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Aninhanha: uma história de amor sem palavras de amor

 

Karina de Rezende Tavares Fleury

(Mestre em Estudos Literários - UFES)

 

Resumo - Em Aninhanha (1992), de Pedro J. Nunes, o leitor depara-se com uma personagem narradora que, ao contar “consumados casos”, (des)constrói-se como uma “heroína”. Buscando amparo e sustentação na fragilidade de seu corpo, vive e morre, um dia após o outro, reinventando seu corpo como lugar de significado e valor, no discurso poético. Textos crítico-teóricos de Simone Pereira Schmidt e Susana Bornéo Funck nos auxiliarão nesta investigação.

 

Palavras-chave: Feminino. Memória. Palavra.

  

Nossos corpos, nós mesmos; os corpos são mapas de poder e identidade.

 Donna Haraway

  

São vários os estudos, na contemporaneidade, que trazem como tema de discussão / problematização a respeito da identidade.

 

Tratar desse assunto hoje é desvencilhar-se das antigas hierarquias produzidas pelo patriarcalismo, que visava normatizar as relações de diferenças (entre homens e mulheres, negros e brancos, pobres e ricos, etc.), para vislumbrar um mundo em que, postas as normas de lado, valoriza-se a heterogeneidade. Nos tempos pós-modernos, não há uma identidade, mas “identidades”. O sujeito é, pois, portador de “múltiplas identidades”, que podem ser, por exemplo, de gêneros, etnias, sociais e espaciais. Isso quer dizer que o sujeito está sempre se re-significando a partir de diferentes situações.

 

Considerando que, enquanto sujeitos de linguagem, portanto, construídos pelos e nos discursos, estamos inseridos num campo pluridiscursivo, entendemos com Simone Pereira Schmidt, em seu texto “Falar ou falar-se: o corpo no [do] texto pós-moderno”, que é preciso localizar e traçar a identidade destes sujeitos, nos mais variados lugares em que circulam. Para tanto, entendemos ainda que o ponto de partida para esta viagem há de ser o nosso próprio corpo, ou, aqui, mais precisamente, o corpo da mulher, narradora de Aninhanha, romance do capixaba Pedro J. Nunes.

 

Nesse sentido, não nos interessa neste estudo, ao tentarmos captar a condição de ser da personagem “A” ou “Maria Trinta Cruzes” ou “Loucamansa”, tratar o exílio ou a fronteira ou a favela, ainda que “a palafita [seja] a fronteira do mundo. Onde tudo e nada” (p. 91), como resultado de lutas materiais. Nosso olhar está voltado para as formas desejadas/encontradas pela personagem para fazer de seu corpo lugar de significado e valor, reinventando-se a cada linha.

 

Desde as primeiras páginas do romance, fica nítida para o leitor a fragilidade do existir daquela que narra a história que começa a se compor e que confessa “que não há de que se possa apalpar a razão desta vida coberta de brumas e regurgitada com dificuldades pela mente turva” (p. 11).

 

Recém-nascida, fora abandonada por seus pais, prováveis moradores de rua, “sobre um gramado cuidadinho de jardineiro” no meio do lixo e encontrada por Aninhanha, “mãe anônimo-imposta” (p. 88), prostituta e catadora de lixo. Neste mundo de adversidades, o autor cria uma heroína original (inclusive, na praça onde fora depositada “hoje tem lá um monumento a um desses muitos heróis, uma pracinha verdinha, alguma construção caiadinho-bonita que ignora e apaga os antecedentes acontecidos” (p. 15), a única que, em meio a bêbados e prostitutas, busca fugir deste destino quase que certeiro: “Eu lutei bravamente contra o rumo que iam tomando os fatos que compuseram a ferida exposta que sou. É verdade que lancei mão dos recursos de que dispunha e o senhor verá afinal que não são muitos” (p. 13).

 

Cresceu sem conhecer qualquer tipo de demonstração de afeto. “Sozinha trancafiada [no barraco], adquiria poderes, reivindicava necessidade da ampliação gulosa do mundo de fora” (p. 23). Quando Aninhanha passou a levá-la para a lida diária, adquiriu “posição no carroção, posição de um trono de cacos [...] Garrafas. Azul-verde-brancas do homem do depósito” (p. 28- 29).

 

Contudo, a despeito da falta de perspectiva de viver uma vida diferente, ao contrário de sua mãe adotiva, ela gostava de arrumar-se “ao sair para as palafitas ou mesmo para ir ao trabalho do carroção” tudo “a dar-me melhores aparências, femininas transparências” (p. 33).

 

Embora tivesse os olhares dos homens que visitavam Aninhanha, ela era rejeitada pelas outras crianças, suas vizinhas. Também ela reconhece que não conseguia se aproximar daquelas pessoas que “a mim não trariam nenhum sonho nenhum delírio nenhuma fuga” (p. 36). Nada tinham em comum, a não ser a lama.

 

Apesar de não se furtar a pensar em homens, brigava consigo mesma, experimentando sentimentos que vinham numa “mistura de dor e ansiedade o desejo de uma varinha de condão de mudar de Aninhanha o destino de gemer sob os homens impiedosos homens” (p. 36). Mas o desejo ficava sufocado e nenhuma palavra era dita. Ia vivendo assim “a vida de uma nenhuma várias” mulheres. Eis “a metáfora de uma identidade que, desconstruída, busca sua re-significação” (SCHMIDT, 1999, p. 282) num mundo de mulheres fadadas à prostituição.

 

Considerando-se assim única e plural ao mesmo tempo, “A. Eu” (p. 44), tendo como exemplo Aninhanha e as outras mulheres que ali viviam (Ariantônia, Arijoana, Anabarroca), essa heroína põe-se a executar duas tarefas antagônicas: por um lado, escarafunchar o lixo, aquilo que é público; por outro, preservar seu corpo, aquilo que é particular, limpo, puro. Se a primeira, ela realiza como um autômato, a segunda desempenha de forma visceral. 

 

Sem poder contar com a solidariedade das outras mulheres “da vizinhança como se esperassem o meu erro maleficamente, a minha queda no poço lá delas água misturada, água porca” (p. 64), Loucamansa, como a chamavam, traçava seu solitário caminho, uma luta interna dia após dia:

 

Eu e o medo de mim. Movida pelo receio da predestinação medonha que me impunha nas relembranças da grande mulher que avultava sobre o espetado e nos cheiros de colônia de carregação largados no ar lutava intimamente contra os desejos latentes meus íntimos e íntimos.[...] Acendia em mim um fogo que me enlouquecia incendiando. [...] Essas febres misturadas às minhas outras convicções recolhidas na observação solitária desandavam e desembocavam num terceiro desejo, ao de uma existência de alcova legítima assim com que toda mulher sonha na ilusão mal despertada (p. 54).

 

Dedicava horas de seus dias a planejar tais desejos: ter uma casa de chão limpo, um único homem, bom, legítimo, insaciável, um que entendesse sua existência, que somasse mundo a sua existência.

 

Apesar dos poucos, porém violentos contatos que teve com homens, a protagonista deparou-se com um que mudaria o conceito que tinha de homem. Ele era diferente de todos os outros porque não impunha destino às mulheres. Ao contrário, era vítima dele. Como ela, ele era impotente, e talvez por isso mesmo ela o amou: “amei-o de amor desconhecido uma parte de mim o outro lado o avesso” (p. 42). Figura quixotesca na aparência física, o louco transitava pelas palafitas, falando sozinho, sussurros incompreensíveis. Sem ser notada por ele, seguiu-o a fim de desvendar-lhe a história. Viu que ele era posto para fora de sua própria casa pela mulher, que descaradamente recebia outro homem que lhe enchia os bolsos.

 

Esse episódio é o divisor de águas na vida da protagonista: até aqui, ela viveu a descoberta do mundo. “A vida a vida e a vida. O existir apenas existir” (p. 42). No entanto, agora, o que se tem é um espaço aberto pela re-significação dos sujeitos e de seus corpos na ficção de Nunes. Dentro desse espaço, também as relações entre esses sujeitos ganham novos significados. O tema do amor, revisitado, apresenta-se como imagem fantasmagórica: “O homem amei-o de amor desconhecido uma parte de mim o outro lado o avesso” (p. 42).

 

A protagonista reformula ainda seu pensamento inicial sobre o olhar dos homens sobre as mulheres. Para ela, os homens dividiam as mulheres em dois tipos:

 

A mulher do sonho besta que toda mulher tem [...] a legal, legitimada a que esperava de seu e seu o homem toda noite e toda noite o mesmo homem que lhe enfiava filhos entre as pernas [...]. A outra essa outra eu conhecia muito bem: marionetes absurdas dos homens, a de receber homens na dor sem direito ao grito (p. 43).

 

Contudo, depois de presenciar o drama do louco, a quem intimamente chamou de “meu amigo” (p. 47), identificou, atônita, o terceiro tipo de mulher. Trata-se daquela que “era capaz de aviltar o companheiro para entregar-se objeto de prazer de outros homens para cavar na clandestinidade migalhas e migalhas e migalhas [...]” (p. 44).

 

Assim, se o primeiro tipo não passa de “sonho besta” de mulher e o terceiro ela não concebia, pois não se transformaria em objeto por vontade própria, chegou, a infeliz, a “uma convicção miserável e definitiva: eu estava irremediavelmente destinada a ser uma delas [prostitutas]. A. Destinada a um destino contra a concepção dele eu vinha lutando arduamente [...] (p. 44). Exilada em si mesma, todo seu heroísmo parece inútil.

 

Mas o desejo de uma vivência amorosa move a personagem e dá sentido as suas histórias construídas no próprio texto. Nesse embate íntimo entre o entregar-se de vez ao primeiro homem e acabar logo com a agonia e entregar-se a um homem, mas de forma poética, sem ser por dinheiro.

Certa noite, e esta não foi a única, enquanto Aninhanha recebia seus homens, achava a protagonista sozinha no escuro das palafitas, “as mãos no próprio corpo, úmidas da sagrada chaga”, assustou-se com um homem que dela se aproximou. Foi quando recebeu, sem entender muito bem, seu primeiro “masculino abraço”. Assim, entregue às carícias do homem, o fogo ardendo dentro de si, meio sem saber o que fazer, somente teve forças para dele se desvencilhar quando viu diante de seus olhos passar uma legião de mulheres esmolambadas, cacos imprestáveis.

 

A despeito do domínio mórbido de Aninhanha e de seus mal conselhos (“mulher da nossa laia tem mesmo é que aprender o ofício de abrir as pernas”, p. 88), e das outras mulheres (“Loucamansa um dia se torna uma de nós” , p. 94), a heroína “estava decidida a lutar pelas consciências que havia tomado de abraço” (p. 73). Mas a mãe adotiva, agindo às escondidas, não sem que a nossa protagonista pressentisse o perigo que a rondava, vendeu ao dono do depósito de garrafas a virgindade da menina por “trinta moedas de prata” (p. 98).

 

É o fatal arrependimento que toma conta da existência de Aninhanha diante das consequências de seu ato que nos faz relembrar com Schmidt que a concepção socrática de amor “se define como desejo do bem e do belo na existência humana, como aprendizado, como saber, e também como libertação” (1999, p. 285). A morte de Aninhanha, morte de Judas, ajuda-nos a intuir que as certezas, antes tidas como verdades absolutas, mudaram. É o reconhecimento de que outras formas de verdades existem e são legítimas. Esse comportamento nos sugere uma transformação. Grávida de seu estuprador, a narradora de Nunes comete o crime de infanticídio. Parir é extirpar o homem do depósito; é expelir o mal que se encarnou em seu ventre. E mesmo depois de voltar ao túmulo do filho enterrado vivo e não mais encontrá-lo, descrente da justiça dos homens, ela mesma se absolve, jogando por terra qualquer possibilidade de ver a maternidade como sendo algo da ordem no natural.

 

Em Aninhanha, Pedro J. Nunes abre espaço para as micro-histórias em que se apresenta a celebração do humano, passível de ser reinventado em outro lugar em outro tempo, pois como afirma Schmidt, “onde há sujeitos há desejo, interação, movimento” (1999, p. 287).

 


REFERÊNCIAS:

 

CEOTTO, Maria Thereza L. Coelho. Aninhanha e Grande Sertão Veredas que se cruzam. In:  Cadernos de pesquisa, Vitória: DLL/UFES, ano I, n. 1, 1997.

 

FUNCK, Susana Bornéo. Representações da maternidade e da paternidade na literatura feminista contemporânea. In: SILVA, Alcione Leite da; LAGO, Mara Coelho de Souza; RAMOS, Tânia Regina Oliveira (Orgs.). Falas de gênero. Florianópolis: Editora Mulheres, 1999. p. 301- 308.

 

NUNES, Pedro J. Aninhanha. 2ed. Vitória: Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo, 1998.

 

RIBEIRO, Francisco Aurelio. Aninhanha, de Pedro Nunes. Disponível em:

< http://www.tertuliacapixaba.com.br/arquivo/aninhanha_pedrojnunes.htm>. Acesso em: 17 ago. 2010.

 

SCHMIDT, Simone Pereira. Falar ou falar-se: o corpo no [do] texto pós-moderno. In: SILVA, Alcione Leite da; LAGO, Mara Coelho de Souza; RAMOS, Tânia Regina Oliveira (Orgs.). Falas de gênero. Florianópolis: Editora Mulheres, 1999. p. 279- 288.

 

 

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