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O grupo

 

Herbert Farias

 

Eu não fazia nada além de marchar minha canção de bandeira de festa, de dançar à frente daquela fila indiana, atravessando os charcos e varando as florestas, entrando no deserto e passando além dos oásis, entrando nas aldeias e evitando as palhoças. No máximo a água na porta da vivenda, o sustento oferecido era comido no alpendre, na rua em frente, entre risos e piadas obscenas, uma alegria profana.

 

Agradecíamos e voltávamos ao degredo de boa vontade, e a liderança nem era minha todo o tempo, a bandeira passava de mão em mão, era brinquedo e não troféu, não queríamos que durasse na mão de um de outro. Quando nos cansávamos da cor da bandeira, rasgávamos, queimávamos o pano, antes que virasse símbolo, atirávamos o pau longe dos gatos, no abismo onde não passava ninguém. Em alguma aldeia do caminho apanhávamos no lixo algum trapo mofado, depreciado até pela pobreza, e uma ripa mal vinda ao mundo das obras, e eis nova bandeira, e a marcha sem dentros, só foras, as paredes internas de todas as moradas desconhecidas de nós.

 

Não me lembro do nome dele, era um dos novatos. Passamos por uma vila mais robusta e ele decidiu entrar numa vivenda e aceitar sua oferta de música, uma estranha cantiga diferente das nossas, inventadas na cadência dos passos. E de lá não saiu, e o chamamos em vão. Continuamos, pé ante pé, no caminho sem marcos nem porteiras, um tanto incomodados com aquela deserção, mas avessos ao interior de todas as instâncias, meditamos ser aquele um fora necessário ao degredo que seguia em nós e por nós.

 

Mas, dias adiante, foram dois os doravante ausentes, capitulara, dessa vez, atraídos pela comida de sabor cada mais profundo à medida que se ficava, e tanto mais saborosa quanto mais tempo se passava diante da mesa.

 

Não tardou que percebêssemos que o grupo diminuía, tragado pouco a pouco pelas portas e tetos, sem seguidores-líderes que viessem ao nosso encontro para o canto e a dança, para reinventarmos piadas descontadas da história. Quando o número de marchantes era tal que nos cansávamos de nossos nomes e rostos, já apostávamos quantos ficariam na aldeia seguinte. Era inútil querer evitá-las, pois até nas matas se podia perder um rosto para alguma caverna confortável.

 

Restamos nós dois, o mais antigo e eu, e os passos já eram lentos, e as músicas silenciavam, e as piadas se repetiam como farsas. Por orgulho ou por sermos velhos demais para o convite de alguma aldeia, insuportáveis demais até para nós mesmos, continuamos naquela trilha sem mapa, em silêncio quase absoluto, esperando que alguma doença ou calamidade levasse o vizinho e expusesse o sobrevivente à solidão de uma campanha tão bem iniciada como brinquedo.

 

Esta noite acampamos ao relento, a pequena distância do despenhadeiro. Nem dormimos direito, desconfiados do companheiro. Tive sonhos proféticos, de reinício, de um novo grupo iniciado a partir de um só, de outra esperança brincalhona de viver sem construir e sem perder. Pela manhã, eu me levantei sem alarde, sem ânimo, uma história longa demais para esquecer. Desci rumo à planície extensa, mudo e decidido ao silêncio. O companheiro sepultado ficara para o governo das pedras. Por sonhar menos, dormira mais do que eu.

 

 

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