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Aninhanha, de Pedro J. Nunes

 

Francisco Aurélio Ribeiro

 

Aninhanha, de Pedro J. Nunes (1962), foi escrito, inicialmente, com o nome de "Maria Trinta Cruzes", na década de 80, tendo sido publicado em 1992, com o nome modificado, assim como o texto. Carlos Nejar, na orelha do livro, diz que a obra "É forte, sabe gritar sombras, pedras e luz. Um ritmo poderoso (...) Aninhanha é um grito. Gritamos juntos". (1)

 

A história de Aninhanha é contada em primeira pessoa, por uma personagem protagonista, que a narra a um "senhor", que não se manifesta verbalmente, mas que é citado pelo narrador como pessoa instruída, capaz de ouvir, de argumentar, dar conselhos. Este narrador personagem anônimo de Aninhanha é uma mulher, um resto humano, que, após ter cometido um crime de infanticídio (ter matado o próprio filho após o nascimento), faz o depoimento de sua vida trágica e miserável ao delegado/juiz/médico/leitor que a ouve.

 

A narradora anônima de Aninhanha define-se como "Um mosaico mal feito" (p. 74), por isso não possui sequer a marca do nome que distingue plantas, animais e gente. Foi achada no lixo e criada por Aninhanha, uma mulher pobre, prostituta, catadora de lixo, bêbada. Vivendo na miséria, não tem infância de criança, separando garrafas, desde cedo, para vender e poder comer. O conhecimento da vida lhe chega pelo olhar. Por isso, recusa a vida que vê à sua volta. Quer escapar à prostituição e entregar-se a um homem só, sem retribuição pecuniária, mas é a própria Aninhanha que vende sua virgindade ao garrafeiro, por trinta dinheiros, como Judas, e como ele, também, se suicida, enforcando-se, pondo fim à sua vida miserável e desgraçada.

 

Aninhanha tematiza a marginalidade social da mulher pobre e negra e a opressão masculina, segundo estudo de Maria Thereza Ceotto (2). Seres humanos são iguais a animais irracionais, nesse universo de pobreza social e miséria. O espaço em que vivem é o mangue, o barraco miserável, as palafitas "úmidas e tortas", a vegetação "sombria", o lixo. As palafitas são habitadas por uma fauna humana: prostitutas doentes, loucos, homens fracos, homens-bichos, que oprimem as mulheres, subjugando-as, explorando-lhes o corpo e a força de trabalho: "o homem está sobre todas as coisas e (...) nada se pode contra as moedas: os dois se fundem na estrutura de poder que elas conhecem". (p. 57)

 

Aninhanha é um libelo contra a exploração social, a miséria, o machismo. Narrativa catártica, é uma história real, segundo depoimento do autor, mas é, sobretudo, uma extraordinária construção literária. Mesmo abordando universos e temáticas diferentes, Pedro J. Nunes constrói um diálogo intelectual com Guimarães Rosa (já citado no trabalho de Maria Thereza Ceotto), sobretudo em relação à linguagem. E é a linguagem o elemento básico da vida, da literatura e da personagem anônima, narradora de Aninhanha. É o que esta afirma: "Eu existo e tenho consciência de existir, agora sim. Completa. Um mosaico mal feito". (p. 74). Sua existência é afirmada pela própria linguagem. E este me parece ser o principal papel da Literatura, em sociedades injustamente divididas como a nossa: dar vida, linguagem, àqueles que são condenados ao silêncio, à discriminação, à marginalização. Aninhanha é o relato fiel da dor, da angústia, da opressão, da miséria. Mas também é o lugar da palavra, da liberação, da solidariedade, da construção. Um grito solitário e solidário contra a injustiça e a miséria.

 


Trecho do estudo Os pobres na literatura do Espírito Santo, por Francisco Aurélio Ribeiro, retirado do livro A literatura do Espírito Santo - uma marginalidade periférica.

 

BIBLIOGRAFIA

 

CEOTTO, Maria Thereza L. C. Aninhanha e Grande Sertão: veredas que se cruzam. Trabalho apresentado na disciplina Literatura do Espírito Santo, Mestrado em Literatura Brasileira, UFES, 95/1.

 

NUNES, Pedro J. Aninhanha. Vitória, SPDC/UFES, 1992. 74 p.

 

 

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