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Cidade dos escritores

 

São José do Calçado é o município do Estado com maior

número de poetas e escritores por metro quadrado

 

Alessandro de Paula

 

SÃO JOSÉ DO CALÇADO - Andar pelas ruas e cruzar com poetas e cronistas é rotina em São José do Calçado, município que saiu na edição brasileira do "Guiness Book", o "Livro dos Recordes", como o que tem o maior número de escritores e poetas por metro quadrado.

 

Com 11 mil habitantes, a cidade apresenta em torno de 110 escritores, alguns famosos mundialmente, como Geir Campos, e outros conhecidos apenas na região. 

 

Há ainda figuras importantes no cenário artístico e político, mas sempre com um pé na literatura, como o ex-ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST), José Carlos da Fonseca, e o ex-governador Cristiano Dias Lopes.

 

A tradição na arte literária fez com que São José do Calçado criasse uma das primeiras Academias de Letras do Estado, fundada em 1991. Para o presente da Academia Calçadense de Letras, Edson Lobo Teixeira, de 47 anos, a beleza da cidade e o clima estimulam a literatura.

 

"A arte literária, na minha opinião, tem a ver com o ambiente e acho que essas montanhas que circundam a cidade, o clima, esse ar diferente, poético, contaminam o ambiente", justifica.

Quem analisa o município de fora vê um motivo menos poético para explicar o número de escritores. O presidente da Academia Espírito-Santense de Letras, Francisco Aurélio Ribeiro, acredita que a ligação de Calçado com o Rio de Janeiro, desde a época em que a cidade carioca era a capital do País, reforçou a tradição literária.

"Realmente a tradição literária de Calçado é reconhecida em todo o Estado. De lá saíram escritores conhecidos nacionalmente e até fora do País", lembra.

A poeta e professora Regina Coelho, 55, defende a dedicação e o estímulo dos professores. Com dois livros publicados, ela ganhou o gosto pela escrita no primário, por incentivo de sua professora. "Ela me comparou com Cecília Meirelles. Aquilo me estimulou", diz.

Apesar da tradição literária, poucos escritores vivem de suas obras. Edson Lobo explica que praticamente todos têm sua renda principal em outras profissões. São professores, advogados, entre outros, que dedicam um tempo à literatura e financiam seus livros.

Nem todos os escritores têm livros publicados. Boa parte escreve crônicas e poesias em jornais da região ou na internet, como a poeta Alcy Mello da Silva, 75, que escreve há 32 anos.

 

"Anoto tudo, até frases de placa de caminhão. Passo para um caderno as coisas que vou vendo e quando mais inspirada, escrevo", conta.

 

 

Procura por quatro imortais

 

A Academia Calçadense de Letras pretende preencher em 2008 seu rol de imortais depois que quatro cadeiras ficam vagas com a morte de personagens ilustres, como o ex-ministro do Tribunal Superior do Trabalho, José Carlos da Fonseca, morto em outubro deste ano.

 

Completam a lista de personalidades calçadenses mortos recentemente o ex-governador Cristiano Dias Lopes Filho, o promotor e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Milton Teixeira Garcia e o advogado e professor Lourismário Vieira de Rezende.

 

A Academia tem 40 membros efetivos, que por regra têm que ser nascidos em Calçado, e 40 membros correspondentes. A escolha é feita por indicação de um membro e passa por avaliação e eleição dos demais componentes.

 

Criada em 1991, a Academia começou a ser idealizada ainda mais cedo. Quatro escritores - Joanna D'Augustini, Edson Lobo Teixeira, Florisbela Poubel Soares e Nádia Teixeira de Rezende - resolveram publicar um livro em conjunto.

 

"Esse livro surgiu a partir de um sonho que tive. Contei para Edson. Dona Edna, minha professora de Português, também apoiou. Joanna juntou-se a nós e lançamos a coletânea em 1986", conta Florisbela.

 

Depois do lançamento da obra "Nós quatro", os autores continuaram a se reunir e outros foram se ajuntando ao grupo, surgindo o que mais tarde seria a Academia.

 

Apesar de tradicional, a instituição ainda não tem sede própria, situação que deverá mudar em breve. A prefeitura adquiriu o prédio do antigo cinema, que será reformado. No imóvel funcionará, além da sede da Academia, o teatro Darlene Glória e o Museu de Calçado.

 

A academia tem papel fundamental no surgimento de novos escritores, realizando concursos de poesias com alunos de escolas públicas. Por ano, são lançados em média dois livros.

 

 

Reconhecimento nacional

 

A tradição literária de São José do Calçado não é recente e tem raízes espalhadas em importantes movimentos artísticos do País. O poeta Geir Nuffer Campos, por exemplo, que nasceu no município em 1924, foi um dos representantes da Geração de 45, que inclui artistas como Clarice Lispector, Graciliano Ramos e Mário de Andrade.

 

 

Sobre Geir Campos, o poeta Manuel Bandeira escreveu que era "um habilíssimo artista". E Alfredo Bosi, um dos mais importantes críticos do País, o definiu como "um dos virtuoses de sua geração".

 

 

Filho de Nair Nuffer, professora, e Getúlio Campos, dentista, Geir foi piloto da Marinha Mercante e ex-combatente civil na Segunda Guerra Mundial.

 

 

Também foi tradutor e jornalista. Seu primeiro livro de poemas foi "Rosa dos rumos", de 1950. Curiosamente, ele é também o compositor dos versos do hino do Distrito Federal. Morreu em 8 de maio de 1999, em Niterói (RJ).

 

 

Quem também nasceu em São José do Calçado e cada vez mais se destaca no cenário literário é o professor e escritor Pedro José Nunes. Um de seus livros, "Vilarejo e outras histórias", já foi bibliografia obrigatória do vestibular da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

 

 

Em entrevistas, ele sempre destaca a influência que São José do Calçado tem em sua obra.

 

 

DEPOIMENTOS

 

"Minha professora me incentivou", Regina Coelho, 55

"Descobri na escola, ainda no primário, a facilidade na escrita. Fazia redações e meus professores

me elogiavam. Uma professora me comparou com Cecília Meirelles. Senti-me poderosa

e estimulada a escrever mais. Atuo em vários temas, principalmente crônicas e poesias.

Meu primeiro livro foi lançado com muita dificuldade.

Não tinha condições e consegui lançá-lo com doações de ex-professores e colegas de colégio.

Não hora e nem local para escrever. Às vezes, sentada no banco da praça,

tenho uma inspiração e levanto com dois poemas prontos."

 

"A natureza me inspira", Joanna D"Augustini, 79

"Escrevo muito sobre a família. Neste meu último livro publicado, "A outra face", falo de coisas

da minha vida, desde a juventude até os tempos atuais. Já sou bisavó.

Depois de Deus, meu marido é meu grande incentivador. Gosto da natureza, ela me inspira.

Também gosto de pintura, minha casa está cheia de quadros meus.

Já tenho seis livros publicados e mais dois livros prontos para ser publicados.

Pretendo lançar um em 2008 e outro em 2009. Gosto de usar o computador,

comprei um novinho. Facilita a vida do escritor. A máquina de escrever está guardada."

 

"Em vez de chorar, escrevo", Maria Dolores Pimentel de Rezende, 55

"Sou apaixonada pela vida, pelas pessoas. Não sei chorar. Em vez de chorar, escrevo, sorrio.

Aliás, a arma que utilizo para enfrentar a vida é o sorriso. Faço crônicas, poesias e escrevo para jornais daqui da cidade e de Bom Jesus do Itabapoana (RJ).

As pessoas costumam gostar. Uma de minhas poesias foi escolhida entre as 100 melhores do País

em um concurso de que participei. Também pinto, adoro o nu artístico. Desenhar pessoas é mais

prazeroso do que árvores. Meu principal incentivador é meu filho.

Estou com dois livros no forno, prontinhos para serem publicados e pretendo fazê-lo em 2008".

 


A Tribuna, Vitória, ES - Domingo, 30.12.2007, página 19

 

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