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O leão é sempre mais forte que o cordeiro

 

Anaximandro de Amorim

 

A escritora capixaba Lacy Ribeiro (1948 - 2013) foi secretária bilíngue, advogada, assessora jurídica e investigadora de polícia. Levou ao lume uma premiada obra de sete livros de exclusiva autoria, sendo em seu último trabalho Paixão de cárcere: romance proibido, romance autobiográfico, de tons extremamente confessionais, que autora e personagem ganham a mesma voz, num texto sui generis com relação à obra da escritora. 

Lacy Fernandes Ribeiro nasceu em Barra de São Francisco, ES. Formada em Direito, teve como uma de suas atividades o ofício de investigadora de polícia, combustível para sua Literatura. Uma das principais características da obra da autora é justamente, abordar o submundo da capital capixaba, onde se instalou por décadas, morando no Centro de Vitória. Eram uma constante em sua temática mendigos, pivetes, prostitutas, travestis, em uma prosa usualmente desconcertante e realista, que denunciava a miséria social, encontrando, ao mesmo tempo, paradoxalmente, alguma poesia nesse universo.

Pode-se periodizar autora e obra como pertencentes à da geração oitentista das Letras Capixabas. Foi uma escritora premiada no Espírito Santo, tendo iniciado sua carreira literária com o livro de poemas Primeiro passo, 1978, vindo, mais tarde, "Contos de réis, 1986, e Avenida República, 1987. Foi também premiada com 1º lugar em concurso do Departamento Estadual de Cultura, publicando, em 1991, os livros Rocks e baladas de Marcos Furtado (romance) e Contos bastardos (contos), ambos pela editora paulistana Massao Ohno. Em 1993, foi agraciada pela Lei Rubem Braga, de Vitória/ES, publicando o infantojuvenil Grades suspensas

Paixão de cárcere: romance proibido vem à luz em 2009, após interregno de 15 anos, também com recursos da Lei Rubem Braga. Trata-se de um romance curto, com 134 páginas mais um apêndice com fotos, de seis páginas. É dividido em 28 pequenos capítulos, com aproximadamente três ou quatro páginas. A trama gira, basicamente, em torno da paixão entre uma policial e um presidiário. Isso, no entanto, não é um mero detalhe, por dois motivos: o primeiro é que tal "romance" fere um "código de ética" entre figuras que estão em lados opostos, o que significa: há uma "quebra de limites", fazendo com que o subtítulo do livro, "romance proibido", não esteja ali por acaso. Segundo, porque o romance em questão é vivenciado pela própria autora que, ao longo dessa mais de cem páginas, abre o coração (e o flanco) e convida o leitor não apenas a conhecer sua história, mas a mergulhar em um universo desconhecido pela maioria de nós: o de uma penitenciária.

Tal estado de coisas é reforçado pela capa do livro: nela, veem-se nitidamente, em primeiro plano, um leão e um cordeiro. Figuras que simbolizam a ferocidade e a inocência, os dois animais estão juntos, dentro de algo que parece uma cela, mostrada em corte. Eles encaram o leitor, como se estivessem prontos para o ataque. Muito bem bolada, a capa resume, pictoricamente, o que o leitor vai descortinar ao longo do texto: a história de uma pessoa que se apaixona perdidamente, candidamente, até, "contra tudo e contra todos" ou, nos dizeres de Amylton de Almeida, citado por Nádia Alcure, autora do prefácio, como um "cenário de sonho", em que Lacy "retorna, com esse cenário de sonho, de uma viagem corajosa, ao obscuro submundo do cárcere".

O livro não possui meias palavras. Nele mesmo, a escritora diz que "breve, estaria apaixonada por um dos meus personagens". E, de fato, a voz do romance é em primeira pessoa, o tempo todo: "Eu não sabia como era o trabalho naquele Presídio, mas meu coração já havia determinado que eu tinha que escolher o Presídio de Argolas. O ímã me puxava com força absoluta" (página 17). A passagem é emblemática: nela, a escritora não apenas introduz a história, mas também tenta provar, para o leitor, que foi levada, ali, por uma "força maior", algo como um "destino". Não há explicações racionais: a "paixão" é a tônica, com toda sua força, no sentido original do termo, de pathos, uma verdadeira doença. Autora e personagem se fundem, a todo momento, num constante oscilar entre romance e autobiografia. É como se a paixão pudesse tudo. Inclusive implodir a fronteira dos gêneros literários.

Para aqueles acostumados com a prosa da autora, Paixão de cárcere: romance proibido surpreende. Em geral, não se encontra a mesma linguagem crua, fria, característica de Lacy. A autora inova em seu próprio estilo. É o que se lê, por exemplo, em: "A cela do meu amor ficava mais no final do longo corredor. (...) O que o meu amor mais temia era a grade-janela da cela, pois ela dava para outro pátio de banho de sol e, se alguns presos quisessem, poderiam arrancá-la e invadir a cela" (página 43). Tudo está lá! Um amor tórrido, que se torna obsessivo ("O amor, a paixão, a admiração e a compaixão, que sentia por ele faziam com que pensasse nele 24 horas por dia. Tudo o que fazia era por ele e para ele", página 32) e, até mesmo, o casamento, talvez, o mais desconcertante capítulo de toda a história, segundo a própria autora ("Contra tudo e contra todos, casamo-nos no Cartório Sarlo, onde aconteceu a solenidade civil, em Vitória, numa sexta-feira à tarde. A festinha foi na Biblioteca, e minhas poucas amigas nos ofereceram um bolo, salgadinhos, champanhe e vinho”, página 63).

Afastada da Literatura e do convívio com os amigos, Lacy Ribeiro se dedicava a sua casa e a seu jardim. Vivia à base de antidepressivos e reclamava da falta de reconhecimento, apesar de um projeto de filmagem de Paixão de cárcere: romance proibido, em Londres. Surpreendentemente, ela escreveu: "Nessa tenebrosa dúvida, sou mais prisioneira do que ele, porque o pânico me ronda, faz a guarda, e não me deixa sair para abrir os braços para o sol" (página 133), antevendo que, nessa "paixão de cárcere", o leão é sempre mais forte que o cordeiro.  

 

 

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