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Karina, de Virgínia Tamanini

 

Maria Cristina Dadalto

 

Em Karina, Virginia Tamanini retrata a história de vida de milhares de imigrantes italianos da primeira geração que vieram para o Espírito Santo. Ela principia sua história na Itália, em meio ao alvoroço e à excitação provocados pelas promessas de Pietro Tabachi, que propagava “que o ouro lá (no Espírito Santo) é encontrado à flor da terra”.

 

As dúvidas, o medo e o sofrimento compõem, juntamente com o sentimento de esperança e inquietação, o momento ímpar vivido pelos imigrantes na sua escolha de reconstruir uma nova vida. O diálogo entre Karina e a amiga Landa, ao se encontrarem num vagão de terceira classe, completamente abarrotado de gente a caminho do porto, ilustra esse momento: “— Não chore, Landa. Quando se toma uma resolução destas é preciso trancar o coração”.

 

Mas Virginia Tamanini não se atém ao sofrimento, não é este seu objetivo em Karina. O que propõe é algo mais denso e complexo. Em seu romance, narra com intensidade a profundidade do sonho coletivo dos milhares de imigrantes que deixaram sua terra natal, com o propósito de não mais retornar, para reconstruir nova vida na América.

No romance, a heroína Karina tudo faz para conseguir ultrapassar as barreiras de ser um outro, um imigrante, e transformar seus filhos em cidadãos brasileiros. Para conseguir tal proeza utiliza um artifício: guardar seu sentimento, esconder suas lágrimas, rir de si mesma e de todos, superar sua própria rebeldia por um destino tão difícil e se pôr a “enganar a Deus com suas arengas e cantorias”.

 

Facilitavam essa busca psicanalítica pelo reconhecimento e desejo de permanência no Espírito Santo as relações reveladas pela própria Karina em suas mudanças intra-regionais para obter uma vida melhor, de “imigrante para imigrante não havia cerimônia”, tornando a aproximação num primeiro contato um processo mais simplificador.

 

Os indícios do sonho, do processo de mudança, de adaptação e de identificação experenciados pelos italianos são apresentados passo a passo por Virginia Tamanini. Neles também se apresentam os entrelaçamentos entre várias etnias por meio de enlaces parentais, bem como os conflitos entre os personagens residentes no mesmo espaço-tempo naquelas colônias. Em um parágrafo resume todo esse sentimento: “E havia o fenômeno do pobre Benedito, tapanhaúna, criado por uma família de imigrantes italianos. Falava o italiano tão bem quanto eles. Na hora do barulho, entrava sempre ao lado destes; mas, na confusão, apanhava dos imigrantes porque era preto, e apanhava dos brasileiros porque falava italiano e cantava com eles”.

 

Os indícios apresentados em Karina nos possibilitam ainda pensar sobre o processo de formação das cidades de Ibiraçu, Santa Teresa e São Roque do Canaã, do uso inadequado da terra e da falta de tecnologia que esgotaram rapidamente os recursos do solo. São pequenos rastros da formação daquela região e de seus moradores a serem explorados em novos textos.

 


O texto publicado, gentilmente cedido para o site Tertúlia, é um excerto do estudo

"Três olhares sobre a formação do povo capixaba", de Maria Cristina Dadalto.

 

 

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