PRINCIPAL

LEITURA

 

 

 

 


 

 

Porção invadida

 

Herbert Farias

 

Durante o dia o crachá me encarregava da segurança. De noite eu o punha na gaveta, o olhar da foto encerrado na escuridão, e ia compensar a noite inválida com diálogos falhos. A casa pequena ecoava nulidades. Pelo menos eu não pagava aluguel, e a prestação cabia no orçamento. Despejar as horas diante da rede fazia aumentar a casa, preenchia o formulário da noite, trazia para o ducado franzino das quatro paredes alguns nomes e rostos, corpos e vozes.

 

Foi num brinquedo das telas, num baile de máscaras ociosas, que a conheci. A câmera nos convenceu de um momento intranquilo, marcamos um encontro de entusiasmos. Não foi difícil condensar a trajetória de sorrisos e falas pequenas num projeto de abraço na mesma cama e noite. Fomos para minha casa. Ela era tudo que me bastava no eterno pão e circo de cada dia.

 

No dia seguinte eu vesti o crachá e ela também saiu, ficamos de nos rever em breve. Mas a nota de alerta soou quando voltei do trabalho e me deparei com ela dentro de casa. Agitava num dedo a cópia da chave, um estranho sorriso em cujas frestas eu tentava penetrar com minhas sobrancelhas intrigadas. Estava sentada numa bagagem vasta, que não era de viajante, mas de quem se muda com tudo que tem na vida sem sentido.

 

A bagagem tinha estranhas inscrições, livros sem nada escrito, muita droga e riso desencantado, e troféus de uma jornada oblíqua, como vestidos surrupiados de lojas do shopping que assinava meu crachá. Como num sonho que se atreve a desfilar pela sala, eu movia os lábios, cultivando uma indignação perplexa, mas antes que a expulsasse com toda a sua miséria, ela me oferecia um ombro nu, depois ancas bem dispostas, e passávamos a uma cena de esquecimentos, na cama de torpores, onde toda explosão se despojava em cinzas sem memória.

 

Escreveu o desprezo em minhas paredes, e já havia pouco espaço para eu passar em meio a tanta coisa. Drogas, lingerie, livros sem sentido, enfeites. Agora vivia imersa numa estranha substância que lhe afastara definitivamente a doçura e a graça. Uma expressão submersa por olhares vidrados, e uma fala desiludida de apegos, que eu a deixasse em paz e saísse da sua casa.

 

Voltei do trabalho certo dia, abri a porta e havia uma multidão de ex-nômades: o som alto e múltiplo, de imbricações indecifráveis, embalava a dança de movimentos aleatórios de uma gente ensandecida, semi-humana, crianças de olhos vidrados, velhas seminuas e loucas, rapazes que descarnavam a geladeira e as gavetas em busca de um pedágio conveniente.

 

Manifestei a expulsão, mas ao fingirem remover sua estranha e vasta bagagem da minha casa, consumiam minhas coisas, enfiavam minhas roupas entre seus trastes, assaltavam minhas gavetas e roubavam meu dinheiro, as crianças demoliam os móveis, e quanto mais consumiam e destruíam, menos saíam, mais ficavam, mais numerosos se tornavam, ocupando todos os espaços e impedindo toda e qualquer comunicação e paz. Cabiam em todos os compartimentos, como cupins programados para corroer o pensamento.

 

Outro princípio de dores. Acabo de chegar da rua, o som está impossível, a casa fede a tudo, a água da caixa está esgotada. Trago as garrafas incendiárias que providenciei durante o dia, em vez de trabalhar. Eu sabia que seria demitido, por não entenderem minha necessidade de concentração, e trouxe as minhas armas de encarregado de segurança. Assino meu nome numa gargalhada ao constatar que não destruíram as grades das janelas. Bloqueei a porta dos fundos por fora, com os galhos e o tronco da goiabeira que os malditos moleques saídos do inferno derrubaram no quintal. A porta da frente eu bloqueei com o corpo, enquanto atirava para dentro as garrafas e via o fogo purificar a cena. Assinalei com buracos quem tentou sair com a roupa em chamas, trovejando a resposta adiada. A casa, que já então não valia nada, virou fumaça e fuligem, e o fogo torrava a aparição de descendentes do satanás demasiado humano daquela indigência parasita. Minha sandice final seria ver queimar a amante que antes eu desejaria em todas as camas do mundo. Mas no meio daquele pandemônio de carne queimada era impossível reconhecê-la. Nunca tive a prova de sua morte.

 

Minha família não vem me visitar, estão todos convencidos de que sou um monstro, um sociopata extremamente perigoso. Meu advogado não conseguiu me soltar. O promotor do caso pediu a pena máxima. Hoje é domingo, dia de visita íntima, e ela virá, tenho certeza. Tem queimaduras no corpo inteiro, seu rosto destroçado não pede perdão. Perdeu um braço. Sorri com boca medonha, olhos virados. Pergunto pelos outros. Ela ri, monstruosa e cínica. Eu me junto a suas gargalhadas, entre as paredes tristes do nosso veredito. 

 

 

Clique aqui para acessar o índice e ler outros textos

 

VOLTAR


     © 2005 Tertúlia

     Direitos reservados

Site de utilidade pública, sem fins lucrativos