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PRINCIPAL

LEITURA

     

 


A literatura do Espírito Santo:

uma marginalidade periférica

 

Francisco Aurélio Ribeiro

 

 

 

I’m nobody! Who are you?

Are you nobody, too?

Then, there’s a pair of us. Don’t tell!

They’d banished, you know?

                     Emily Dickinson

 

Cada cultura prolifera em suas margens. Produzem-se irrupções, que designamos como “criações” relativamente a estagnações. Bolhas saltando do pântano, milhares de sóis explodindo e se apagando na superfície da sociedade. No imaginário oficial, elas figuram como exceções ou marginalismos.

                     (Michel de Certeau, A cultura no plural)

 

 

Apresentação

 

Em 1992, fui convidado pela Srª. Diretora da Divisão de Memória do DEC, Alcione Dias, através do historiador Luciano Venturim, para escrever uma “História da Literatura do Espírito Santo”, destinada a compor a coleção Tempo/Memória, a ser coordenada por aquele setor.

 

Aceitei o convite e apresentei, em 17/02/92, uma proposta em que tencionava estudar a Literatura do Espírito Santo, pelo método tradicional: uma visão diacrônica em que percorreria os principais momentos estilísticos, do século XVI ao XX.

 

Acontece que, no primeiro capítulo, tencionava discutir a existência de uma Literatura Capixaba. Essa indagação acabou sendo o principal motivo do trabalho, visto que acabei caindo na busca de uma identidade do capixaba através de sua literatura e seu registro na história. Percebi que a principal marca da Literatura do Espírito Santo é a marginalidade, visto que sempre estivemos à margem do poder no Brasil. Seja geograficamente, pois os centros de poder se deslocaram, historicamente, à nossa volta, seja culturalmente, visto que a cultura capixaba sempre buscava um modelo, espelho provinciano a refletir o que enxergava nas matrizes.

 

A partir do final dos anos 70 e início dos anos 80 deste século, o Espírito Santo se transforma, industrializa-se, incha-se de gente e fábricas. A sociedade capixaba urbaniza-se, passa por violenta transformação e isso se reflete, sobremaneira, na produção cultural do Estado, sendo a Literatura um dos principais veículos dessa transformação. O papel da Universidade Federal do Espírito Santo e dos órgãos estaduais de cultura (DEC) e da Prefeitura Municipal de Vitória, através da Lei Rubem Braga, é vital nos anos noventa.

 

Em torno do conceito de “marginalidade”, acabou girando todo este trabalho de três anos. Procurei dar uma visão histórica do Espírito Santo e sua literatura, no Cap. I. Nos seguintes, tracei um painel da literatura feita por mulheres, do discurso homossexual, da visão do negro, do índio e do pobre, na Literatura do Espírito Santo. Na última parte procurei historiar a literatura feita para crianças e jovens no Espírito Santo, desde a sua origem. Espero ter alcançado os objetivos que o DEC pretendia quando me desafiou para essa tarefa. Sei, todavia, que é apenas uma introdução a um estudo que deve ser continuado. Por mim ou por outros.

 

 

A Literatura do Espírito Santo: uma marginalidade periférica

 

Introdução

 

Com seus 45.597 Km2 de extensão, o Estado do Espírito Santo representa apenas 0,54% do território brasileiro, apesar de ter nascido grande, com as 50 léguas doadas pelo rei D. João III a Vasco Fernandes Coutinho, seu primeiro donatário, em 1534.

 

Com a descoberta de ouro nas Minas Gerais, no final do século XVII, o Espírito Santo tomou-se, por decreto real, uma barreira natural, e Vitória uma fortaleza, para proteger a riqueza mineral descoberta a Oeste. O engrandecimento das "minas gerais" teve como consequência o esvaziamento do Espírito Santo, nele restando cerca de cinco mil almas, que não podiam seguir a febre do ouro: mulheres, crianças, soldados, escravos, padres e funcionários públicos.

 

Em 1720, Minas tomou-se capitania, tendo por capital Vila Rica, mais tarde Ouro Preto, que se tornou o centro econômico e, consequentemente literário, do Brasil-colônia. Embora a capital do Brasil ainda permanecesse em Salvador, até 1808, com a chegada da família real, Vila Rica tornou-se, na verdade, o centro político-econômico-cultural do país, no século XVIII. A partir do século XIX, com a vinda da família real, em 1808, o Rio de Janeiro torna-se a capital do reino do Brasil, Portugal e Algarve. No século XX, com a industrialização, a vinda dos imigrantes europeus e asiáticos e a cultura cafeeira, São Paulo torna-se o centro econômico, cultural e político do Brasil.

 

O Espírito Santo, embora pertença à região mais rica do Brasil, a Sudeste, sempre foi o primo pobre dos seus poderosos vizinhos. A partir do século XVII, o movimento barroco floresceu na Bahia: Vieira e Gregório de Matos foram seus mais legítimos representantes. O Arcadismo eclodiu em Vila Rica, com os inconfidentes, no século XVIII: Cláudio M. da Costa e Tomás A. Gonzaga consagraram este estilo, no Brasil; o século XIX viu surgir o Romantismo, no Rio de Janeiro, com seu nacionalismo colado aos ideais da Independência, e o Realismo, no final do século, bem próximo aos ideais republicanos. Alencar e Machado de Assis foram os próceres desses estilos. São Paulo deu o clima e o contexto para surgir o Modernismo, no séc. XX, oficialmente a partir de 1922, liderado por Mário e Oswald de Andrade.

 

E no Espírito Santo o que ocorreu em todas essas épocas? Literariamente, muito pouco. Nosso estado sempre viveu à margem desses centros, na periferia do poder político-econômico e cultural brasileiro, entre brigas de "peroás" e "caramurus". Como teria sido a literatura produzida no Espírito Santo, ou por capixabas, naquelas épocas? Aderiram os escritores às transformações estéticas ocorridas nas diferentes épocas ou permaneceram enclausurados em suas torres de marfim, escrevendo poemas narcísicos ou laudatórios aos governantes, dramalhões históricos, regionalistas e provincianos? Para onde fitavam os olhos dos escritores capixabas de então? Para Portugal/Europa e suas sumacas raramente surgidas no horizonte marinho? Para os centros de poder, no Brasil? Ou para seus próprios umbigos? Seria a literatura feita nestes quase cinco séculos, no Espírito Santo, uma cópia, pastiche ou reprodução acrítica de modelos estrangeiros ou nem sequer existiu? Averiguemos, pois.

 

 

A literatura do séc. XVI: a presença de viajantes e jesuítas

 

A literatura sobre o Brasil inicia-se com a carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em Porto Seguro (BA) em de maio de 1500. Esta tem um valor histórico documental como registro da memória do nascimento de um país, e algum valor literário, pois que nos fala de uma visão de mundo, um tipo humanista da renascença portuguesa, produto direto de uma cultura ainda incompleta, já que aberta a possíveis encontros.

A Carta de Caminha é o modelo primeiro e mais preciso de conceitos que se tornarão constantes nas outras narrativas testemunhais que se seguiriam, naquele século e nos seguintes, e que formariam uma mitologia cultural do Brasil e do brasileiro: "paraíso terreal", "mundo novo", "bom selvagem".

 

Uma marca constante na literatura sobre o Brasil iniciada pela Carta de Caminha é a visão idílica do paraíso refletida na descrição da maravilhosa fertilidade do solo, na docilidade de seus habitantes, a quem se deveria catequizar para dominar. A ambição das riquezas, sobretudo o ouro, mascarava-se sob o "levar a fé cristã aos gentios".

 

Nos trinta primeiros anos da descoberta, o Brasil ficou em segundo plano junto aos portugueses. Suas prioridades foram as viagens asiáticas e as costas da África. No Brasil só lhes interessavam o pau-brasil, a primeira riqueza a ser devastada, e os papagaios, pelo exotismo e a beleza. Somente em 1532 começa de fato a posse portuguesa do Brasil, com a colonização. Em 23 de maio de 1535, Vasco Fernandes Coutinho aporta a sua caravela "Glória", trazendo 60 pessoas, na região onde fundaria a vila do Espírito Santo, que se tornaria a freguesia mais antiga do Brasil ao sul da Bahia. (1)

 

Em 1540, a Capitania do Espírito Santo prosperava com alguns engenhos de açúcar, não se contentando com a simples exploração do pau-brasil. Com o aparecimento das primeiras riquezas, a corte começou a nomear seus funcionários: em 1546, vieram Belchior Correia, para escrivão da Câmara, e Rui Fernando, para provedor e contador das rendas e direitos da capitania. Dez anos após a vinda de Coutinho, 1545, foi instituída a freguesia do Espírito Santo, com a vinda de um capelão. Em 1550, dois escravos (índios) foram remetidos para o Reino como parte do ordenado do vigário da Capitania do Espírito Santo. (2)

 

A vila de Nossa Senhora de Vitória foi fundada na ilha antes chamada Duarte de Lemos, no alto da colina, onde os jesuítas, vindos com Tomé de Souza, em 1549, estabeleceram sua residência. Dois eram os principais inimigos: os índios, por trás, e os invasores vindos pelo mar. Tomé de Souza pôde constatar que o Espírito Santo, pela posição privilegiada, terras, águas e clima, era a melhor capitania: no entanto, era também a mais arruinada.

 

Leonardo Nunes foi o primeiro jesuíta a doutrinar os índios escravos, em 1549, seguido pelo padre Pero de Souto, Afonso Brás e Simão Gonçalves. Este apregoava ser a terra do Espírito Santo "a melhor e a mais fértil de todo o Brasil". (3)

 

Os jesuítas, liderados por Padre Manoel da Nóbrega, foram os iniciadores da literatura brasileira. Nóbrega, com o seu Diálogo sobre a conversão do gentio, escrito em 1557, numa forma literária clássica, inicia a literatura brasileira, ainda que nela predominasse um interesse catequético, religioso ou informativo. Como superior dos jesuítas, Nóbrega visitou o Espírito Santo, deixando suas impressões: "E partiu, visitando algumas capitanias da costa até chegar ao Espírito Santo, capitania de Vasco Fernandes Coutinho, onde achou uma pouca de gente em grande perigo de serem comidos dos índios e tomados dos Franceses (...). Esta capitania se tem por a melhor cousa do Brasil depois do Rio de Janeiro: nela temos uma casa, onde se faz fruito com Cristãos e com escravos, e com uma geração de índios, que ali está que se chamam do Gato, que aí mandou vir Vasco Fernandes do Rio de Janeiro; entendeu-se também com alguns Tupiniquins, e se Nosso Senhor der tão boa mão ao Governador à tornada como lhe deu em todas as outras partes, que as ponha a todos em sujeição e obediência, poder-se-á fazer muito fruito, porque este é o melhor meio que pode haver para a sua conversão". (4)

No entanto, foi o Padre José de Anchieta (1534-1597), vindo em 1553, com o segundo governador-geral Duarte da Costa, quem com suas produções em português, espanhol e tupi-guarani inaugurou a literatura brasileira no Espírito Santo. Nesta capitania, onde passou os últimos anos de sua vida, estrearam oito das doze peças teatrais que escreveu, os autos, com fins catequéticos. Tendo como cenário a Vila de Vitória, compôs os seguintes poemas: "De São Maurício" (antigo padroeiro da cidade), "Ao Padre Costa" (superior da casa do Espírito Santo), "Quando, no Espírito Santo, se recebeu uma relíquia das onze mil virgens" (em que assim se refere à atual capital do estado: "Da Senhora da Vitória, / Vitória sou nomeada. / E, pois sou de vós amada, / d'onze mil virgens na glória / espero ser coroada.") (5), "Ao p. Bartolomeu Simões Pereira", dentre outras.

 

Uma das mais longas peças teatrais de Anchieta, escrita em tupi, de 1589 a 1594, é "Na aldeia de Guaraparim". Nela fornece dados etnográficos, sociais e antropológicos, como o comportamento dos casais, a adoção de muitos nomes, à moda indígena, além de indicações geográficas de aldeias não conhecidas na documentação da época. Curioso é o relato que faz das crianças indígenas, que assaltam os incautos jesuítas: "De Reritiba, minha terra eu venho. / A todos os meus amiguinhos / eu disse que vinha celebrar / este grande dia santo. / Trouxe estas ostras / com elas te podes banquetear. / No caminho, os meninos / me assaltaram, / para comê-las todos de mim. / Em todo o caso, tirei estas / dos malvados e corri. / Tomara que hoje não haja brigas comigo ". (6)

 

Reritiba, atual Anchieta, Guarapari e Vitória foram antigas referências para as peças compostas por Anchieta, assim como por seus poemas escritos à Virgem. Baseado, ainda, na tradição medieval, com a feitura dos seus versos em redondilhas populares e seus autos de fundo catequético, Anchieta foi o introdutor, em terras brasileiras e capixabas, da tradição literária ibérica. Sua obra possui valor literário, ainda que marcada pela intenção moralizante, e constitui as nossas raízes literárias. Anchieta pode ser considerado o primeiro poeta capixaba, como o fez Elmo Elton em sua antologia. (7)

 

A literatura informativa sobre o Brasil sempre faz referências ao Espírito Santo e à excelência de suas terras e à fertilidade de suas produções. Pero de Magalhães Gandavo, em seu Tratado da terra do Brasil, de 1570, no cap. VII, descreve a Capitania do Espírito Santo, o melhor açúcar do Brasil produzido em seu único engenho e a abundância de rios, peixes e mantimentos. Em História da Província Santa Cruz, de 1576, afirma: "E assim é esta a mais fértil Capitania, e melhor provida de todos os mantimentos da terra que entre algumas que haja na costa". (8)

Fernão Cardim, em sua "Narrativa epistolar de uma viagem em missão jesuítica da Bahia a São Vicente", de 1583 a 1590, indo por visitador o pe. Cristóvão de Gouveia, faz um dos mais completos e pitorescos retratos do Brasil.

 

Gabriel Soares de Souza publica, em 1587, seu Tratado descritivo do Brasil, talvez a obra mais admirável do século XVI, na opinião de Varnhagen. Produto do próprio exame, observação e pensar, com um caráter enciclopédico, nela se encontram preciosos dados para a compreensão do início da formação da terra e do povo brasileiro.

 

Literatura informativa ou documental, catequética ou religiosa, em prosa ou verso, carta, diálogo ou auto, a literatura do século XVI alicerça a base da literatura brasileira verdadeiramente iniciada com o Barroco, no séc. XVII. Sobretudo a literatura jesuítica reflete as contradições de sua cultura terminal, ainda na Idade Média, hostil ao negro e sem respeitar as tendências naturais do índio brasileiro, obstinada em sujeitar homens de cultura paleolítica a um ensino altamente acadêmico.

 

Todavia, os textos que nos legaram os escritores jesuítas do século XVI e os viajantes que escreveram sobre a terra recém descoberta refletem a colonização portuguesa, capaz de defender-se contra poderosas economias europeias da época. Preocupados em contestar o tipo de sociedade que se formava nos trópicos, calcados na superioridade branca e escravocrata, os jesuítas falharam em seus propósitos de criar um estado religioso, mas deixaram toda uma história para ser lida e contada.

 

O Espírito Santo, pela sua privilegiada posição geográfica no mapa brasileiro, exuberância tropical, clima temperado, abundância de rios e peixes, terras férteis, foi o cenário ideal das lutas pela conquista da terra, de seus habitantes originais e de suas riquezas. No século seguinte, com a descoberta de ouro nas Minas Gerais, acentua-se a decadência do Espírito Santo, já iniciada com o fracasso de Vasco Coutinho e seus descendentes.

 

Os principais textos da literatura brasileira do século XVI, escritos no/ou sobre o Brasil, referiram-se ao Espírito Santo. Apesar da previsão de Gandavo de que o Espírito Santo seria uma das principais províncias do Brasil, tal fato não se confirmou. Durante 400 anos, nosso estado viveu à margem dos centros e sua literatura, pobre e insignificante, apenas reflete essa marginalidade periférica.

 

 

O Barroco e Arcadismo que não houve: os séculos XVII e XVIII

 

A passagem do século teve, no Espírito Santo, a primeira mulher governadora de Província no Brasil, Dª Luiza Grimaldi (ou Grinalda), esposa de Vasco Fernandes Coutinho Filho, e que enfrentou tentativa de invasão de ingleses, em 1592, e apoiou a chegada dos frades franciscanos. Deixou o governo para Francisco de Aguiar Coutinho, o último representante da família a dirigir pessoalmente o Espírito Santo.

 

A Capitania do Espírito Santo entra em total decadência, tendo sofrido ataque dos franceses e holandeses, estes em 1625 e 1640. O principal trabalho desse século foi o dos jesuítas e franciscanos, em suas catequeses, e as aventuras dos bandeirantes em suas constantes expedições ao sertão em busca de indígenas para escravizar, e do cobiçado ouro e pedras preciosas.

 

O Governo Geral do Brasil estava sediado na Bahia, em Salvador. No início do século XVII, o governador-geral, D. Francisco de Souza, esteve no Espírito Santo, empenhado em fomentar novas expedições ou jornadas ao sertão. Ele mesmo dirigiu uma expedição ao cume do Mestre Álvaro, maciço em que, segundo frei Vicente do Salvador, havia vestígios de prata e onde foram encontradas algumas esmeraldas. No século XX o escritor Adelpho Poli Monjardim romancearia tais aventuras.

 

Preocupado com a fama das riquezas que, enfim, estavam sendo descobertas no Brasil, o governador-geral mandou erguer fortins em toda a costa, inclusive um, em Vitória. Com o domínio espanhol sobre os portugueses, agravou-se, na colônia, a hostilidade aos estrangeiros. Vitória tornou-se uma fortaleza e seus habitantes renhidos defensores da colonização portuguesa.

 

Tornou-se lenda capixaba a história de Maria Ortiz, que, junto com outras mulheres, defendeu a Vila de Vitória de um ataque holandês em 14 de maio de 1625, despejando tachos de água fervente sobre os invasores. Tal lenda foi recriada, parodisticamente, pela obra A panelinha de breu, de Maria Bernadette C. de Lyra, em romance publicado pela Ed. Estação Liberdade em 1992.

 

A luta contra os invasores e o sonho com as riquezas, encobertos pelo ideal da fé e da crença religiosa, parecem ter sido as principais ocupações dos primeiros brasileiros. Nenhum registro cultural ficou desses primeiros séculos no Espírito Santo.

 

Afonso Cláudio, na Introdução à sua História da literatura espírito-santense, assim afirmou: "Não admira, pois, que as capitanias colonizadas por esse modo, nenhum processo assinalável mostraram na esfera intelectual e literária, convindo aditar que em algumas delas, o incipiente desenvolvimento espiritual data do começo do século passado: tal é o caso do Espírito Santo". Em nota de pé de página, o mesmo autor registra, no entanto, que mesmo a métropole (Lisboa) não tinha representantes, na época, com relação à ciência, filosofia, teatro, romance e artes em geral: "Imagine-se a situação da colônia portuguesa na América entregue às mãos grosseiras e ignóbeis dos donatários e capitães-mores!" (9)

No entanto, isso não era absoluta verdade. Em Salvador, primeira capital do Brasil, os jesuítas desenvolveram uma vida cultural em que se distinguiram, na historiografia, Frei Vicente do Salvador; na prosa literária, Gabriel Soares de Souza, Antônio Fernandes Brandão e pe. Antônio Vieira, e na poesia, Bento Teixeira Pinto e Gregório de Matos Guerra. Incipiente, na verdade, mas não muito diferente de Lisboa, era a vida cultural na Salvador do século XVII.

Com o estabelecimento do Governo Geral do Brasil, na Bahia, em 1549, Salvador tornou-se o centro político, econômico e cultural do Brasil Colônia. As primeiras manifestações literárias, após a literatura informativa e catequética dos jesuítas do século XVI, constituíram a estética do Barroco que vai de 1601, publicação do poema épico Prosopopeia, de Bento Teixeira Pinto, até 1768, com reflexos diretos das manifestações literárias ibéricas.

O movimento barroco, no Brasil, refletiu-se na poesia - épica, lírica, satírica, encomiástica - através das obras de Bento Teixeira, Manoel Botelho de Oliveira, Gregório de Matos Guerra, Frei Manoel de Santa Maria Itaparica, com incipientes manifestações de teatro em verso, de assunto religioso e profano, sob a influência maior de Lope de Vega.

 

A prosa barroca reparte-se entre a crônica, a informação, a narrativa e a oratória. Ambrósio Fernandes Brandão, Frei Vicente de Salvador, pe. Simão de Vasconcelos e pe. Antônio Vieira foram seus principais cultivadores. No início do século XVIII surgiram, no Brasil, as agremiações literárias ou Academias, em sua origem preocupadas com o cultivo da prosa e da poesia barrocas.

 

Nenhum registro literário ficou, no Espírito Santo, da literatura jesuítica barroca. Sem donatário, sem capitão-mor, ora subordinada à Bahia, ora ao Rio de Janeiro, a capitania do Espírito Santo tornou-se uma "terra de ninguém", entregue aos jesuítas, mais preocupados com suas fazendas e "missões" de domesticação de indígenas e acumulação de uma riqueza material terrena do que com a formação cultural da população rude da terra capixaba.

 

Completamente empobrecida, a Capitania do Espírito Santo foi comprada em 1674, pelo Cel. Francisco Gil de Araújo, um rico baiano, descendente de Caramuru, por 40.000 cruzados. Seu maior objetivo era a busca do ouro e das esmeraldas.

 

Em fins do século XVII, em 1693, irromperam do sertão, pelo Rio Doce, as primeiras notícias de ouro. Essa apoteose do ouro ia ser profundamente desvantajosa para o Espírito Santo e ocasionar o surgimento e a riqueza das Minas Gerais. O Espírito Santo tornou-se o principal refúgio de numerosos índios, em suas densas florestas, impedidas de serem desmatadas por decreto real. Muitos fortes foram edificados e reformados na Vila de Vitória.

 

No início do séc. XVIII, o Espírito Santo torna-se menor com a criação da Capitania de São Paulo e distrito das Minas de ouro, em 1709. Sem donatário, foi incorporada ao patrimônio real, em 1711. Neste século, jesuítas e franciscanos tornaram-se os verdadeiros donos do Espírito Santo e de suas poucas vilas litorâneas, exercendo, com afinco, os seus deveres, inclusive os da "Santa Inquisição". Em 1720, por exemplo, a Inquisição fez seguir para Portugal Brás Gomes, rico mercador em Vitória, acusado de heresia por conservar um crucifixo em uma caixa. Uma pequena brochura intitulada "Um fato da Inquisição no Brasil e heroísmo de um capixaba" narra-lhe todo o infortúnio. (10) Em 1985, o Prof. Luiz Guilherme Santos Neves ganha o 3º lugar no I Prêmio Rio de Literatura com a obra As chamas na missa, publicada em 1986 pela Philobiblion, que ficcionaliza os fatos ocorridos na Vila do Santíssimo Sacramento, no início do século XVIII. A inquisição é revisitada 250 anos depois pela literatura para resgatar a história de Vitória daqueles tempos.

 

O surgimento de uma literatura no Espírito Santo: 1770 a 1870

 

Afonso Cláudio chama de "período de agregação" (1770-1870) e "período de expansão consciente" (1871 a 1907) os dois momentos literários da história da literatura capixaba ou do Espírito Santo. O primeiro, caracterizado pelo "aparecimento dos poemas que vêm atestar o propósito de corporificar as ideias clássicas. aproveitando-as na reprodução dos painéis de natureza física, acompanhado de outras manifestações que reprimem os afetos e sentimentos ora íntimos, ora gerais do comum do povo, suas aspirações, crenças religiosas, mitos e superstições", e o segundo, "em que as ideias parecem ter encontrado o surto natural que lhes permite adejar em todos ou quase todos os quadrantes do pensamento, é caracterizado por uma tal ou qual autonomia no modo de exprimir impressões e formular conceitos". (11)

 

Nesse primeiro momento, "preso às ideias clássicas", Afonso Cláudio constata uma forte influência da escola baiana no "classicismo poético", sendo o padre baiano Domingos de Caldas o estimulador do cultivo às letras em terras capixabas. Descreve-o como "Espírito afeito ao culto da antiguidade (...) ungindo-as em seus escritos com o misticismo de sua religião". (12) Segundo o mesmo historiador, a primeira composição poética sobre assunto local foi escrita cm 1770, o "Poema mariano", do padre Domingos (de) Caldas, uma narrativa em verso rimado dos milagres da Senhora da Penha, só publicado, no entanto, em 1854.

 

Na verdade, Domingos de Caldas Barbosa (1740-1800) é, apenas, o continuador de uma tradição jesuítica iniciada por Anchieta, duzentos anos antes, de escrever poemas religiosos com temas locais. O que o difere dos seus antecessores é a influência camoniana, neoclássica, mais próxima do movimento árcade que do medievalismo anchietano. Teve como nome árcade "Lereno" e se tornou um dos mais populares dos poetas árcades com a obra A viola de Lereno (2v.), publicada em 1826, com modinhas pré-românticas. Sua passagem, de data imprecisa, no Espírito Santo, influenciou a geração futura do pe. Marcelino Pinto Ribeiro Duarte com seu lirismo nativista, pe. João Clímaco, José Gonçalves Fraga e Fraga Loureiro.

 

A ausência de qualquer movimento cultural ou literário no Espírito Santo fazia com que os filhos da terra fossem estudar na Bahia. Isto aconteceu, por exemplo, com Gonçalo Soares de França, nascido em 1632 e que se tornou um dos principais poetas barrocos, pertencente à Academia Brasílica dos Esquecidos (1724-5), onde leu seu poema épico "Brasília", deixado inédito. Algumas enciclopédias o dão como baiano, apesar de capixaba. (13)

 

O subjetivismo, o arcadismo bucólico e o pré-romantismo de Caldas Barbosa podem ser vistos nos seguintes versos do "Poema mariano":

 

"Eu sou aquele que cantando amores,

Muitas vezes ao som de brandas canas,

Lisonjeei a vida dos pastores,

Exaltei a beleza das serranas;

Porém, hoje depondo os seus louvores,

Já não quero cantar glórias mundanas,

Que são sombras de luz, do ar assento,

Formosuras de flor, torres de vento."

 

O primeiro seguidor de "Lereno" foi o pe. Marcelino Pinto Ribeiro Duarte (1788-1860), o mais notável poeta espírito-santense da primeira metade do século XIX, segundo Afonso Cláudio (14). Seus versos, líricos, sentimentais, românticos, foram publicados em 1856, na antologia intitulada Jardim poético. Também escreveu o poema épico "Derrota de uma viagem ao Rio de Janeiro em 1817", em que narra suas desavenças com o governador Francisco Alberto Rubim, o que motivou seu exílio para o Rio, onde viveu de 1817 a 1830. Envolvendo-se no movimento político contra a Regência, foi preso, sem deixar, no entanto, de escrever sátiras e comédias em verso contra o governo. Eleito deputado, em 1838, pelo povo espírito-santense, voltou a Vitória, onde permaneceu até 1844. De 1844 a 1850, viveu em Niterói, onde deixou numerosa descendência. Em 1850, volta a Vitória, mas abandona a política, vindo a falecer em Niterói, em 1860, agraciado pelas autoridades e o imperador.

 

O padre Marcelino Pinto Ribeiro Duarte foi, sem dúvida, a principal estrela do cenário político e literário capixaba na primeira metade do século XIX, registrando em sua vida e obra o amor por sua terra, a paixão do artista pela arte e do ser humano pela vida.

 

José Gonçalves Fraga (1793-1855), autor de dramas em verso e de um poema satírico denominado Bandocada, tradutor da Eneida, de Virgílio, foi um poeta romântico menor. Seus seguidores foram J. Pereira dos Santos, Luiz Barbosa dos Santos e Ignácio Vieira Machado, dentre outros.

 

O pe. Dr. João Clímaco de Alvarenga Rangel (1799-1866), como o pe. Marcelino Duarte, também foi padre, poeta, orador e político. Classicista como os outros intelectuais do seu tempo, fez poesia romântica subjetivista.

 

O pe. João Luiz da Fraga Loureiro (1805-1878) foi poeta popular, famoso em festas populares em louvor de São Benedito no município da Serra.

 

A tradição colonial de as famílias mais ricas apresentarem, pelo menos, um filho para ser padre fazia com que a maioria dos escritores da época fossem padres e políticos; na verdade, eram os únicos que recebiam instrução, geralmente clássica e nacionalista. Fundava-se, no Brasil, no século XIX, o Romantismo e formava-se a nacionalidade brasileira.

 

Foi no Romantismo, também, que se formaram os primeiros escritores capixabas, além dos já citados, Antônio Cláudio Soído (1822-1889) e Luiz da Silva Alves de Azambuja Susano (1785-1873). Este publicou o primeiro romance capixaba, O capitão Silvestre e Frei Velloso (1847) e A baixa de Mathias, ordenança do Conde de Arcos, 1859, reeditado pela Ed. da FCAA­UFES, em 1988, dentre várias outras obras de cunho didático e traduções. O primeiro, oficial da Marinha imperial, compôs versos laudatórios ao Imperador Pedro II e foi, sobretudo, um lírico nativista.

 

Nesta época, também, surgiram, no Espírito Santo, os primeiros trabalhos de História e Estatística, além da continuação da dramaturgia capixaba. Francisco A. Rubim publica, em 1817, Memória estatística da Capitania do Espírito Santo. Seu filho, Braz da Costa Rubim (1812-1871) publicou: Dicionário topográfico do província do Espírito Santo, Notícia cronológica dos fatos mais notáveis do província do Espírito Santo, Memórias históricas e documentadas da província do Espírito Santo e Cartografia da província do Espírito Santo. Joaquim José G. da Silva Neto (1818-1903) escreveu uma Crônica da Companhia de Jesus, 1880; As maravilhas da Penha ou Lendas e história da santa e do virtuoso Frei Pedro Palácios,  1888. José Marcelino P. de Vasconcelos (1821-1874) foi jesuíta e publicou Jardim poético (2 vol.), 1856-8; Ensaio de história e estatística do Espírito Santo, Seleta brasiliense (1868-70) e Catecismo político, 1859. José Joaquim Pessanha Póvoa (1836-1904) teve várias obras publicadas, dentre lendas e contos, Jesuítas e reis, panfleto político, Tiradentes ou a voz dos mortos, e biografias: Os heróis da guerra, Os heróis da arte, Colombo e Joana d'Arc, etc. Foi um polemista político. Bazílio C. Daemon (1834-1893) publicou Arcanos, romance histórico, 1877, História e estatística do província do Espírito Santo, 1879, e Reminiscência, 1888.

 

Se, até os séculos anteriores, os modelos copiados pelos escritores do Espírito Santo estavam em Lisboa, Madri ou Salvador, o Rio de Janeiro como capital do reinado e do império passou a ser, no século XIX, o espelho para a literatura capixaba. Oscar Gama Filho assim afirma: "...o romantismo espírito-santense havia sido o reflexo do reflexo carioca do movimento europeu". (15) De acordo com o mesmo autor, embora um pouco tardiamente, visto que o Espírito Santo só conseguiu desenvolver uma infraestrutura econômica forte na segunda metade do século XIX com a cafeicultura, o teatro romântico capixaba, em forma de dramas burgueses ou comédias, teve o seu início com a representação, em 1877, de A caridade, de Aristides Freire (1849-1922). Este escreveu vários "folhetins" de crítica social como os de Martins Pena. Em 1896, é inaugurado o Teatro Melpômene, com 1.200 lugares, incendiado em 1924. Até hoje, o Espírito Santo não possui um teatro com tal lotação. Nele, e no Teatro Carlos Gomes, construído com restos do Melpômene e inaugurado em 1927, consagraram-se as peças de Aristides Freire, Amâncio Pereira e Ernesto Guimarães, os principais dramaturgos capixabas, de acordo com Oscar Gama Filho, e outros menores como Cândido Costa, Afonso Magalhães e Ubaldo Rodrigues.

 

 

Final do século XIX e primeira metade do século XX: a permanência da tradição: românticos, simbolistas, parnasianos e regionalistas

 

Assim como a primeira metade do século teve no pe. Marcelino Duarte o seu símbolo, o final do século gerou a figura de José de Mello Carvalho Moniz Freire (1861-1918), um positivista, republicano, jornalista, combatente e estudioso do direito, da política, das questões econômicas e sociais. Não foi um literato, mas sobretudo um estimulador do progresso intelectual e material, o criador do espírito de modernização no Espírito Santo.

 

Durante os últimos anos do séc. XIX, a literatura capixaba oscila entre as primeiras tentativas parnasianas, Manoel J. Rodrigues com Fugitivas, 1883 e Manhãs de estio, 1886, mas com uma forte influência de religiosidade e subjetivismo românticos como as de Virgílio Vidigal (1886-1907); Ulisses Sarmento (1875-1923) foi, provavelmente, o primeiro poeta capixaba visivelmente influenciado por Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, a partir da publicação de Clâmides, 1894, Torturas do ideal, 1900, Contemplações, 1902 e A voz da natureza, 1923. Seguidor das correntes realistas/naturalistas do fim do século passado foi Colatino Barroso (1873-1931), com seus contos publicados em Anátemas, 1895, Jerusa, poema em prosa, 1892, A lenda dos guizos divinos, 1917.

 

Graciano dos Santos Neves (1868-1922), médico, político, foi o iniciador da tradição capixaba de usar a ironia como recurso literário com o seu A doutrina do engrossamento, tratado da bajulação, publicado em 1901 e reeditado pela Ed. Artenova - RJ, em 1978. O maior representante capixaba da corrente irônica foi Mendes Fradique, pseudônimo do médico José Madeira de Freitas (1893-1944), cuja obra, iniciada por Hypocrotéa, 1926, vai até Pantominas, 1930, e virou tema de dissertação  de Mestrado, no Rio de Janeiro. (16) Mendes Fradique consagrou o "método confuso", com sua Gramática portuguesa pelo método confuso, 1928 e História do Brasil pelo método confuso, 1927. Madeira de Freitas chega ao Rio, em 1910, um dos anos de ouro do cinema brasileiro. Também proliferavam os automóveis, os telefones, fonógrafos e gramofones. Começava a era da modernização e a literatura não ficou de fora desse processo. Isso no Rio de Janeiro, capital da República, para onde iam os jovens capixabas de família rica para estudar.

 

No Espírito Santo, dois acontecimentos marcaram os primeiros anos do século: a fundação da Academia Espírito-santense de Letras, em 1921, e o quinzenário Vida Capichaba (1923-1955). A AESL, fundada em 1921, pelos ideais do advogado Alarico de Freitas e do jornalista Sezefredo Garcia de Resende, logo recebeu a adesão do professor Elpídio Pimentel, do bispo Dom Benedito Paulo A. de Souza e do jornalista Thiers Velloso, sua primeira diretoria. Inicialmente criada com 20 cadeiras, só preenchidas integralmente em 1923, as quais passaram para trinta, em 1937 e, em 1939, para quarenta, só foram completadas em 1941, quando se comemoraram os 20 anos da AESL.

 

A vida literária, na primeira metade do século XX, girava em torno dos cursos e conferências patrocinados pelos intelectuais ou das agremiações existentes: AESL, IHGES (fundado em 1916), Academia Espírito-santense dos Novos (1934), Grêmio Literário Rui Barbosa (1932-1938), Sociedade Espírito-santense de Letras, Arcádia Espírito-santense (1943). O Espírito Santo descobre as Academias 200 anos depois dos baianos, cariocas e mineiros. Escritores atuantes dessa época foram Augusto E. E. Lins, Abílio de Carvalho, Antônio Pinheiro, Alvimar Silva, Mauro de A. Braga, Mário de S. Nunes, Carlos T. de Campos, Nicanor Paiva e Lúcia Castellani, além do poeta e historiador Almeida Cousin.

 

O quinzenário Vida Capichaba, 1923-1955, inicialmente sob a responsabilidade de Manoel de Teixeira Leite, "ajudou a moldar o talento dos escritores, incentivados pela visão de seus trabalhos em letras de forma, e pela discussão, nas rodas de amigos, das ideias expressas num artigo ou noutro", segundo J. A. Carvalho. (17) Diante da dificuldade de publicação apontada por Affonso Cláudio na obra antes citada, os escritores capixabas, geralmente, só conseguiram publicar seus trabalhos em jornais. A Vida Capichaba foi o principal deles.

 

Mesquita Neto, pseudônimo de Otávio José de Mendonça (1901-1975), diretor do jornal A Gazeta, poeta, cronista, contista e romancista, foi um dos principais incentivadores das produções literárias locais, abrindo as páginas das edições domingueiras com os trabalhos dos escritores capixabas.

 

Nessa época, surgem as primeiras mulheres capixabas a publicar livros: Maria Antonieta Tatagiba (1895-1928) com Frauta agreste, 1927, e Haydée Nicolussi (1905-1970), contista premiada, jornalista militante e tradutora. Em 1943, publica Festa na sombra, poemas. Marly de Oliveira (1935), atual companheira de João Cabral de Melo Neto, inicia a sua produção poética com Cerco da primavera, em 1957, seguida de Explicação de Narciso, 1960; A suave pantera, 1962; A vida natural / O sangue no veio, 1967; Contato, 1975; Invocação de Orfeu, 1978; Aliança, 1978: A força da paixão, A incerteza das coisas, 1984.

 

Elpídio Pimentel (1894-1971) foi crítico literário, Noções de Literatura, 1918, e autor da página de abertura de Vida Capichaba, além de escritor de obras didáticas: Postilas pedagógicas, 1923; Quando o Penedo falava, 1927.

 

Em Cachoeiro de Itapemirim, surgem grandes escritores capixabas: Benjamim Silva (1886-1954) com um único livro, Escada da vida, 1938, poemas; Newton Braga (1911-1962), jornalista e poeta, publicou Lirismo perdido, 1945; Cidade do interior, 1959 e Poesia e prosa, 1962, reeditado em 1993. Rubem Braga (1913-1990) é o mais famoso escritor capixaba, com suas crônicas publicadas em vários livros, sendo o primeiro, O conde e o passarinho, 1936, até Crônicas do Espírito Santo, 1984, reeditadas pelo jornal A Gazeta, no projeto "Nosso Livro", em 1994. Evandro Moreira (1939), fundador da Academia Cachoeirense de Letras, em 1954, e autor de várias obras em verso e prosa. Ormando Moraes (1915) é contista, cronista e historiador.

 

Apesar de o Modernismo ter sido implantado no Brasil, em 1922, com a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, ele custou a chegar ao Espírito Santo. O que predominava aqui eram os neo-parnasianos e os neo-simbolistas. Narciso Araújo (1877-1944) é eleito "Príncipe dos Poetas Capixabas", em 1941, com o livro Poesias, 1942, ficando, em segundo lugar, Ciro Vieira da Cunha (1897-1976), com Alguma poesia, 1942. No segundo concurso, realizado em 1947, coube a Geraldo Costa Alves (1924-1973) o primeiro prêmio, e a Elmo Elton (1925-1988), o segundo. Pela primeira vez foram escolhidas as melhores poetisas do Espírito Santo, sendo premiadas Virgínia G. Tamanini (1897-1990), Maria José Albuquerque de Oliveira e Arlete Cypreste de Cypreste (1920). Virgínia Tamanini publicou A voz do coração, poemas, 1942; O mesmo amor nos nossos corações, 1949. Em 1964, publica Karina, romance de grande sucesso junto ao público capixaba, e Estradas do homem, romance, 1977.

 

Neorromânticos, neossimbolistas ou neoparnasianos foram os poetas capixabas até os anos 50. Audífax Amorim foi o primeiro deles a usar ideogramas, fazer poemas concretos, hai-kais e versos livres. Sua obra foi estudada pelo professor José Augusto Carvalho e publicada pela FCAA­UFES. (18)

 

Os escritores capixabas só conseguiram algum destaque nacional quando saíram do Espírito Santo. Isso aconteceu com Gonçalo S. da França, no século XVII; pe. Marcelino Duarte e tantos outros no século XIX; e, sobretudo, no século XX com a difusão da mídia impressa e imagética, Rubem e Newton Braga, Almeida Cousin, Geir Campos e Marly de Oliveira. José Coelho de Almeida Cousin (1897-1992) e Geir Nuffer Campos (1924) e Clóves Ramalhete (1915) são autores de várias obras em prosa e verso, vivendo e publicando no Rio de Janeiro.

 

Eugênio Lindenberg Sette (1918-1990), Renato José C. Pacheco (1928), Cristiano Ferreira Fraga (1892-1928), Guilherme Santos Neves (1906­1989), Adelpho Poli Monjardim (1903) são escritores de uma mesma geração que escrevem crônicas: Praça Oito, 1953; poemas: Poemas traduzidos, 1952 e Sinfonias das ruas de Vitória, 1944; romances: A oferta e o altar, 1964; Reino não conquistado, 1980, e Fuga de Canaã, 1981; memórias: Lembranças, 1978; estudos do folclore: Nau Catarineta, 1949; Cancioneiro capixaba de trovas populares, 1949; História popular do Convento da Penha, 1958; Folclore brasileiro - Espírito Santo, 1978, e o último deles, o mais prolífico escritor capixaba, com dezenas de contos, ensaios, romances e novelas. Duas romancistas podem ser enquadradas nessa geração de transição para a modernidade, Neida Lúcia Cunha Moraes (1929) e Margarida Serra Pimentel (1936). Ambas publicaram alguns romances enfatizando a prosa neorrealista e regionalista.

 

 

Os anos 70 e a modernidade

 

Se Audífax Amorim pode ser considerado o introdutor da poesia pós­moderna no Espírito Santo, pela própria desconstrução do signo verbal a partir dos anos setenta, a prosa com essas características surge apenas em 1972, com a publicação de Blissful Agony, de Amylton de Almeida (1946), reeditado pela FCAA em 1988. O mesmo autor escreveu, ainda, os romances A passagem do século, 1977 e A autobiografia de Hermínia Maria, publicada em 1994, além de várias peças de teatro.

 

Na mesma geração de 70, introdutora da "consciência de abismo do mundo moderno", da dissolução dos costumes, da angústia existencial e da consciência da escrita, surgiram os principais escritores da literatura do Espírito Santo: Maria Bernadette de Lyra (1938), autora de As contas no canto, contos, 1981; O jardim das delícias, conto, 1982; Corações de cristal ou A vida secreta das enceradeiras, 1984; Aqui começa a dança, novela, 1985 e A panelinha de breu, romance, 1992. Reinaldo Santos Neves (1946) é o principal romancista dessa geração, tendo escrito Reino dos medas, 1971; A crônica de Malemort, 1978; As mãos no fogo: o romance graciano, 1983 e Sueli, 1988. Seu irmão, Luiz Guilherme Santos Neves (1933) escreveu Queimados, teatro, 1977; A nau decapitada, 1982; As chamas no missa, 1985 e A torre do delírio, 1992. Da mesma geração foi Luiz Fernando Valporto Tatagiba (1946-1992), autor de O sol no céu da boca, contos, 1980; Invenção da saudade, crônicas, 1982 e Rua, crônicas, 1986.

 

A criação da Editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, UFES, em 1978, foi o fato mais marcante da Literatura do Espírito Santo. Em seus dezessete anos de existência, a Editora da FCAA publicou mais de 300 títulos, revelando jovens autores e consagrando outros. (19) Ao lado da industrialização e crescimento da Grande Vitória, nos anos 70 e 80, houve o aumento da população inclusive escolarizada - o que propiciou a formação de um público leitor, a democratização do país, o crescimento e desenvolvimento dos estudos literários nas faculdades de letras, as oficinas literárias - verdadeiras fábricas de escritores -, tudo foi motivo para um grande desenvolvimento da literatura no Espírito Santo que, pela primeira vez, se desatrelou dos grandes centros (Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador), para se profissionalizar. Nos anos 80, o Espírito Santo resolveu o problema de publicação e divulgação do escritor local; falta, ainda, resolver o problema de divulgação e distribuição para outros centros.

 

Dentre os jovens escritores, quase todos contistas, lançados nos anos 80, pela FCAA, destacaram-se: Adilson Vilaça, Marcos Tavares, Sebastião Lyrio, Francisco Grijó. Os mais significativos poetas foram Roberto Almada, Oscar Gama Filho, Deny Gomes e Miguel Marvilla, numa linha tradicionalista; Valdo Motta, Sérgio Blank e Paulo R. Sodré, mais inseridos numa estética de contemporaneidade. Outros autores como Lacy Ribeiro e José Augusto Carvalho, na prosa, Marien Calixte, José Irmo Gonring e Luiz Carlos Almeida Lima, na poesia, ganham concursos literários e têm suas obras publicadas fora da FCAA.

 

A partir de 1992, com a criação da Secretaria de Produção e Difusão Cultural da UFES e da aprovação de projetos através da Lei Rubem Braga, da Prefeitura Municipal de Vitória, novas fontes de recursos impulsionaram a publicação de livros, no Espírito Santo. Vinte e dois títulos foram publicados, em dois anos, pela SPDC/UFES e 39 títulos de Literatura editados pela Lei Rubem Braga. (20) Hoje, a produção literária do Espírito Santo é uma das maiores do país, proporcionalmente ao seu tamanho e expressão econômica no contexto nacional, apesar de continuar desconhecida no cenário nacional. Vários fatores concorreram para que isso acontecesse, conforme pude demonstrar em pesquisa realizada sobre parte da produção literária dos anos 80. (21) A grande publicação dos anos 90 ainda deverá ser estudada, principalmente pelos alunos do curso de pós-graduação em Letras apenas recentemente iniciado em nosso Estado. Todavia, já se pode afirmar que não se trata, apenas, de uma literatura provinciana, cópia ou simulacro de modelos europeus, norte-americanos, cariocas ou baianos, como se fez, no Espírito Santo, até há muito pouco tempo.

 

A literatura do Espírito Santo, a partir da década de 70 e, sobretudo nas duas últimas décadas, está inserida no contexto de uma literatura produzida na América Latina, em que o escritor recusa o espontâneo e assume a sua escritura como "dever lúcido e consciente", conforme as palavras de Silviano Santiago, em texto não muito recente, embora atual. (22) Reinaldo Santos Neves, Bernadette Lyra, Amylton de Almeida, Valdo Motta, Sérgio Blank, Paulo R. Sodré, são autores do mesmo nível de qualquer outro autor brasileiro divulgado pela mídia e conhecido nacionalmente. Se não o foram, ainda, é porque "O Brasil não conhece o Brasil".

 

 

Conclusões

 

A literatura produzida no Espírito Santo pode ser considerada "marginal" ou "periférica" por dois motivos: geográfica ou culturalmente. Do século XVI ao XX, toda a literatura feita por capixabas ou no Espírito Santo tinha como modelos os centros europeus - Lisboa, Madri ou Paris - ou nacionais - Salvador, Rio de Janeiro ou São Paulo, vivendo à margem desses centros, geográfica ou culturalmente, por pretender copiar ou imitar aqueles modelos. No século XVI, a literatura brasileira apenas se iniciava, com a literatura jesuítica (catequética ou informativa) ou a literatura informativa sobre o Brasil. O Espírito Santo esteve no centro dessa produção, enquanto capitania promissora, "a mais fértil e a mais provida de todos os mantimentos da terra", "a terra mais abastada e melhor de toda a costa", "a melhor e mais fértil do Brasil", segundo depoimento de Gandavo, pe. Antônio Pires ou pe. Afonso Brás.

 

No entanto, com a descoberta do ouro nas Minas Gerais, o Espírito Santo perdeu grande parte de suas terras e quase todos os habitantes. Durante duzentos anos, tornou-se uma província fantasma, terra de mulheres, índios, crianças, funcionários públicos e escravos, uma barreira natural de florestas e rios para proteger as minas de ouro. Sua literatura nos séculos XVII e XVIII é proporcional à sua riqueza: nula. No século XIX, surgiram os primeiros escritores realmente capixabas que, no entanto, reproduziram os modelos pequeno-burgueses do romantismo nacionalista, imperial e escravocrata. O pe. Marcelino Duarte e o Dr. Muniz Freire são os protótipos dos intelectuais e políticos capixabas da 1ª e 2ª metades do século passado.

 

O século XX custou a chegar, no Espírito Santo. O modernismo, através de sua versão antropofágica, poderia ter chegado através de Garcia de Resende, João Calazans, Atílio Vivacqua e Vieira da Cunha, em 1929, num Congresso de Antropofagia que não houve. (23) Carta de Garcia de Resende à Revista de Antropofagia, de 12/06/1929, assim dizia: "Nós aqui somos poucos mas bons. O Espírito Santo tem a vantagem de não estragar talentos com manifestações de amor às letras. Nunca teve literatura. Agora é que estamos formando o pessoal. E tem gente de muito boa brasilidade". (24)

 

A literatura do Espírito Santo continua à margem da produzida nos grandes centros do país, à periferia do Rio, São Paulo, Belo Horizonte ou Brasília, assim como a produção cultural de todos os outros estados brasileiros. No entanto, não mais depende cultural, intelectual e economicamente para existir. Ela criou mecanismos para sobreviver.

 

Podemos, agora, parafrasear/parodiar Garcia de Resende, afirmando a respeito da literatura feita no Espírito Santo, nos últimos vinte anos: "Nós aqui somos muitos e bons. Temos a vantagem de esbanjar talentos até com manifestações de amor às letras. Temos, agora, literatura. Continuamos formando e divulgando o pessoal. Boa brasilidade é conhecer, também, o que fazemos aqui."

 

 


Obs.: Primeiro capítulo de livro homônimo, publicado em 1996. As informações aqui contidas ficam restritas ao ano de sua publicação.

 

 

Bibliografia

 

(1) FREIRE, Mário A. A capitania do Espírito Santo. Crônicas da vida capixaba no tempo dos capitães-mores (1535-1820). Vitória, Of. da "Vida Capixaba", 1945, p. 08.

 

(2) Id., ibid., p. 14.

 

(3) Id., ibid., p. 20.

 

(4) NÓBREGA, Manoel de. Cartas do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1988, p. 223.

 

(5) ANCHIETA, José de. Poesias. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1989, p. 417.

 

(6) Id., ibid., "A Nossa Senhora", p. 648 (escrita originalmente em tupi-guarani).

 

(7) ELTON, Elmo. Poetas do Espírito Santo. Vitória, FCAA/PMV, 1982, p. 11.

 

(8) GANDAVO, Pero de M. Tratado da terra do Brasil. História da Província de Santa Cruz. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1980, p. 38 e p. 91.

 

(9) CLÁUDIO, Afonso. História da literatura espírito-santense. Rio de Janeiro, XEROX, 1981, p. XXIX-XXX.

 

(10) Apud FREIRE, M., op. cit., p. 97-8.

 

(11) CLÁUDIO, Affonso. op. cit., p. XXXII-XXXIII.

 

(12) Id., ibid., p. 41-52.

 

(13) P. de Vasconcelos, B. Daemon, Simões da Fonseca e Francisco de Almeida, citados por A. Cláudio, o dão como capixaba (op. cit., p. 45). A. Coutinho, em verbete da p. 624 o considera baiano (in: Enciclopédia da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro, MEC/FAE, 1980, vol. 1.

 

(14) Id., ibid., p. 53.

 

(15) FILHO, Oscar Gama. Teatro romântico capixaba: Aristides Freire, Amâncio Pereira, Ernesto Guimarães. Vitória, DEC/CECES; Rio de Janeiro: INAC/MINC, 1987, p. 27.

 

(16) LUSTOSA, Isabel. O Brasil pelo método confuso. Humor e boemia em Mendes Fradique. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1993, 261 p.

 

(17) CARVALHO, José Augusto. "Panorama das letras capixabas". Revista de Cultura-UFES, Vitória, FCAA, ano VII, nº 22, 1982, p. 66-7.

 

(18) AMORIM, Audífax de. Poemas. Vitória, FCAA-UFES, 1982.

 

(19) FCAA - Relatório de atividades. 1993, p. 24.

 

(20) "A marca da poesia no texto capixaba". Jornal A Gazeta, Caderno Dois, 25/05/94 e "Lei Rubem Braga: festa de conteúdo polêmico", idem, 26/05/94.

 

(21) RIBEIRO, Francisco A. A modernidade das letras capixabas. Vitória, FCAA/SPDC, 1993, 266 p.

 

(22) SANTIAGO, Silviano, "O entre-lugar do discurso latino-americano". Uma literatura nos trópicos. Ensaios sobre dependência cultural. São Paulo, Perspectiva, 1978.

 

(23) BUSATTO, Luiz. O modernismo antropofágico no Espírito Santo. Vitória, SPDC/UFES, 1993.

 

(24) BUSATTO, Luiz. Revista de Cultura/UFES. Vitória, FCAA, ano VII, nº 23, p. 98-102.

 

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