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Crônicas do Espírito Santo

Fernando Achiamé

Rubem Braga escolheu estas crônicas para com elas fazer um livro e publicá-lo em sua terra. É trabalho que reúne História e estórias; é máquina do tempo e de emoções, realidade e ficção, descrição pura e observação alegre. Como um sol congelado. Dá para reconhecer uma História desconhecida nestas palavras. Palavras benditas que nos devolvem “uma base física para a saudade”. Querem saber o começo de Montanha? Leiam “Um Lugar Chamado Palha”. Revivemos em "Comercinho" a zona contestada com duas polícias (a capixaba e a mineira) e o que Mucurici foi um dia. Saudável um livro que nos permite sentir saudade de um tempo e de um lugar inatingidos! Bom constatar que nem “tudo o que parecia eterno sumiu”. Estão aí a geografia dos rios, da água dos rios, do volume d'água dos rios e o mar, as ondas do mar, a espuma das ondas do mar. Geografia devastada, história escondida mas nossas, únicas, recuperadas nestas crônicas. Nós tão sem norte, sem identidade, sem marca, sem conhecimento; precisando nos ver com nossos próprios olhos.

Besteira dizer que estes escritos são de Rubem Braga. Foram dele quando os escreveu. Não mais lhe pertencem agora, incorporados logo, logo, a um acervo comum. Não pertencem só a ele o sabiá, a jenipapina, as carambolas, piabas, carás, os pés de planta, os canoeiros e pescadores. A infância não é só dele, mas um pouco retalhada em todos nós. Os editores erraram. Este trabalho deveria sair anônimo e ter impresso no lugar do nome do autor uma expressão encontrada em obra antiga: “Por hum Capichaba”. E continuaria universal. Vale, o que está escrito, para vários gostos e utilidades. Para ensinar e aprender. Para muitos cursos: de capixabismo ou de agronomia (“Cacau”, “E Mais Cacau”, “E Ainda Cacau”). Eis a deixa para todo um programa de estética do projeto arquitetônico: “Ah, amigos arquitetos, vocês me façam uma coisa tão simples e tão natural que, entrando na casa, a gente nunca tenha a impressão de que antes de fazê-la foi preciso traçar um plano (...)”.

Este é um livro de muitas viagens. Tem a que o autor fez com Carybé nos idos de 1953 (os desenhos foram legendados e publicados em 1981) a instâncias do governo estadual e outras realizadas por conta própria. Tem a nossa volta a um Espírito Santo passado, diferente, bonito. Tem reminiscências, lembranças, até esquecimentos (porque é importante o que se deixou de dizer e o que deixamos de preservar – “toda história é remorso”, já falou um poeta). Há os retornos de Rubem Braga a sua infância, viagens feitas por aqui, sem vir até aqui. Existe passeando neste Estado, sobretudo, um olhar capixaba. E diferente das visões de viajantes estrangeiros, dos Saint-Hilaires, e Príncipes Maximilianos, embora guardando certo parentesco viageiro. O Autor é, bem provável, o primeiro e talvez o único dos nossos a andar por estas bandas contando o que viu e aprendeu, observando o por trás das coisas, pessoas, fenômenos. Nada lhe escapa: os bichos, os matos, as finanças, Meaípe e Iconha, a arquitetura, os tipos humanos, cantigas, falares, saberes e quereres, ruas e estradas, o urbano e o rural.

Se eu fosse governador do Estado baixava um decreto mais ou menos assim: “Ficam obrigados os escritores nascidos ou residentes no Espírito Santo a percorrer o território estadual pelo menos uma vez na vida e fazer o que Rubem Braga fez em “Crônicas do Espírito Santo”. Parágrafo Único Excetuam-se desta obrigação os incompetentes porque lei nenhuma dá competência a ninguém.” Bom, pelo parágrafo se vê que o decreto seria de difícil aplicação. E nós já temos este escritor como patrimônio da literatura e revogam-se as disposições em contrário. Mas, que diabo, uma terra que possui Rubem Braga fica com uma responsabilidade danada com o verde e a vida de suas árvores e de seu passado.

Vitória, outubro / 1984

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