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LEITURA      

 


Luiz Guilherme Santos Neves - Cidadilha: crônica inverossímil de uma cidade inexistente - Página 01

 

Dedicatória

 A Therezinha

 

Quem conta um conto acrescenta um ponto.

 

Avant-première

 Esta crônica inverossímil, para se tornar um conto com muitos pontos, foi baseada no livro Logradouros antigos de Vitória, de Elmo Elton, no folclore brasileiro e capixaba, e nas nostalgias do autor.

 

A chegada            

Nem tanto ao mar, nem tanto a terra.

 Se não há cousa que se encubra da vista quando se está no mar, como pode estar encoberta a cidade-ilha a que chamam Cidadilha, que no mar se encontra?

É que no mar estando, nele não se mostra claramente por se achar embuçada numa baía estreita, como se estivesse enfiada num bolso de colete. De sorte que, para pôr os pés em Cidadilha, os que a ela chegam das ondas do Oceano têm que primeiro navegar baía dentro e sete pedras de boa conformação deixar para trás, das quais é de bom alvitre que se declare a descrição, olê, seus marinheiros: a primeira é uma pedra morena, porque tem a cor mulatinha, à esquerda de quem entra na baía; a segunda é penha que tem no topo um convento que parece uma fortaleza, que parece um castelo, que parece um bolo de noiva que já foi até comparado – e bem comparado – a um gato angorá; a terceira é pedra com olhos cavos e cegos, mas sempre atentos aos que navegam as águas da baía; a quarta é a pedra d’água chamada, porque tem os pés na maré, e bem molhadinhos; a quinta, que na verdade é dobrada, uma em cima da outra, chama-se pedra dos ovos pelo formato que tem; a sexta é um penedo de meter medo, em forma de pão de açúcar, que sobre o mar desce a pique; finalmente a derradeira pedra é a que a baía vigia e assinala Cidadilha, a procurada margarida, aonde quem chega era melhor não ter chegado, olê, seus marinheiros!

 

Por que era melhor não ter chegado?  

De grão em grão a galinha enche o papo.

Naqueles tempos desembarcava-se em Cidadilha no Cais das Colunetas. Os navios baixavam os ferros no meio da baía e uma ponte elástica se estendia até eles, como língua de deboche, para acolher os visitantes. Sobre a ponte uma inscrição avisava: “Passe, passante, em passos que não sejam compassados para que em passos compassados não se dê seu passamento para a morte.”

Era um alerta e um augúrio (mau augúrio) para que os visitantes se dessem pressa antes que a ponte se recolhesse ao ponto de origem, despejando no mar os retardatários distraídos.

Muitos deles, em sua lerdeza de recém-chegados, pereciam nas águas oleosas de Cidadilha pela demora em passar a ponte traiçoeira. A própria inscrição era um ardil para quem, sendo lerdo de leitura, quando dava por si estava afundando nas águas imundas da baía.

Por causa disso, a chegada de visitantes a Cidadilha era um acontecimento concorrido. O povo se amontoava no Cais das Colunetas cantando animadamente: 

Lá vem a sinhá marreca,

Com seu samburá na mão.

Ela diz que vem trazendo

Empadinhas de camarão. 

A recepção dava aos que chegavam a doce ilusão de que a multidão estava ali para recebê-los com hospitalidade, quando, na verdade, vinha movida pelo prazer de ver os visitantes desaparecer nas águas pegajosas que lambuzavam as beiradas da cidade-ilha. E, para cúmulo dos cúmulos, quando as mortes ocorriam não faltava quem corresse para brandir o sino da matriz (e não brandia a finados, mas festivamente) em homenagem à crescente estatística dos que se viam tragicamente tragados em circunstâncias tão nefastas.

 

O placar das estatísticas

 

Quando digo digo, não digo digo, digo Diogo.

Num morro, defronte ao Cais das Colunetas, via-se um placar com um número em algarismos arábicos antes da palavra VISITANTES. 

Como o número atingia a casa do milhar, os visitantes pensavam que se tratasse da estatística dos que visitavam Cidadilha. Em sua santa ignorância não podiam imaginar que a numeração indicava a quantidade dos que já se tinham afogado nas águas nojentas da baía.  

O placar era controlado por um ilhéu sem nariz e sem um olho, chamado Misterioso. Misterioso vestia-se de arlequim e toda vez que mudava, sempre para maior, o cômputo dos afogados, os guizos da sua carapuça soavam alto e mau som, anunciando as mortes enumeradas. Quando o tilintar dos guizos dançava pelos ares sua dança de morte toda Cidadilha ficava sabendo que menos pessoas chegavam para visitá-la, o que era comemorado com euforia pelos seus habitantes.

Mas nem por isso os forasteiros eram recebidos com desprezo absoluto. Tanto que aos que lograssem passar a ponte móvel era entregue uma senha com a mensagem sobreviver para ver é vitória.

A mensagem celebrava a vitória dos que escapavam ao afundamento nas águas da baía, habilitando-se a ver a cidade aonde aportavam, embora muitos visitantes confundissem os seus termos com frases que não tinham o menor sentido: sobreviver apara a vitória; só reviver para a vitória; viver e ver é vitória.

 

Um mistério intrigante 

Boa viagem faz quem em sua casa fica em paz.

Um mistério digno de esclarecimento: por que mais e mais visitantes continuavam aportando a Cidadilha? Algumas explicações buscavam elucidar a questão.

Uma delas dizia que visitantes visitavam Cidadilha porque visitantes visitam desde as muralhas da China até o cós do mundo. Uma outra justificativa, menos verossímil, dizia que visitantes vinham a Cidadilha para tirar a prova de que o lugar nada tinha a lhes oferecer de visitável. Neste caso, agiam como São Tomés que precisavam ver para crer o que seus olhos não viam.

Mas se nada houvesse em Cidadilha para encher os olhos dos que a ela chegavam, já se sabe que ali existiam a célebre língua-ponte do Cais das Colunetas e as estatísticas do placar que um arlequim misterioso manipulava na função de mordomo da cidade. O que, para os viandantes que apreciam bater pernas pelo orbe, é razão de sobra para virem aonde tinham vindo. E até que descobrissem que boa viagem faz quem em sua casa fica em paz se davam por felizes e satisfeitos.          

 

O Cais das Colunetas 

Miguel, Miguel, não tens abelha e vendes mel.

O cais tira seu nome das colunetas que o sustentam. As colunetas nascem de dentro das águas ignóbeis da baía e transpassam o passadio de madeira, recobertas de ostras como milhos numa espiga.

Engastadas na parte de cima das colunetas, caveiras de burro se agitam ao vento. São seis caveiras de um lado, seis do outro. À noite, as caveiras servem de luminárias em que se emprega na iluminação o óleo de mamona. Os habitantes da cidade-ilha preferem a luz úmida das mamonas ao uso da eletricidade em suas casas e nos logradouros públicos para preservarem as características coloniais do lugar. Dizem que graças a essa tradição Cidadilha parece um presépio, à luz baça dos lampiões noturnos.

Para que a mamona esteja sempre à mão, o seu cultivo é feito nos jardins e pomares da cidade, ainda que as más línguas digam que se cultiva de mistura com a maconha. Até na bandeira de Cidadilha há um ramo de mamona enlaçando, por um dos lados, um sol estilizado em cujo centro se acha um favo de mel porque – são as boas línguas que o dizem – Cidadilha é cidade sol e ilha do mel!

Um outro ramo, mas de fumo, contrapõe-se às folhas da mamona, numa referência ao fundador de Cidadilha – um certo capitão e governador viciado no pecado de beber fumo, pelo qual foi excomungado. O que, para o povo da cidade-ilha, que continua dando ao capitão honras de herói de capa e espada, não fede nem cheira.  

 

A Escadaria das Pobres Figuras

Desgraça pouca é bobagem.

Em seguida ao Cais das Colunetas está a Escadaria das Pobres Figuras. É obra com largos patamares sobre os quais se projetam sacadas em que se aglomera a população de Cidadilha para ver os visitantes se afogarem na águas da baía.

O nome da escadaria deve-se às muitas estátuas que adornam seus corrimãos e parapeitos. São trabalhos de um escultor conhecido por Creta, por ter nascido na ilha com este nome. Mas adornam é maneira de dizer, porque as estátuas reproduzem, à perfeição, tipos populares de Cidadilha – andrajosos e decadentes – além de sujérrimos, pois literalmente cobertos pela pátina do tempo e pelo estrume dos pombos que fazem das estátuas poleiros para as suas imundícies.

Não bastasse tamanho ultraje às esculturas, pior é à noite, quando a elas se juntam os sem-tetos da cidade-ilha, que não são poucos. Os sem-tetos chegam em tribos, parecendo irmanados pelos laços de uma miserabilidade indestrutível. Acomodam-se nos escaninhos da escadaria sobre esteiras de palha ou cobertores esfarrapados, acendem fogareiros a carvão para o aquecimento da noite e se põem a cantar para atenuar a miséria em que vegetam: 

Tingolê, tingolá,

Toca a viola pra nós dançar... 

E ainda se dão ao luxo de aproveitar a água que jorra da fonte da escadaria através do bico de um cisne que de cisne só tem o bico, para atender às suas necessidades básicas, que são efetivamente básicas. E de tal modo se misturam os miseráveis vivos aos miseráveis personificados em estátuas que, vistos de longe, não se saberia dizer quem é humano ou não na Escadaria das Pobres Figuras; e, vistos de perto, tal semelhança apresentam entre si que a conclusão que se tira é a de que todas as figuras vivas e em pedra que povoam a escadaria estão urgentemente necessitadas de um bom banho no bico do cisne que, de cisne, nem sequer tem mais o contorno do seu vulto antigo.

 

A Rua do Egito 

Toda regra tem exceção.

Logo depois da Escadaria das Pobres Figuras espicha-se, em leve curvatura para o Oriente, a Rua do Egito – estreita e de terracota.

É rua antiga e nela estavam localizadas as lojas dos embalsamadores de cadáveres. Eram apenas duas lojas, mas o bastante para justificar o nome que foi dado à rua, numa remissão ao Egito das pirâmides e das múmias.

Os embalsamadores estabeleceram-se na cidade-ilha graças à prosperidade de famílias locais. A princípio, seus préstimos mortuários foram empregados na mumificação dos membros mais ilustres de uns poucos clãs de novos ricos, geralmente patriarcas que lograram desenvolver negócios lucrativos para si e para seus filhos e refilhos.

Mas os gastos excessivos com as múmias condenaram as mumificações, que foram substituídas pela conservação, em vidros com formol, das vísceras dos ilustres falecidos.

O novo sistema oferecia muitas vantagens: dispensava a construção dos sarcófagos onde se guardavam as múmias; garantia trabalho aos embalsamadores, que viram crescer a demanda pelos seus serviços na medida em que eviscerar virou moda entre famílias menos abastadas; e ainda permitia que os recipientes com os restos imortais fossem mantidos dentro dos lares, como verdadeiros penates para a adoração familiar.

Paradoxalmente, a banalização da evisceração provocou o fim do costume macabro. De tal forma ele se difundira em Cidadilha que já não mais se dava o devido respeito às entranhas dos mortos, que eram encontradas por toda parte, dentro das casas ou fora delas, e até na boca de cães e gatos.

O descaso pelas vísceras chegou a tal ponto que o CANOMACRO – Cabido de Notáveis Macróbios – que administrava Cidadilha baixou um decreto proibindo a conservação delas em recipientes de vidro. Uma única exceção foi aberta: para as entranhas de um pio padre, cognominado padre Beatífico, que viveu nos primórdios da cidade-ilha dedicado à conversão dos pagãos aos postulados da santa igreja católica-apostólica-romana.  

Hoje, na velha Rua do Egito, numa loja de embalsamamento com telhas decrépitas nas quais até cactos vicejam, os restos do Beatífico estão expostos à visitação pública num vasilhame encardido que fica num tríptico de madeira sobre um trípode também de madeira, em que a ação digestiva dos cupins já se faz notar tanto no tríptico, quanto no trípode.

A loja devia ser mantida com a venda de relíquias extraídas às vísceras do Beatífico, muito disputadas como amuletos pelos visitantes de Cidadilha. Mas a corrupção deslavada que grassa na cidade desvia o dinheiro do nobre fim a que se destinava e a loja decai a olhos vistos, como uma tripa rota.    

É tudo que se pode dizer das funerárias tradições da Rua do Egito. 

 

A Rua da Capelinha

Quem avisa amigo é.

Em seguida à do Egito vem a Rua da Capelinha. Seu nome deriva da Capela de Santa Luzia, branca e periquitinha, empoleirada no alto de uma rocha no começo da rua.

Na porta da capela, uma inscrição gravada na pedra adverte: Não olhe para trás. O aviso dirige-se a quem passa pela rua e não a quem entra na igreja. Esta confusão propiciatória ao engano é intencional e faz parte das muitas maldades que infestam Cidadilha. O objetivo é ludibriar os transeuntes para que eles se sintam tentados a olhar para trás até por pensarem que o aviso da periquitinha capela é apenas para quem a vai visitar.

O resultado é trágico para os desobedientes, que ficam imediatamente zarolhos. Acometidos do mal súbito, o jeito que lhes resta é entrar na igreja para pedir socorro a Santa Luzia.

A todos que a procuram, a santa atende prazerosamente em sua celestial missão de protetora das vistas. Mas o milagre implorado não se dá num toma lá dá cá de quem pediu, levou. Santa Luzia não age com pressa. Primeiro, ela faz olho doce. Finge que não viu o pedinte, que não escutou seu petitório desesperado, que vai até indeferi-lo. O milagre só acontece depois que os marimbondos atuam.        

Os marimbondos fazem as vezes de escudeiros de Santa Luzia, marimbondando em torno do altar da padroeira com zumbidos que lembram o murmúrio das preces.

Mas é dos marimbondos que depende a cura dos estrábicos aflitos. Porque, para que o desejado milagre aconteça, é necessário que um desses voadores pernaltas baixe do céu da capela e aplique no pedinte uma ferroada incisiva. Só assim os olhos entortados da esquerda janela serão recompostos em sua regularidade de esquerda e direita.

O efeito da picada é tão imediato, apesar de doloroso, que há quem suponha que são os marimbondos que detêm a cura milagrosa dos olhos estrábicos no ferrão de que se acham armados. Não imaginam, os que assim pensam, que a ferroada curativa é apenas um castigo para os que ficaram zarolhos por terem desobedecido ao aviso de não olhar para trás, quando passaram pela Rua da Capelinha.      

 

A Rua da Matriz 

As aparências enganam.

A Rua da Matriz engata-se à da Capelinha por trás da Igreja de Nossa Senhora de Cidadilha, a ponto de não se saber onde começa o cotovelo de uma e termina o cotovelo da outra.

É da matriz que saem, na última sexta-feira de cada mês, as Procissões das Transferências. São procissões que se realizam sob o martelar das matracas, os fiéis caminhando descalços pelas pedras pés-de-moleque do calçamento até chegar a uma outra Igreja, de Nossa Senhora da Misericórdia, donde voltam ao ponto de partida.

Todos os anos o Cabido de Notáveis Macróbios que governa Cidadilha propaga pelos quatro cantos do mundo o calendário das Procissões das Transferências. O objetivo é atrair espectadores para assistir ao cortejo em que os devotos se cobrem com mantos negros da cabeça aos pés, deixando apenas os olhos à mostra.

Devido a essa particularidade sinistra, a procissão das Transferências é também chamada procissão dos Olhos.

Mas nos prospectos que a divulgam informa-se que seu nome oficial deve-se à troca, durante o cortejo, da imagem da padroeira da igreja matriz pela imagem da padroeira da Igreja da Misericórdia.

Como tudo na cidade-ilha tem um duplo sentido, a informação não passa de um estratagema para que as procissões contem com grande número de assistentes. Porque é a esses assistentes que os enfurnados em suas vestes negras transferem, pela peçonha do olhar, as mazelas que têm no corpo e na alma. Vem daí a terceira denominação do evento: procissão dos Quebrantos.

Mas este nome somente corre à boca miúda na boca dos habitantes de Cidadilha, sem a menor possibilidade de constar dos prospectos que divulgam a procissão pelos quatro cantos do mundo, menos ainda de ser dito aos visitantes de Cidadilha. Como também não lhes é ensinada a oração contra o mau-olhado, que todo habitante da cidade-ilha sabe de cor e salteado:                                               

Deus te fez,

Deus te crie,

Deus te desolhe

De quem mal te olhou;

Se é torto ou excomungado

Deus te desolhe

Do seu mau olhado.

Amém. 

 

O Largo da Misericórdia 

Gosto não se discute.

Em Cidadilha aplica-se a lei de Talião: dente por dente, olho por olho. É no Largo da Misericórdia, em frente à igreja do mesmo nome, que as punições acontecem. As punições e os julgamentos.

O processo é sumário, na audiência dos acusados e na aplicação das sentenças, e o povo de Cidadilha comparece em massa para assistir ao que considera um espetáculo inigualável. 

Por questão de tradição, o carrasco usa um capuz que lhe desce até o gogó, deixando expostos apenas seus olhos carrascais. É de fato mera tradição, porque toda Cidadilha sabe que o verdugo é o amolador de facas e tesouras da cidade.   

O amolador chega ao Largo da Misericórdia com seus instrumentos num embornal que carrega nas costas, enquanto empurra a roda das amolações. É uma grande roda de madeira que se liga a uma mó por uma correia, ativada por um pedal comprido. 

Na mó o amolador afia o instrumental das punições, tirando fagulhas do atrito entre a pedra e as lâminas amoladas. É principalmente o tesourão o instrumento mais utilizado para o corte de dedos, mãos, orelhas e pés (as penas mais comuns), razão pela qual é constantemente raspado na mó. Quando a amolação fica no ponto, aprovado por um leve deslizar de dedo sobre o corte afinado, o carrasco volta-se para o condenado, sobre quem faz cair os golpes da justiça.

De nada valem, neste momento, os pedidos de misericórdia do pobre-coitado (desses pedidos é que vem o nome de Largo da Misericórdia, e não de Nossa Senhora da Misericórdia, cuja igreja está ali situada).

As execuções são realizadas em série, mas seguem um ritual curioso. Os condenados são primeiramente escondidos para que o carrasco os procure enquanto a multidão vai gritando está frio, se o carrasco está longe do esconderijo, ou está quente, se chega perto, ou queimou quando descobre a vítima, logo arrastada para aplicação da pena.

Cada mutilação é tratada com cinzas para cicatrizar rapidamente. As partes decepadas são recolhidas uma a uma, lavadas em água e sal grosso para a retirada do sangue e ali mesmo, diante dos olhos do público, ardente de crueldade, são trituradas numa máquina de moer carne para fazer chouriço.

Dizem as célebres más línguas de Cidadilha que o chouriço é servido aos mendigos e miseráveis que formam a maioria da população da cidade. Mas poucas são as pessoas de bom senso – apesar de serem poucas as pessoas de bom senso em Cidadilha – que acreditam nessa versão tétrica.

Por via das dúvidas, muita gente evita comer do conhecido doce de chouriço, uma das iguarias típicas da culinária da cidade-ilha, cuja receita é preciosidade da terra: “Juntam-se, numa gamela de pau, com farinha de mandioca peneirada, erva-doce, pimenta-do-reino (bem pilada em almofariz), gengibre pisado com cravo esmagado, castanha assada de caju (bem seca), gergelim a gosto. Passa-se tudo numa peneira de fibras de palha. Faz-se o mel da rapadura, esfria-se e mistura-se no fogo brando com sangue de porco, até ferver, mexendo-se com colher de pau para não encaroçar. Depois de bem fervido em panela de barro (panela de barro das paneleiras de Cidadilha é indispensável), coa-se e adiciona-se à massa de farinha e de temperos. Depois é só despejar devagar a banha derretida de porco com as sobras moídas das execuções, mexendo-se sem parar em fogo esperto, para que a mistura fique perfeita. O chouriço só está no ponto de tirar quando se vai despregando do fundo da panela, que deve ficar limpo. Demora duas horas para esfriar. Finalmente, recobre-se com passas e frutas cristalizadas (os mais requintados acrescentam como enfeites galhinhos floridos de bem-me-quer e malmequer), devendo ser servido frio e acompanhado de farinha aromatizada.”

É manjar dos deuses, garantem os entendidos.

 

O Bosque da Solidão

 

Por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

Junto ao Largo da Misericórdia tem um bosque que se chama Solidão. É um recanto balsâmico, com árvores centenárias cujas sombras convidam ao repouso e à vadia filosofia. No entanto, nele não se vê viv’alma. Dir-se-ia que não passa de uma coroa verdejante ornamentando a acrópole de Cidadilha.  

Embora normalmente silencioso, o bosque tem momentos de agitação. É quando se verificam as apresentações das bandas dos casaqueiros, no coreto que ali existe.

Os casaqueiros são assim chamados porque vestem, sobre o peito nu, casacas de pontas compridas que tocam os joelhos. Todos cantam e dançam ao som de tambores e chocalhos rudimentares.

O canto, de sentido indecifrável, é aparentemente formado por um só refrão, repetido exaustivamente. O que torna a cantiga mais estranha é o dialeto cab’chaba em que é cantada. As palavras pronunciadas nesse dialeto soam como grãos de milho triturados nos dentes de cavalos, o que torna difícil o seu entendimento.

A apresentação dos casaqueiros só termina quando soam dois ou três apitos disparados pelo capitão da banda, a cujo comando os comandados emudecem e se retiram em silêncio para onde vieram, um lugar que ninguém sabe onde fica, voltando o bosque à sua tranquilidade habitual.

Mas, além da solidão em que adormece, há no bosque algo muito particular. É uma gruta na parte inferior do barranco em que o bosque se situa, ali encaixada como um sovaco sujo.

Conta-se – mas quem conta talvez não saiba o que diz – que a gruta é a boca de um túnel que se descaminha pelo interior das montanhas que cercam a cidade-ilha, até desembocar numa saída de geografia variável, movediça como a foz de um rio movediço. 

Em que ponto fica a saída não se sabe, porque ninguém até hoje foi capaz de varar o bafo cavernoso da entrada e alcançar a luz no fim do túnel. E quem se aventurou à tentativa pereceu em meio a vômitos e diarreias provocadas pela morrinha da gruta. É um miasma tão pesado e repulsivo que os que morrem desse mal têm que ser enterrados no dobro dos sete palmos tradicionais de terra, para que o mau cheiro dos seus corpos não extravase sepultura afora.

Apesar disso – é duro dizer – há em Cidadilha setas indicativas que guiam os turistas para visitar a gruta. E os que assim se deixam levar acabam vítimas do mal cavernoso só pelo fato de haverem chegado perto da entrada fétida, e ainda por cima, ao começarem a botar os bofes para fora, são brindados pelos moradores da redondeza com esta pergunta galhofeira:

Sarapico, pico, pico,

Quem te deu tamanho bico?

 

 

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