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Auto do túmulo de Anchieta: uma farsa meio à moda de Gil Vicente

(texto integral)

 

Luiz Guilherme Santos Neves

 

 

 

Em 1609, o padre José de Anchieta, falecido na aldeia de Reritiba, hoje cidade de Anchieta, teve seu corpo removido no ombro de índios para a vila de Vitória, onde foi sepultado num túmulo na igreja de São Tiago, hoje palácio Anchieta. 

 

Logo depois, seus despojos foram retirados do túmulo e enviados para a Bahia. No Espírito Santo ficaria apenas uma tíbia, ainda conservada num estojo no museu da igreja de Nossa Senhora da Assunção, fundada pelos jesuítas em Anchieta.  Desde então o túmulo do beato manteve-se vazio, mas conservou sua tradição de monumento histórico, patrimônio cultural do Estado do Espírito Santo.

 

Este auto tem como inspiração o nobre túmulo de Anchieta, embora tratado com um toque de farsa amena e risonha. Mas eu diria que também com um toque de carinho, sendo, pois, uma farsa amorável.

                                         

 

Luiz Guilherme Santos Neves

(Vitória, 18 de outubro de 2005)

 

 

RESUMO DO AUTO

 

O auto parte da divulgação de um edital para interessados em serem sepultados no túmulo de Anchieta. Os candidatos são chamados a apresentar currículo para avaliação por uma Comissão de Notáveis, cujos trabalhos são coordenados por um dos participantes da farsa, a Cidade de Vitória, no papel de mestra de cerimônias.

 

A Comissão de Notáveis é constituída de três membros – Maria Ortiz, Mestre Álvaro e frei Pedro Palácios – e a farsa se desenrola em clima lúdico, com a participação dos candidatos ao sepultamento no túmulo do Beato. É encenação para ser feita em praça pública.

 

 

TEXTO DA FARSA

 

Cidade de Vitória (CV), entrando em cena e dirigindo-se ao público:

 

Eu sou a Cidade de Vitória e vou ler um edital para conhecimento geral.

(Lê) Saibam os que o presente edital ouvirem ou dele tomarem conhecimento que estão abertas as inscrições para quem quiser ser sepultado no túmulo de Anchieta, no palácio do mesmo nome. Como o túmulo está vazio há vários séculos, tem vaga para muitos candidatos, desde que sejam dignos e decentes. Todos os interessados devem apresentar currículo para ser julgado por uma Comissão de Notáveis. Os currículos deverão conter nome, qualificação do candidato e indicação das virtudes com que se candidata ao sepultamento, além de firma reconhecida. Tenho dito!

   

(Nesse ínterim, entra a Comissão de Notáveis)

 

Mestre Álvaro (MA): Senhora digníssima Cidade de Vitória, chegaram os que eram esperados!

 

CV: Ainda bem, meu admirável Mestre Álvaro. Cheguei a pensar que a Comissão de Notáveis não viria para o julgamento, porque o trabalho não vai ser remunerado!

 

Maria Ortiz (MO): Não dá para descolar uma ajudazinha de custo? Pelo menos meio salário mínimo... 

 

CV: Impossível, minha querida e gloriosa Maria Ortiz.

 

Frei Pedro Palácios (FP): Nem que fosse a metade da metade de um salário mínimo ou até uma pobre cestinha básica?

 

CV: Negativo, meu respeitável e piedoso frei Pedro Palácios! Os tempos estão difíceis, os cofres da cidade andam vazios.

 

MO: Será que foram raspados?

 

CV: Nada disso, prezada Maria Ortiz. É que são muitas as despesas com as obras públicas, com ações sociais, com trios elétricos e carnaval fora de época... Para pagar ajuda de custo a esta comissão de notáveis seria necessário aumentar o Imposto sobre Serviços, o Imposto sobre Transmissão de Imóveis, o IPTU, as taxas de iluminação e de limpeza pública... e por aí afora.

 

FP: E o povo não aguenta mais aumento de imposto...

 

CV: Isso mesmo, boníssimo frei Pedro. No tempo em que o senhor vivia no alto da penha, a coisa era diferente. Hoje, a carga tributária no Brasil é esmagadora. Não podemos aumentar seu peso por causa de um concurso para escolher quem vai para o túmulo de Anchieta. Apesar da seriedade do concurso, é claro, e de sua importância histórica. Afinal, trata-se de dividir o espaço interno de um monumento cultural com pessoas tão dignas quanto o beato Anchieta.

 

MO: Só que pagar jeton à Comissão de Notáveis está fora de cogitação...

 

CV: Infelizmente está, ilustre Maria Ortiz.

 

MA: Se não tem mesmo jeito ...

 

FP: O que não tem remédio, remediado está...

 

MO: Vamos então ao trabalho, que os candidatos já estão chegando...

(A Comissão de Notáveis se posta num canto do palco enquanto entra o primeiro candidato, encaminhando-se na direção da CV)

 

CV: Quem sois vós ou vós quem sois?

 

Candidato: Sou o primeiro candidato e fiz questão de chegar antes dos outros. Espero que o primeiro não seja o último.

 

CV: Trouxe currículo com nome completo, estado civil, profissão, número de identidade, CPF e firma reconhecida?    

 

Candidato: "Truxe". Mas só com o nome porque estado civil não sei o que é, profissão não tenho, identidade não pude tirar por falta de certidão de nascimento e CPF nunca uso.

 

CV: Afinal, quem sois vós ou vós quem sois?

 

Candidato: Sou um modesto Sem-terra (e entrega à CV um currículo todo amassado).

 

MO (curiosa): Sem-terra de fora do Estado ou nascido aqui mesmo?

 

ST: De fora do Estado. Nasci em Rondônia, num acampamento marginal à beira da estrada... O MST me transferiu para o Espírito Santo. Já que não tenho fazenda para ocupar, quero uma sepultura para os meus ossos. 

 

FP: Seja bem-vindo à terra da padroeira Nossa Senhora da Penha!

 

MA: Terra também de Maria Ortiz, heroína capixaba!

 

MO: É por isso que a população do nosso Estado não para de crescer.  Todo mundo vem pra cá...

 

FP: Venho observando isso nos últimos anos...

 

MO: Pensam que o Espírito Santo é o eldorado, que não existem sequestros, assaltos, crimes hediondos, corrupção, roubalheira... Tem gente que chega a dizer que a nossa Capital é a ilha do mel, e que seu nome em tupiniquim é Guananira, vê se pode? Eu, por mim, sempre fui contra esse pessoal que vem de fora ...

 

MA: Os holandeses que o digam!     

 

ST: Mas eu não sou holandês, minha senhora, eu sou brasileiro. Um excluído nacional, infeliz e sofredor, mas brasileiro! Olhe o meu caso com carinho, por favor. Não estou querendo invadir fazenda, fechar estradas, acampar em repartição pública...A única coisa que quero são sete palminhos de terra onde possa cair duro.

 

CV (dirigindo-se à Comissão): Meus amigos, vamos julgar o caso do Sem-terra, analisando as razões que ele apresentou verbalmente, junto com o currículo. E enquanto a Comissão de Notáveis se prepara para votar, vou ouvir a voz do povo. (Enquanto a Comissão de Notáveis confabula entre si, a CV dirige-se ao público e pergunta): O Sem-terra vai ou não vai para o túmulo de Anchieta?

 

CV: (Em seguida, independente da resposta do público, dirige-se à Comissão): Como votaram os notáveis membros da Comissão de Notáveis?

 

FP: Aprovamos o sepultamento. O candidato é um pobre coitado que tem um sonho de morte: conseguir uma terrinha para sua sepultura. 

 

MA: Talvez seja o único pedacinho de terra que vai conseguir na vida...

 

MO: E assim mesmo para usar depois de morto...

 

CV: A votação foi unânime?

 

Comissão (em coro): À unanimidade!

 

CV: Parabéns à Comissão. (A Comissão se cumprimenta à moda de jogadores de vôlei ). Parabéns também ao Sem-terra, que agora já tem onde cair duro.

 

CV (enquanto o Sem-terra se retira esfregando as mãos): Que se apresente o segundo candidato (Entra uma garota de programa rodando uma bolsinha).

 

CV: Quem sois vós ou vós quem sois?

 

GP: Sou uma garota de programa...

 

CV: Trouxe o currículo?

 

GP: Aqui está, madame! (Entrega o currículo à CV) 

 

CV (lê em silêncio e fala): Não precisava ser tão informativo...

 

GP: Foi um advogado meu amigo que escreveu pra mim. Ele disse que todo currículo deve ter muita informação para impressionar as pessoas.

 

CV (passando o currículo a Frei Pedro): Mas não precisava tanto detalhe, nem citar nomes de clientes. O julgamento, porém, cabe à Comissão de Notáveis...

 

FP: Não tenho interesse em examinar este currículo. Minha decisão já está tomada: a candidata é uma pecadora, não pode ser enterrada no túmulo do Beato.    

 

MO: Concordo com frei Pedro Palácios. É necessário zelar pela moral e pelos bons costumes.

 

GP: Gente, os tempos estão duros e terríveis! Pensam vocês, isto é, os senhores, que é fácil rodar bolsinha pelas ruas? O mercado está muito competitivo.

 

MA: A jovem tem toda razão. Nada de julgamentos precipitados, meus amigos, sejamos compreensivos. É preciso ver as coisas do alto, como eu sempre vejo (enquanto fala, GP se aproxima dele e começa a afagá-lo, o que requer a intervenção de CV).

 

MO: É nisso que dá ser tolerante (e aponta para a cena entre GP e MA) Vejam que escândalo!

 

CV (puxando GP para longe do MA): É proibido quebrar o decoro público.

 

FP: Eu por mim não mudo o meu voto. Seria uma falta de respeito com Anchieta se esta prostituta fosse sepultada no seu túmulo. Uma pecadora junto de um santo é um deboche!

 

MO: Estou de acordo com frei Pedro. Decência, respeito, dignidade é o que precisamos em nosso Estado. 

 

CV (voltando-se para o público): Estamos diante de um impasse: temos dois votos a favor da candidata e um contra. O povo vota a favor ou vota contra a sua ida para o túmulo?

 

MO (intervindo): Pouco importa o voto do povo. A Comissão de Notáveis é quem decide. E a candidata foi recusada por dois votos contra um. (Dirigindo-se à candidata): Pode ir baixar em outro terreiro.

 

FP: Vai rodar bolsinha longe de mim!

 

(GP se retira cabisbaixa).

 

MA (inconformado): De quem é a vez agora?

(Entra um novo candidato.)

 

CV: Quem sois vós ou vós quem sois?

 

P: Sou um político estadual. Na eleição passada consegui mais de quinhentos mil votos. 

 

CV: Cadê o seu currículo?

(O político abre uma pasta e tira um maço de papéis.)

 

CV: Toda esta bacalhoada é o seu currículo? 

 

P: Bacalhoada não! Uma bela folha de serviços prestados ao meu estado. Eu já dirigi até a Caixa Econômica em Brasília.

 

CV: Quem vai analisar sua folha de serviços é a Comissão de Notáveis (entrega a pasta a MA).

 

P: Espero que os membros da Comissão tenham sensibilidade política... Sem política não se faz nada neste país. A política é a arte da vida.

 

FP: Arte da vida? Nunca ouvi besteira tão grande!

 

MO (avançando e retirando a pasta das mãos de MA): Não gosto de políticos. São todos uns aproveitadores, uns calhordas. Sabe quem defendeu a vila de Vitória contra a invasão holandesa? 

 

MA (aborrecido) Todos sabemos que foi a senhora...

 

MO: Eu e o povo da vila. Fomos nós que enfrentamos o inimigo com a cara e a coragem, na ladeira do Pelourinho. A ladeira virou escadaria com meu nome. Na hora da luta contra os holandeses não apareceu nenhum político para se juntar a nós. São uns bandalhos. Ó aqui pra eles (dá uma banana).

 

FP: Minha querida Maria Ortiz, você se esqueceu de citar frei Manoel do Espírito Santo. Ele também defendeu Vitória contra os invasores.

 

MO: É verdade, frei Pedro Palácios. Ele tocou o sino da matriz para reunir os combatentes. Perdoe o meu esquecimento.

 

MA: Nem por isso devemos deixar de examinar o currículo do candidato. Como eu costumo dizer, não vamos fazer julgamentos precipitados. É preciso ...

 

MO (completando a frase) ... ver as coisas do alto... Sua frase já está mais do que surrada, Mestre Álvaro. Muda o disco. 

 

FP: Chamemos logo outro candidato.

 

P: É possível uma injustiça dessas?

 

CV: Calma, senhores julgadores. Vamos decidir primeiro o caso do político. (E voltando-se para o público): Ele vai ou não vai para o túmulo de Anchieta? (Depois da resposta do público, CV se dirige à Comissão de Notáveis). E como votam os doutos membros da Comissão de Notáveis?

 

MO: Eu voto contra.

 

FP: Eu também.

 

MA: Eu me abstenho. Não é justo que se ignore o currículo que nos foi apresentado.  

 

CV: Rejeitada a pretensão do político por dois votos e uma abstenção.

 

P. (retirando-se desolado): Vou me queixar ao governador do Estado. 

 

CV: Que venha outro candidato! (Entra um magistrado). Quem sois vós ou vós quem sois?

 

M: Quem sois vós ou vós quem sois? Isso é pergunta que se me faça? Eu sou um magistrado, um homem da lei. Não dá para ver pelo meu porte?

 

CV: Com um pouco de atenção até que dá... Trouxe o currículo?

 

M: Aqui está (entrega a CV um rolo de papel amarrado com uma fita vermelha. CV tira a fita, desenrola o canudo, dá uma espiadela e passa o currículo para MA).

 

M (impertinente): A senhora não vai avaliar meus títulos?.

 

CV: Quem trata disso é a Comissão de Notáveis.

 

M (insistente): Mas a senhora não vai dizer nada a meu favor, nem uma palavrinha de recomendação? Afinal, eu sou um magistrado.

 

CV: Vê se Vossa Excelência me entende porque vou falar em língua de juiz: o foro competente para o julgamento do seu currículo é o da Comissão de Notáveis.

 

MO (interferindo): Vossa Excelência, digno magistrado, está em boas mãos. Somos tão imparciais quanto um tribunal!

 

M: É isso que me preocupa.

 

MA: Sua preocupação é infundada. Se Vossa Excelência merecer um lugar no túmulo de Anchieta, seu direito será deferido.

 

FP: Fique tranquilo, meu filho.

 

M: Não me chame de filho. Me chame de Excelência.

 

FP (corrigindo-se): Fique tranquilo, Excelência. Nosso tribunal não quer prejudicar ninguém. Para nós, todas as pessoas têm direitos iguais. Até mesmo os magistrados...

 

M: E se eu me sentir prejudicado posso recorrer da decisão?

 

CV: As decisões da Comissão de Notáveis são irrecorríveis...

 

M. Mas isso fere a Constituição.

 

MO: Que Constituição, mané Constituição... A toda hora a constituição é violentada, desrespeitada, esfrangalhada... Vamos logo ao julgamento.

 

(Enquanto a CN examina o currículo do M e confabula entre si, CV dirige-se ao público): Com toda a isenção possível, o magistrado vai ou não vai para o túmulo de Anchieta?

 

MA (falando em nome da Comissão e dirigindo-se a M, depois de analisarem detidamente o currículo): Lamento informar a Vossa Excelência que o seu currículo não foi aprovado. Tem umas coisinhas aqui que são meio desfavoráveis.

 

M: Que coisinhas?

 

MO: Sentenças estranhas, privilégios exagerados, emprego de parentes nos cartórios...

 

M: Ninharias, miudezas. Nada disso fere a lei. 

 

FP: Não fere a lei, mas ofende a moral...

 

MO (completando): A decisão foi prolatada e já passou em julgado – Negado ao magistrado o sepultamento no túmulo de Anchieta! 

 

FP: E sem direito a recurso.

 

M (saindo aborrecido e reclamando com veemência): É uma vergonha... Tive um julgamento parcial. Vou procurar os meus direitos... QUERO JUSTIÇA!

 

FP (gritando para o M): Só espero que Vossa Excelência não vá se queixar ao bispo...

 

CV: Que se apresente o próximo candidato...

(Entra um traficante)

 

CV: Quem sois vós ou vós quem sois?

 

T: Sou um traficante...

 

MO: Traficante? Mas que petulância! Este tipo está em toda parte: nos colégios, na política, no governo. Agora aparece aqui em praça pública!

 

MA: Com a cara mais descarada do mundo...

 

FP: É um absurdo um bandido querer ir para o túmulo de Anchieta..

 

MO: Cadê a polícia que não bota a mão neste sujeito?

 

MA: Fora com este canalha!

 

MO: Crápula social, bandido...

 

T: Os senhores me respeitem!

 

FP: Bandido, crápula social...

 

MA: Que entre outro candidato...

 

T (retirando-se aos gritos): Isso não vai ficar desse jeito... Esta comissão não perde por esperar... Minhas relações de amizade são muito fortes, sou capaz de tudo, compro todo mundo. EU TENHO A FORÇA!

 

CV (indiferente às ameaças de T): Quem é o próximo? (entra mais um candidato, que chega trazendo um revólver na mão): Quem sois vós ou vos que sois?

 

DP: Sou um delegado de polícia (aponta o revólver para CV, como se fosse um cartão de apresentação)

 

CV: Vire este trabuco pra lá, delegado. O senhor tinha que apontar o  revólver para o traficante que acabou de sair. (O delegado vira o revólver para a Comissão de Notáveis).

 

MO: Para nós, não, delegado. Vire a arma para o povo. Ele é que está acostumado a levar tiro. 

 

MA: Era só o que faltava: depois de um bandido, um delegado de polícia!

 

FP: Até hoje não sei a diferença entre um delegado e um bandido.

 

DP (exaltando-se e sacando o revólver que havia colocado no coldre): Não me ofenda, senhor frade. Eu sou uma “otoridade”.

 

MO: (interferindo em defesa do frei): Calma, delegado, muita calma! Frei Pedro é um franciscano ingênuo. Não dê importância às coisas que ele diz.

 

DP: (acalmando-se e recolhendo a arma): Desta vez, passa. Mas não vou tolerar outro desacato à minha pessoa.

 

CV: Tudo bem, delegado, vamos ao que interessa: o senhor trouxe o seu currículo?

 

DP: Será que um defensor da lei, como eu, precisa trazer currículo? 

 

CV: Precisa sim, delegado. O edital é claro quando diz que todos os candidatos – ouça bem, delegado – TODOS OS CANDIDATOS devem apresentar currículo para ser julgado por uma Comissão de Notáveis.

 

FP: E diz também que os currículos têm de informar as virtudes do candidato...

 

MA (falando para o público): Duvido que este aí tenha alguma virtude...

 

DP: O que foi que o senhor disse?

 

MA: Nada delegado. Fiz apenas um comentário sobre a altitude em que eu vivo. Lá do alto onde passo meus dias dá até para prever o tempo. O senhor sabia que uma das minhas virtudes é prever o tempo? 

 

MO: Quando o Mestre Álvaro põe na cabeça um chapéu de nuvens é sinal de que vai chover...

 

FP: Pelo menos é o que o povo antigamente dizia.

 

DP: Eu só quero ver onde isso tudo vai dar...

 

CV: Voltemos à vaca fria, minha gente! (dirigindo-se ao delegado). Se o senhor não trouxe o currículo não pode pleitear vaga no túmulo de Anchieta.

 

DP: É isso o que acontece quando um elemento não é tratado como merece. Voltam as costas para ele.

 

MA: Não se trata de voltar as costas, delegado.

 

MO (falando para o povo): Voltar as costas para um delegado é sempre muito perigoso...

 

DP. Não me desacatem, não me desacatem...

 

CV: A questão, delegado, é que o edital é claro e tem que ser obedecido como se fosse uma lei.

 

DP: Se a polícia fosse obedecer à lei não haveria combate ao crime nem organizado, nem desorganizado. A sociedade viraria de pernas para o ar. 

 

CV: Mas aqui é diferente, delegado. Temos de cumprir as normas. Quando o senhor trouxer o currículo, vamos saber se pode ou não pode ir para o túmulo de Anchieta. Agora, por favor, queira nos dar licença que vamos atender outro candidato.

 

DP (reagindo e sacando de novo o revólver): De jeito nenhum! Não vou embora de rabo entre as pernas. Ninguém vai me tirar o direito de ser enterrado no túmulo de Anchieta. Se não for atendido em minha pretensão, tem careta aqui que vai levar chumbo grosso no umbigo.

 

CV: Calma, delegado, que que é isso?

 

MA: Lembre-se que o senhor é uma “otoridade”. Comporte-se como “otoridade”.

 

MO (avançando para frente do grupo): Deixa eu enfrentar este valentão de araque. Quem peitou os holandeses armados de arcabuz não tem medo de um delegadinho com revólver mixuruca.

 

DP (ameaçando com o revólver): Se a senhora se meter a besta vai ser a primeira a virar presunto.

 

FP (procurando contornar a situação): Não se precipite, meu filho. Ninguém disse que o senhor não tem direito de ser enterrado no túmulo de Anchieta. O que nós queremos é examinar seu currículo, conhecer sua folha corrida, analisar sua vida pregressa. O senhor tem vida pregressa, não tem? Aí vamos poder julgar seu caso. 

 

DP (cedendo à ponderação do frei): Está bem, senhor frade. (Recoloca o revólver no coldre). Vou pegar minha viatura e trago meu currículo amanhã.

 

CV: Amanhã não, delegado. Amanhã é ponto facultativo e a Comissão de Notáveis não vai trabalhar.

 

MA: Pernas para o ar que a Comissão não é de ferro...

 

DP: Então trago depois de amanhã. Mas quero ser atendido logo.

 

CV: Combinado, delegado (conduz o delegado gentilmente para fora de cena). Passe bem, passe muito bem!

 

MA: Que sujeitinho difícil...

 

FP: Por isso perdemos tanto tempo com ele.

 

MO: Chamemos outro candidato.

 

CV: Candidato não, candidata. Pode se aproximar, minha senhora! (Entra em cena uma socialite trazendo na mão um espelho de cabo, no qual se mira frequentemente)

  

CV: Quem sois vós ou vós quem sois?

 

S: Sou uma socialite...

 

MO: Não passa de uma dondoca...

 

CV: Trouxe currículo com as referências de praxe?

 

S: Aqui está (entrega à CV uma foto tirada de um envelope de carta)

 

CV: Mas isso não é currículo, é uma foto.

 

S: E precisa mais? Eu sou a foto, a foto sou eu, isso é o meu currículo. Veja como estou linda! Estou bombando! Estou pocando! (enquanto fala, mostra a foto aos membros da Comissão e ao público). Esta foto saiu mais de cem vezes nas colunas sociais... É a prova provada da minha importância na vida.

 

FP: A foto não preenche os requisitos de um currículo. Não tem os dados da candidata, não tem sua assinatura com firma reconhecida, fere flagrantemente as normas do edital.

 

S: Não está havendo excesso de exigência para um sepultamento num túmulo?

 

FP: A senhora se esquece que é um túmulo santificado, um patrimônio histórico valioso. As exigências têm que ser exigentíssimas..   

 

MO: Despacha logo a perua! O lugar dela é num “puleiro”.

 

MA: Senhores membros da Comissão de Notáveis, é preciso ver as coisas do alto...

 

MO: Corta esta, Mestre Álvaro...

 

FP: Maria Ortiz tem razão, meu caro Mestre. Não faz o menor sentido que uma dondoca exibida seja enterrada no túmulo de Anchieta. Eu voto contra, com currículo ou sem currículo.

 

MA: Se é assim, não vou votar contra a maioria da comissão. Já perdi um voto, não quero perder dois.  

 

S: (dirigindo-se ao público): Será que ninguém me defende? 

 

MO: Fora, perua! Fora!

 

CV (intervindo): Mas eu preciso ouvir o voto do povo...

 

MO: O povo desta vez vai ficar caladinho, como quase sempre fica. Que venha outro candidato. (Sai a socialite se olhando no espelho e entra um penetra, esbaforido).

 

P: Ufa, quase não deu para entrar...

 

CV: Quem sois vós ou vós quem sois?

 

P: Sou um penetra, verdadeira instituição nacional. Estou em todas. 

 

MA: Mas ninguém o chamou aqui.

 

P: Ninguém me chama a lugar nenhum. Eu entro sem ser chamado. Meto a cara e já estou dentro, sem sequer pedir licença. Foi o que fiz aqui.

 

MO: Mas isto é um absurdo!

 

FP (falando para o público): Os penetras querem levar vantagem em tudo...

 

P: Não é tanto assim, meu caro frei. Só vantagens inocentes... Uma boca livre aqui, uma entradinha de graça ali adiante...

 

MA: E ainda tem o descaramento de proclamar seus defeitos.

 

FP: Devia fazer um curso de catecismo para mudar o comportamento.

 

CV: E por que você veio parar aqui?

 

P: Eu vi algumas pessoas vindo e vim também. Quero ver se sobra alguma coisa pra mim. Esta é a lei do penetra.

 

MO: E você tem ideia do que estamos tratando nesta reunião?

 

P: Não faço a menor ideia.

 

MA: Estamos julgando quem vai ser enterrado num túmulo.. Este assunto lhe interessa?

 

P: Enterrado agora ou depois de morto?

 

FP: Claro que depois de morto...

 

P: De morte morrida ou de morte matada?

 

CV: Por falecimento natural...

 

P: Tem de pagar ou é de graça?

 

MO: É de graça, mas por razões de mérito.

 

P: Então me incluam entre os candidatos...

 

FP: Mas, para seu conhecimento, o candidato tem que apresentar currículo...

 

P: Já estão começando a complicar as coisas... Não há penetra que aguente tanto preconceito.

 

MA: Chega de papo furado.  

 

CV: Sabe do que mais, meu amigo: a porta da rua é serventia da casa. Queira se retirar de cena.

 

(MA e MO empurram o penetra para fora de cena, dizendo): Suma das nossas vistas. Suma! (depois que o penetra é expulso, MA e MO voltam aliviados, limpando uma mão na outra).

 

MO: Pronto, ficamos livre desse pentelho. Com o perdão da palavra, frei Pedro.

 

FP: Perdão nada. Era um pentelho mesmo.

 

CV: Que entre o candidato seguinte. (Entra uma desfiadeira de siri com uma cestinha na mão).

 

CV: Quem sois vós ou vós quem sois?

 

D: Sou uma desfiadeira de siri.

 

FP: Desfiadeira da ilha das Caieiras?

 

MA: Este frei faz cada pergunta. É só na ilha das Caieiras que tem desfiadeira  legítima, meu caro Pedro Palácios.

 

MO: O resto é imitação...   

 

MA: Tem muita gente por aí que faz casquinha de siri com bucho desfiado.

 

CV: Onde está o seu currículo?

 

D (tirando de dentro da cesta uma casquinha de siri): Meu currículo é uma casquinha de siri. Quem vai querer examiná-lo, ou melhor, quem vai querer provar o currículo?

 

FP: Provar é comigo mesmo (dirige-se para a desfiadeira e pega a casquinha de siri).

 

D: Use uma colherinha, frei Pedro... (entrega ao frei uma colherinha de plástico).

 

FP (benzendo a colherinha antes de provar a iguaria): Caramba, que está divina. Nem na cozinha do convento se faz nada parecido!

 

MO: Quero tirar também uma casquinha desta casquinha ...

 

D: Tenho outra aqui para a senhora (entrega uma segunda casquinha e outra colherinha)

 

MO (Prova a casquinha e confirma): É coisa do outro mundo!

 

MA: Se é coisa do outro mundo, já garante à desfiadeira a ida para o túmulo do Beato.

 

CV (falando para a Comissão): Quer dizer que o túmulo de Anchieta está garantido para a nossa desfiadeira?  

 

Toda a comissão: Garantidíssimo!

 

CV: Então, ao túmulo com a desfiadeira. Mas ao túmulo, com muito carinho.

 

MO (dirigindo-se ao público): As desfiadeiras são como eu: uma tradição da nossa terra. Palmas para a desfiadeira!

 

D: Muito obrigada, muito obrigada.

 

MA: Que venha outra candidata, tão boa quanto a desfiadeira!  

 

(A desfiadeira sai e entra uma paneleira trazendo uma panela de barro como se fosse um troféu).

 

CV: Quem sois vós ou vós quem sois?

 

P: Sou uma paneleira, será que não dá pra ver?

 

CV: Trouxe o currículo exigido pelo edital?

 

P: Este é o meu currículo (exibe a panela com orgulho).

 

FP (olhando de longe): Tem moqueca capixaba dentro desta panela?

 

P. Não tem mas dá pra botá...

 

FP: Boas falas, boas falas...  

 

MO: As paneleiras são como eu – tradição da nossa terra! (Dirige-se ao público e pede): Palmas para a paneleira, muitas palmas!

 

P: Com tanta saudação acabo metida a besta!

 

MA: Eu também quero homenagear a candidata. (Dirige-se para ela e beija-lhe as mãos).

 

CV: Senhores membros do Conselho de Notáveis, vamos ser mais comedidos! Os senhores formam um tribunal. Comportem-se com isenção! 

 

MO:  O tribunal está em festa diante desta candidata.

 

FP: Que Nossa Senhora da Penha a abençoe.

 

P: Amém.

 

MA: Será necessário julgar o currículo da paneleira?

 

MO: Da minha parte a resposta é não. A candidata é digna do túmulo de Anchieta, só por ser paneleira.

 

P: Muitíssimo obrigada, ilustríssima dona Maria Ortiz.

 

FP e MA (juntos) Para o túmulo, para o túmulo, digníssima paneleira...

 

CV (voltando-se para o público): A decisão está confirmada? (e de novo para a paneleira): A candidata está dispensada. Seu lugar está garantido no túmulo de Anchieta.

 

P: É sepultura perpétua ou só de temporada?

 

CV: Perpétua por toda a morte...   

 

P: Eu nunca pensei que ia ter uma sepultura perpétua!  Obrigada, bom Deus, obrigada. (E dirigindo-se à Comissão de Notáveis): Da próxima vez que voltar aqui vou trazer uma moqueca capixaba na minha panela de barro... (Retira-se feliz da vida)

 

FP: (gritando para a paneleira): Promessa é dívida, não se esqueça!  

 

CV (ainda irradiando entusiasmo): Que venha outro candidato! (Entra um mestre de banda de congo soprando um apito e com uma casaca na mão). Quem sois vós ou vós quem sois?

 

MBC: Ainda pergunta, senhora Cidade de Vitória? Eu sou mestre de banda de congo (torna a soprar o apito)

FP: Depois de uma desfiadeira e de uma paneleira, temos um mestre de congo? Estamos no céu, minha gente, junto à Senhora da Penha!

 

MO: Bem-vindo seja, senhor mestre de congo.

 

CV: Trouxe o currículo exigido pelo edital?

 

MBC: Meu currículo está aqui (mostra a casaca).

 

FP: Que belo reco-reco...

 

MA: Pelo amor de Nossa Senhora da Penha, frei Pedro... Não é reco-reco, é casaca! Olha a cabeça esculpida no cabo (pega a casaca da mão do MBC e mostra a cabeça esculpida, exibindo o instrumento também para o público).

 

MBC: Cuidado para não cair no chão.

 

MO: Só as bandas de congo do Espírito Santo têm reco-reco com cabeça esculpida...

 

MA (corrigindo Maria Ortiz): Reco-reco não, Maria Ortiz, eu já disse que é casaca. (e soletrando)  c, a – s,a – c,a! CA-SA-CA! 

 

MO: Então salve a tradicional casaca capixaba! (Pega a casaca do mestre e a ergue para o alto).

 

FP: Salve a nossa casaca por todos os séculos seculorum.

 

MA, MO e MBC (juntos): Salve, salve!

 

FP: E salve também as bandas de congo!

 

MA, MO e MBC: Salve, salve!

 

CV: Pelo visto, os doutos membros da Comissão de Notáveis aceitaram a casaca no lugar do currículo do candidato.

 

Os três membros falando juntos: Claro que aceitamos!

 

MBC: Eu me sinto lisonjeado com tão boa recepção!

 

CV: Posso considerar que o candidato vai para o túmulo de Anchieta?

 

MO: Com certeza!

 

FP: Até Anchieta gostaria desta companhia no túmulo.

 

CV: Precisa povo para aprovar a decisão?

Os três membros falando juntos:  Não precisa perder mais tempo. Nossa decisão está tomada.

 

CV: Cumpra-se a vontade da Comissão de Notáveis! (E falando em off): Por sinal, outra decisão muito sábia. (Os membros da comissão se cumprimentam entre si).

 

MBC (dirigindo-se à Comissão): Estou tão emocionado que nem sei como agradecer.

 

FP: Posso dar uma sugestão?

 

MBC: Qual é ela?

 

FP: Chame uma banda de congo para tocar neste tribunal...

 

MA, MO e CV (falando em coro): Muito bem lembrado, frei Pedro!

 

MBC: É pragora! (sopra o apito e entra uma banda de congo, de preferência uma banda de congo mirim, tocando e cantando, se possível a toada “Iaiá, você vai à Penha?”. Todos os atores passam a dançar ao som da banda. A banda toca apenas por um minuto).

 

Último personagem (que entra em cena mancando, interrompe o baticum da banda, e grita): Os senhores me dão licença, para interromper a festança? (O congo para).

 

CV: Quem sois vós ou vós quem sois?

 

Personagem: Não está me reconhecendo, nobre e gloriosa Cidade de Vitória? Eu sou o beato Anchieta.

 

Todos os atores falam: O beato! É o beato! Ele mesmo em carne e osso!

 

CV: Desculpe-me não tê-lo reconhecido, santo padre. O senhor me pareceu um pouco diferente.

 

Beato: Não tem importância. Na verdade, tive um grande trabalho para chegar até aqui, caminhando pela praia desde a cidade de Anchieta.

 

FP: Dando os famosos passos de Anchieta...

 

Beato: Que me deixaram muito cansado. Até porque tive antes de reunir todos os meus ossos, que estavam espalhados da Bahia a Portugal. E ficou faltando um osso da minha perna, guardado no museu de Anchieta.

 

FP: É por isso que o senhor está mancando?

 

Beato: Exatamente, meu bom frei Pedro. Aliás, é um prazer reencontrá-lo cheio de vida e saúde.

FP: São os bons ares da Penha.

 

Beato: Apesar da poluição?

 

FP: Nossa Senhora da Penha sopra a poluição para a praia de Itaparica. Por isso a Penha continua linda!

 

MO: E continua branca!

 

Beato: Ainda bem, ainda bem...

 

CV: Mas a que devemos a honra da sua presença, querido beato?

 

Todos os atores perguntam: É, a que devemos tamanha honra?

 

Beato: Eu venho lhes fazer um pedido: Como sou um padre sentimental, gostaria de voltar para o meu túmulo, na igreja de Santiago.  

 

FP: O santo padre ao túmulo torna...

 

CV: A igreja é hoje o palácio Anchieta.

 

MA: O nome foi dado em sua homenagem.

 

Beato: Agradeço a homenagem. Mas homenagem maior seria poder repousar ali de novo. Era um lugar tão silencioso, de terra tão fresquinha. Fui muito feliz no curto tempo em que lá estive!

 

CV: E o que vamos fazer com os candidatos já aprovados para o túmulo?

 

Beato: O túmulo é muito espaçoso, posso levá-los comigo. Vamos todos de mãos dadas, e ainda por cima rezando.

 

CV: Se esta é a sua vontade, bom padre, vou chamar os candidatos que já foram classificados (afasta-se do beato e grita em direção ao fundo da cena): Sem-terra, ô Sem-terra!  Desfiadeira?!  Paneleira ... aonde vocês estão? O padre Anchieta quer levá-los para o túmulo. (Ninguém se apresenta. CV falando para o beato): Creio, querido beato, que os candidatos aprovados desistiram do lugar que conquistaram.

 

Beato: Então o jeito é eu ir sozinho. (Começa a se retirar de cena, capengando).

 

MO (dedurando): Ei, pessoal, o mestre do congo ganhou também o direito de ir para o túmulo...

 

MA (empurrando o MBC, que resiste): Ganhou sim, é direito líquido e certo. Vai com o beato, “seu” mestre...

MO: Aproveita a boa companhia.

 

Beato (voltando em direção ao MBC, com a mão estendida): Vem comigo, meu filho.

 

MBC: Pra que tanta pressa, Beato? Fica mais um pouquinho.

 

Beato: Infelizmente não posso.   Tenho compromissos com o Reino do Céu.   (Continua de mão estendida para o MBC).

 

MBC: Mas padre, o senhor não pode ir sem o osso que ficou em Anchieta...

 

Beato: Na minha idade, um osso a mais ou a menos não faz qualquer diferença. Vem, vem...

 

MO (falando para o MBC): Deixa de enrolar o padre.

 

MA (empurrando o MBC): Que coisa mais vergonhosa. Nem parece um mestre de congo.

 

MBC: Não me empurra, por favor. Eu tenho que chefiar a banda... 

 

FP (intervindo): O mestre tem toda razão. O lugar dele é à frente do congo.

 

Beato: Já vi que tenho que ir sozinho (começa a se retirar de cena).  

 

MBC: Obrigado, boníssimo frei Pedro. Muito obrigadíssimo! (ajoelha-se diante do frei e beija as suas mãos). O senhor é tão digno quanto o próprio José de Anchieta. Já merecia até ser beato. Por isso, em seu louvor, o congo vai voltar a tocar.  (Levanta-se e dá um apito).

 

CV: (Antecipando-se ao congo e dirigindo-se ao público): Antes, porém, uma palavrinha final. Este auto está encerrado por falta de candidatos ao túmulo de Anchieta. A não ser que algum espectador queira seguir o beato. Neste caso, tenha um bom sepultamento! Caso contrário, podem ficar para ver a banda tocar. Bom proveito a todos e salve o congo do Espírito Santo! (O mestre dá outro apito e o congo volta a tocar a todo vapor, com os atores em regozijo, participando da festa.

 

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