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LEITURA

 

 

 

 


 

 

Inês

 

Getúlio Pereira Neves

 

I

 

Não sei. Foi ela quem me disse de início. Mas – penso - como assim? Preciso dela para me dizer? É preciso alguém para me dizer?

 

Imagens são imagens. Sejam imóveis, numa tela, emolduradas em jaspe, sejam em movimento iluminado, num ecrã de cinemateca qualquer. A mente pode devanear: no devaneio, vive. No devaneio é que vive, é que vivemos, porque a consciência, em si, é cinzenta, enquanto todos nós esperamos uma vida a cores. Plena. Sensacional. Sensorial.

 

Inês era a mulher que me disse, ali ao início. E disse como se dissesse a um qualquer, que eu não era. Aliás, nunca fui, e ela me deve isto. O não ter sido qualquer. Não o contrário. Inês me deve. Cínica, mas não vem ao caso. Não por hora, que não acrescentaria nada. Não vem ao caso, por hora.

 

Enganchei-me nela. Sabe, enganchar-se? Oniricamente, quase. Inês era. E só. Sempre esperei que viesse a ser – quem viesse a ser. E veio ela, e foi. E assim ficou, como uma imagem na retina, que retém imagens, que nos retêm com elas.

 

Porque acredito que olhar é nos transbordarmos para dentro. Confundirmo-nos com pinceladas, com pixels – o que for, da tela, do ecrã. E se formos, e se transbordarmo-nos para dentro, fica fundada nova individualidade, da fusão retina/imagem, que acabam por desincompatibilizar-se de seus recipientes e se fundir: objeto no suporte, para fundar algo novo. A nova imagem apreendida, a que retemos. Sensorialmente. Nervo ótico – sei lá – e cérebro. A representação sensorial do real. Que passa a sê-lo, porque está representado em nós.

 

E Inês? Sempre me acha maçante, acho que por isto mesmo. Por acima. Devaneios, imagens, metáforas. Inês é carne. É sangue. É sexo, como a percebo. Não se contenta em ser para mim uma imagem retida na retina, ou num qualquer córtex dos tantos compartimentos cerebrais. Mulher.

 

O problema. Córtex, sexo. Inês é a representação perfeita do sexo. Do que é, e cheira, e sente. Uma mulher. Belíssima, renascentista, pálida, quase diáfana, meio à álvares de azevedo. Mas a percebo numa tela, ou num ecrã. Depende do dia, da hora, depende de como a olho, e como olha de volta para mim. Porque as obras de arte nos olham de volta e nos retêm no seu suporte. Quantos olhos, amigo, não estarão retidos na Mona Lisa? Cativos? Ali-fundidos?

 

Novamente devaneio. E chego ao fim da contemplação e desenfreado me lembro de algo. Inês é, para mim, para sempre. Porque a vejo, e a vendo, a retenho, e a conservo. E assim é minha, e para sempre. O destino das obras de arte, parte inconsútil de quem as contempla. Como Inês, na minha sala, em moldura de jaspe, como num maravilhoso ecrã quase-líquido de sua presença, e verdadeira. Acima de tudo.

 

II

 

Já ouvistes uma tela? Eu ouço Inês. Porque me sento à sua frente – sabes, como quando nas Janelas Verdes sentamo-nos de frente para as “Tentações de Santo Antão”, e nos quedamos fitando cada uma das figuras de um sonho terrível de Bosch, e a nos perguntarmos porque – e elas gritam, alto, balbúrdia, desarrumação? Quando no Reyna Sophia, e a percorrermos corredores, devagar, embebendo-nos de arte, nos deparamos, num enorme recanto, inesperado, com “Guernica”? Tira-nos o fôlego, é certo. Mas os ouves aos gritos? De morte? De retorcerem-se todas figuras no painel?

 

É bem o contrário das ninfeias de Monet, cuja visão nos inunda de luz. Ou dos girassóis de Van Gogh, de quem meu pai um dia me disse ser a paleta “mais rica que a natureza”.

 

Enfim. Eu a ouço, Inês, num córtex cerebral qualquer. Sentado à frente eu a fito, e ela me fita, e assim retido nela a ouço, meu cérebro acusa, e registra. E então devaneio.      

 

Que ouço, Inês, eu em si? Ouço tons de Boticelli, sim, na paleta e no diapasão do meu cérebro, que ressoa na frequência da sua profusão de cores. Não como as cores de Van Gogh: como as suas, puras, próprias, suas cores, que me embotam a vista toda noite ao fitá-la, sentado à frente, ouvindo-a nos tons que me passa, e me faz percebê-la em todas suas nuanças. A percepção da obra de arte é múltipla, e trans.

 

Já ouvistes uma tela? Eu a ouço. E assim minha experiência de Inês é múltipla e trans, e a retenho e a transponho então para um campo novo de percepção – uma nova dimensão. Outro córtex cerebral, sei lá, mas a transponho. Uma como que transubstanciação, poderosa e maravilhada, de minha percepção de si, que ao final não sei distinguir muito bem. Uma mulher é uma obra de arte, Inês é ambas. E verdadeira.

 

III

 

Como se começasse blues – poderoso, vigoroso, sincopado – e terminasse jazz, simetricamente harmônico, mesmo que dissonante, mesmo que diatônico, ou atonal. A experiência de si, Inês, é blues quando ainda a distingo, e assim que minha percepção se altera e a transponho, diáfana, a novo páramo mental, a harmonia de súbito se pincela de tons de jazz, um jazz como Sheik Yearbouti, de Zappa, mas sem sintetizadores – aliás como Queen. O que era - no synthesizers!

 

Não sei que sinto ouvindo Wagner. Embota-me também da mesma forma, a tempestade de sons preenche. Todos os espaços sonoros. Como numa cavalgada, as ondas sonoras wagnerianas rolam cascateantes das nuvens. Em cascatas, as Valquírias as cavalgam. E Inês bem pode ser uma delas. Sim, uma das Valquírias, a que me veio buscar, exaurido, derrotado da contemplação. Pode ser isto, a que me leva. E o Valhala pode estar aqui na minha sala, à frente.

 

Uma imagem, num outro páramo mental, um outro córtex cerebral. Outro eu, o dela, o que ela retém, mantém cativo dos contrastes de seus contornos, que efluem de entre a moldura de jaspe, ou dos pixels do luminoso ecrã. Da imagem luminosa de Inês, que percebo vigorosa e sincopada em seu movimento mudo, simetricamente harmônica nos seus contornos, intensa e escorregadia no preencher as ondas sonoras da minha percepção.  

 

IV

 

De todos os sentidos prezo a consciência. Que o é. Não uma condição de percepção, mas a destinatária de todo o processo. Apreensão consciente se faz como um todo, não por sentidos isolados. Inês sabe. Fala comigo, me disse. Tenho consciência do que ela sabe, apreendo o que ela diz, embora não precise ouvi-la. Ouço-a com os olhos, sinto-a. E sinto-o, sinto que a apreendo. É tudo? Não, estou consciente dela. Cada dia. A cada passo.

 

Inês é minha, mas parece não saber. Ou não se importar. Porque ela existe, sem mim. Para mim, para que eu a tenha, só existe porque a percebo, porque a apreendo com os sentidos, com a consciência, retenho sua imagem. E sei, porque sinto, que sua imagem é sonora, sensorial, impressiona-me. Mas ela existe sem mim, e isso parece bastar-lhe.

 

Que mais posso eu querer dela? Eu a tenho, já disse. Na minha consciência, a sua essência apreendida, com plenitude. Sensorial. Ideal, após elucubrá-la, no passo seguinte. Para retê-la também em sua plenitude, gloriosa como uma obra de arte, que toda mulher é. Como Inês.       

 

V

 

Inês lembra-me a homônima. Rainha de Portugal. Dona Inês de Castro. Lembra o bardo, “a que depois de morta foi rainha”?

 

Pois nem todo leitor sabe de Inês de Portugal. Mas na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, conserva-se há tanto tempo, de outras eras, num seixo de rio, no limo da semi-eternidade, ainda se conservam ali as gotas de sangue, o sangue vertido pela bela Inês. Como paga de seu amor indevido, sacrificada às altas razões de Estado do Reino de Portugal.

 

Essa Inês foi vingada. Todos conselheiros de Afonso V, todos responsáveis por tal mau conselho, os que a sangraram a lâmina, deixando verter seu sangue sobre o limo dos seixos, pagaram caro o abominável. Pedro, futuro rei, o Cru, de Portugal, implacável. Pedro a vingou, decapitou-os a todos. Depois de morta fê-la rainha, senhora do seu Reino.

 

E fez transportá-la num cortejo imenso, por quase metade do Reino, para sepultá-la, no mosteiro que fez levantar para ela. Jazem juntos, celebrando seu amor na eternidade. O Rei e a Rainha de Portugal. Dona Inês de Castro. 

 

VI

 

Inês precede-me. Sim, no espaço. Dona Inês, é minha dona, tem-me, retêm-me, em si, junto de si. Confundimo-nos no olhar, o portal por onde transbordamo-nos e fundimo-nos, nos córtex de ambos.

 

Porque a obra de arte cativa-nos e retêm-nos, e somos nós ali-fundidos, assim como a imagem que temos dela. Em seus olhos. Penetramos-lhes pelos poros, confundimo-nos nos pixels/pinceladas, só para estarmos ali, e é uma troca que fazemos. Nós por ela, o prazer estético. A sintonia plena, quando a atinjo ao contemplá-la, é o prazer estético. Não dos dândis britânicos. Um prazer estético viril, sintético, porque sintônico. Uma fusão, enfim. Como dito. Em algum lugar da consciência, impressionada pela percepção. Pelo sensorial, o alegórico do real. De si.

 

Inês é minha. Inês é, e isso é quanto me basta.

 

 

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