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A lição nossa de cada dia

 

Elizabeth Martins

 

A mão pequena dentro da minha, atravessamos a avenida e o conduzo até a segurança precária do canteiro central. Em seguida, novamente cruzamos o asfalto e na calçada ele se solta e segue caminhando sozinho, a mochila pequena balançando nas costas. Desaparece dos meus olhos na dobra da esquina.

 

Não é meu, esse menino. Nem sei de quem é. Se há pai, mãe, irmãos em sua vida. Sei apenas que ali, desafiando solitário os carros, pronto para pisar com a sandália de borracha o asfalto, desejei ajudá-lo.

 

A princípio rejeitou a minha mão, mas depois de olhar-me nos olhos permitiu-nos, a ele e a mim, o gesto. Mas foi só o tempo da travessia. Não disse palavra nem se virou para olhar-me ao seguir caminho. O corpo miúdo e magrelo exibia energia nos passos rápidos. A cabeça, de cabelos raspados, balançava na pressa do andar.

 

Ao vê-lo desaparecer senti um nó na garganta, procurei um cisco no olho, essas coisas de emoção que a gente disfarça. Pensei que talvez, ao negar-me a mão, quisesse me dizer que faz o caminho todos os dias, que sabe atravessar a rua sozinho e quão dispensável era a minha atitude.

 

Ah! Teve pena de mim, o menino. Seu coração sábio concedeu-me um momento de graça, quando maior do que as culpas e omissões soou audível e transformadora a lição nossa de cada dia.

 

 

 

 

 

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