PRINCIPAL

LEITURA

 

 

 

 


 

 

Os mistérios da tradução

Erlon José Paschoal

No último dia 14, no Cine Majestic, tive o prazer de participar do Café Literário SESC, ao lado de José Augusto Carvalho e Jô Drummond, para debater um tema que me é muito caro: a tradução e seus mistérios.

Abordei o tema à luz de uma afirmação de um dos maiores escritores da literatura universal: Jorge Luis Borges. Seu livro "Las Versiones Homéricas" começa com a seguinte reflexão: "Não existe nenhum problema tão substancial com as letras e com seu modesto mistério, como aquele que propõe uma tradução".

Segundo ele, a tradução parece destinada a ilustrar a discussão estética sobre a literatura; ele enfatiza também que a superstição sobre a inferioridade das traduções – propagada pelo conhecido provérbio italiano traduttore traditore – é fruto de um raciocínio superficial. Por conseguinte, ela é sentida como inferior ainda que seja tão boa quanto o original.

Para Borges, não existem textos definitivos, a não ser na religião, pois a literatura é um manancial inesgotável a partir do qual as infinitas combinações se sucedem e são reinterpretadas ao longo da história.

A ideia de tradução literal é oriunda da Idade Média, quando inúmeros tradutores se defrontaram com necessidade de se traduzir a Bíblia.

Como se trataria de um texto escrito pelo próprio Espírito Santo, cada palavra ali teria então um sentido que não poderia em hipótese alguma ser modificado. E seria blasfêmia se intrometer no texto escrito por uma inteligência infinita, eterna. A tradução deveria ser fiel e jamais sofrer qualquer interferência do tradutor.

Obviamente, uma missão impossível. As traduções literais podem criar ênfases desnecessárias e falsas, embora muitas vezes sejam responsáveis pela criação de belezas muito próprias e de novas metáforas em uma língua.

O tradutor, por outro lado, não pode escolher somente as passagens que mais o interessam num texto. Borges cita uma polêmica ocorrida no século XIX entre dois tradutores ingleses, Newmann e Arnold: um defendia a eliminação pura e simples de todos os detalhes que pudessem distrair o leitor, o outro a versão absoluta de todas as singularidades verbais.

Hoje, ninguém tem dúvida de que o tradutor tem de interpretar com rigor o texto de partida, avaliar toda metáfora ou alusão, examinar a sonoridade e o ritmo, captar os movimentos interiores, os sentimentos e as ideias por detrás daquelas palavras, pois tudo está carregado de sentido. Somos intermediários, tais como os bons instrumentistas recriam para os ouvidos contemporâneos obras de Bach, de Beethoven ou de Mozart.

Para Borges, não há diferença entre escrever e traduzir, já que a única boa tradução é aquela feita por uma alma de escritor. "A tradução literal é a mais infiel de todas", disse ele, "pois dá somente o sentido, e não o essencial, que é a linguagem, o ambiente das palavras e, sobretudo, as cadências, o ritmo. Portanto é preciso haver uma recriação do texto ou, talvez, uma criação diferente, mas que também seja única."

Parabéns aos organizadores do evento e ao público presente.

 

Clique aqui para acessar o índice e ler outros textos

 

VOLTAR


     © 2005 Tertúlia

     Direitos reservados

Site de utilidade pública, sem fins lucrativos