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A leveza da queda

Jorge Elias Neto 

Aos poucos estão trocando o piso das calçadas de Vitória; novas normas para tornar mais seguro o dia a dia dos pedestres.

 

Podem achar estranho, mas não me atraem calçadas regulares.

 

Os buracos, as irregularidades e os desníveis me servem como camuflagem do relógio do tempo, como um sinal de que mantenho momentos de distanciamento, de contemplação, de ausência.

 

Sei que surpreendo muita gente, mas alguém tinha que tirar proveito do descaso dos gestores de nossa cidade...

 

Para quem não acredita, basta olhar a quantidade de marcas que tenho nas canelas, motivo de chacota dos amigos e do pessoal lá de casa. Não, não é nada disso, não tem nada a ver com masoquismo. A razão é mais nobre...

 

O tropeço súbito tem dupla finalidade, mantém a possibilidade do poema e me permite dissimular a chegada da morte.

 

Ainda não entenderam?

 

Como vou saber, andando por esse piso de ladrilho hidráulico simetricamente disposto pelas ruas, se estou atento demais às praticidades da vida? E outra coisa: depois de treinado, condicionado à mesmice, se, por acaso, por um descuido da fiscalização pública, eu deparar com um buraco e tropeçar e tombar sem me proteger, e  me machucar, e tiver dificuldades para me reerguer, e sentir uma sensação de vazio, de falta de propósito na queda, nesse momento eu saberei que me tornei velho e, pior, que terei deixado para trás, perdida em alguma queda, irrecuperável, a inspiração do último poema.

 

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