes de levar em consideração que o sistema político vigente constitui um ciclo vicioso sem perspectivas.

 

Eles também acham que bom clima, belas praias, mulheres bonitas, futebol campeão e carnaval animado são o bastante para um país. Enfadonhos, insistem na falácia de que somos um povo feliz e cordial, amável e hospitaleiro, que nossa bandeira é a mais bonita do mundo, nosso hino nacional é de dar inveja ao mundo, que vivemos no melhor lugar do mundo e que Deus foi generoso com o Brasil – Ufa! A certeza dos brasileiros felizes é a ponta do iceberg do autoengano nacional.

 

Viciados em um ufanismo ridículo, cheios de soberba, integrantes da marcha dos satisfeitos, os brasileiros felizes insistem em permanecer vivendo no mundo do faz de conta, se exaltam (e como se exasperam!) com verdades nuas e cruas, com a realidade que nem sempre nos é favorável. Incongruentes, não conseguem perceber o quanto a sociedade do país é injusta, hierarquizada e violenta, racista e preconceituosa.

 

Quando da elaboração de uma cartilha pela Fifa, ‘Brasil para Principiantes’, sobre como os turistas estrangeiros deveriam se comportar no Brasil durante a Copa, foi dito que os brasileiros não têm pontualidade e educação no trânsito. A cartilha, com um texto que tratava de maneira crítica e bem humorada os costumes nacionais, provocou grande alvoroço e revolta nos brasileiros felizes que exigiram a retirada imediata de uma publicação que retratava uma verdade nacional mais do que verdadeira (há aqui a necessidade do pleonasmo!).

 

Está além da compreensão dos brasileiros felizes que a realização da Copa do Mundo no Brasil é muito mais do que um desrespeito, trata-se de um contrassenso, um despropósito, um escárnio. Para pessoas de bom senso é nítida a sensação de que não só a Copa do Mundo, mas tudo é feito hoje no país apenas para montar uma fachada que esconde nossos problemas mais profundos.

 

O sentimento de frustração devido à perda de um campeonato mundial de futebol é compreensível e natural. Mas os brasileiros felizes vão mais além, comentam que ficarão psicologicamente traumatizados, coitados, como ficaram os de 1950 com o Maracanazo, que atingiu em cheio os mais prepotentes. Sempre entendi que um país, um país de verdade, tem lá seu direito a traumas psicológicos quando em ocasiões de catástrofes, terremotos, por exemplo, e outras tragédias naturais que matam e trazem sofrimento. Ou ainda pior, quando das revoluções, das guerras, que dizimam e trazem ainda mais dor. Foge completamente à minha compreensão traumas psicológicos causados por uma derrota no futebol, especialmente na ocasião em que o Brasil vive grave crise de valores éticos e morais, intelectuais e econômicos.

 

Os brasileiros felizes, que vivem em um país de imaginação, têm certamente outros motivos para terem seus traumas. Seu sistema educacional, por exemplo – peço licença por este e outros clichês –, seu sistema de saúde, a aberração dos sistemas executivo, legislativo e judiciário. Estes, sim, certamente traumatizantes.

 

Excluo a possibilidade de um Brasil campeão. Vibraria com a condição de vice, por nova derrota ‘em pleno Maracanã’, por outro ‘Maracanazo’.  Para os brasileiros felizes o segundo lugar será mais doloroso do que qualquer outra classificação, ainda pior do que uma desclassificação prematura. Que eles torçam, porém, vá lá que se frustrem, que se entristeçam com a derrota, nada mais justo. Mas que também reflitam pelo menos uma vez na vida. Um trauma psicológico vai muito mais além do que perder uma Copa do Mundo em seu próprio país.

 

 

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