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LEITURA

 

 

 

 


 

 

Enfim, o precipício

(sobre o livro Dédalo, de Miguel Marvilla)

 

Andréia Delmaschio

 

                                                                                  “O poeta não morreu: foi ao Inferno e voltou."

                                                                                                          (Frejat – Dulce Quental)

 

“Todas as noites o jovem pescador lançava a rede ao mar. Quando soprava o vento de terra, não apanhava nada, ou muito pouco; quando o vento soprava para a praia, os peixes subiam das profundezas e caíam na rede. Ele os vendia a bom preço no mercado”. Assim se inicia “O pescador e sua alma”, conto de Oscar Wilde em que um rapaz se apaixona por uma sereia e, para tornar-se imortal – condição para poder se unir a ela –, dispensa sua alma, recortando com uma faca, na areia da praia, a própria sombra, símbolo da ligação com o mundo dos vivos. A mesma simbologia aparece na Divina Comédia, quando Dante percebe que Virgílio não possui sombra, entendendo-o, a partir de então, como pertencente a uma outra realidade, aquela de após-vida.

 

A lembrança desses dois textos me surge em meio à leitura de Dédalo, livro do poeta capixaba Miguel Marvilla, onde também se encontra um sujeito que busca, e cuja aventura existencial se perfaz entre a vida e a morte, na experiência da ausência, da perda, do nada. Os poemas que aparecerão adiante, retirados de “Personae” – primeira parte do livro –, vão do verso livre ao soneto e são repletos de símbolos e imagens, trazendo por vezes os hipérbatos e a cuidada rima; por outras o mito, as quadras e o coloquial, numa prova da versatilidade desse autor no manejo de temas e formas.

 

“A minha alma, partida”, poema que abre essa primeira parte, anuncia já um duplo: um eu naufraga “n’um mar de pensamentos” enquanto vê afastar-se sua alma “por uma alameda de sombras inclementes”. Ele é ameaçado por uma cisão que, não obstante, parece saber impossível: a “alma” que segue envereda também pelo caminho das lembranças – “inventadas” embora – que é o destino do próprio sujeito, além de que inicia o texto uma sugestão de feminino – “a minha alma, partida”, parte que ameaça se conjugar, no último verso, com “um homem ido” (grifos meus), formando uma unidade – ainda que temporária – que é, supostamente, o tesouro; melhor se diz: o ouro em pó reluzente em busca do qual o sujeito segue e, ao mesmo tempo, o cerne da obra e o que permite a ela acontecer.

 

Assim como o sujeito é duplicado, o poema “Eu me fiz ao léu” é todo fragmentado em dísticos. Ele dispensa um tradicional componente externo da personalidade – o chapéu –, mais a simbólica sombra referida anteriormente, para mergulhar à procura da própria criação (apropriadamente dúbia): “Eu me fiz ao léu,/ sem sombra ou chapéu”. Há nesse poema, entre parênteses, uns versos que lembram aqueles populares, de que as crianças gostam: “a gente é fraco/ cai no buraco/ o buraco é fundo/ acabou-se o mundo”. Os versos de Marvilla entoam: “(Mar é muito grande:/ some a gente antes/ que se diga ‘amém,/ Jesus’)”. É patente o medo de uma possível aproximação do mar – as plagas do inconsciente? A opção, ao contrário, é pelo rio, “ravina ou coxia”, estes não representando perigo, pela sua rasidão – razão consciente?

 

Outros elementos ainda permeiam o texto como referências à parcela inconsciente: “o escuro”, as “florestas”, “recados ou pistas”, “lembranças”, são todos caminhos obscuros que ameaçam com a possibilidade de um encontro inusitado. Curioso é que, no que parece ser a fuga do próprio inconsciente, o sujeito termina entregue a um turbilhão que também o guia, fazendo-o seguir... inconscientemente, jamais abandonando a aventura em que se lança.

 

Embora “só tomando o rumo do que não é escuro”, escolhendo, aparentemente, “o esperado”, “o certo”, ainda assim o sujeito estará agindo como que impulsionado por uma força incontrolável. Fugindo do inconsciente, no receio de flagrar-se, é exatamente por ele que é guiado. Ao final, ele se reconhece “de volta ao princípio,/ fechando este círculo,/ um desconhecido/ para o próprio umbigo”, mas que, de qualquer forma, cumpriu um ciclo, se fez, ainda que “ao léu”, ou seja, pelo caminho da fragmentação.

 

O verso que intitula o poema “Tudo era por minha causa” reproduz um reclame infantil – “Tudo é por minha causa!” – geralmente carregado de um sentimento de culpa e de revolta contra ela. O verso abre as três primeiras estrofes, repetindo-se com a mesma insistência com que a expressão costuma surgir na fala cotidiana. É como se, no início de cada estrofe, o sujeito fosse momentaneamente tomado do espírito da criança que fora um dia, travestindo-se juntamente o próprio discurso, que já no segundo verso de cada estrofe volta a representar a fala adulta e culta. Há, no fim da terceira estrofe, uma quebra temporal e sensorial: “Era pra ser assim a vida inteira. / Mas eu vim em direção a este outro futuro”.

 

O tempo, a memória, a transformação desses elementos em matéria para o próprio fazer artístico podem bem representar o cerne deste poema e desta parte do livro. Juntamente com a descoberta da expressão poética, a descoberta do eu. O sujeito se liberta de um possível futuro e encaminha-se a um outro: “Eu fugi em direção a mim, destino”. Ainda que intuitiva ou inconscientemente, caminha ao seu próprio encontro através da poesia, trazendo para isso apenas as lembranças, que afinal constroem a ele e à obra: “Mas eu vim.../ um casaco apertado que mal me cobria os cotovelos”, no reconhecimento das marcas deixadas pelas perdas, pela ausência, pelo “não-sido”: “E deixarei saber de novo/ que a minha primeira namorada/ não era um porquinho-da-índia/ e se chamava Beatriz,/ mas que meu primeiro beijo/ eu até hoje não sei”.

Do mesmo modo como o sujeito do poema vai se construindo a partir de presenças e ausências, unem-se o desejo e a culpa; passado, presente e futuro: “não tenho culpa de ser culpado por estar aqui”; “agora, amanhã, levanto-me”. O texto é repleto de contradições, e delas é feito o sujeito. Mesmo sua autoafirmação:

                                                            “eu

                                                             eu

                                                             eu

                                                             eu

                                   a duas letras de Deus”

se dá graças a uma negação: “que eu seria o não-sido”, “com não-malas, não-heranças/ não-cartas de apresentação” e, curiosamente, a linha que traça em direção à divindade é descendente. Paradoxalmente, o sujeito desce em direção a Deus, por meio da experiência negativa, da ausência, da inexistência, da morte...

 

Novamente se dá a experiência da negação e da impossibilidade do total controle, que é também a experiência da morte: “... acharam que eu voltaria à tona satisfeito/ com meu cadáver fartamente irreconhecível/ este cadáver que nem escolhi”. A morte forma uma antítese à experiência do corriqueiro, infantil e cotidiano anteriormente expresso. Os advérbios que se ligam à ideia de podridão e morte exprimem também abundância: “meu cadáver fartamente irreconhecível/ sobejamente podre” (grifos meus).

 

Pela força que têm essas últimas imagens, aquele que ressurge é muito mais o resultado da danação, da morte e da negação – experiência verdadeiramente positiva na sua negatividade –, que daquele cotidiano expresso anteriormente pelas imagens feitas do vazio típico daquilo que flui, como “uns pedaços de sombra”, “a imensidão das horas”, “um tempo de estar escondido em lacunas”. A experiência negativa é densa e mais significativa para a construção do ser que a corriqueira leveza.

 

O mesmo tempo – implacável mensageiro diário da destruição – surge mais adiante como “O cupim” que “mergulha em meu livro de Fernando Pessoa/ até o fundo de mim”. A ligação com a poesia – e o pensar – daquele autor se mostra íntima a ponto de o substantivo situar-se dubiamente entre dois possessivos: “meu livro de Fernando Pessoa” (grifos meus), formalizando a relação autor-leitor em torno da obra.

 

O tempo-cupim que atravessa aquela obra (de Pessoa) e aquele autor encontra-se, no presente, com a sensibilidade do leitor-sujeito do poema de Marvilla, que dá início à nova relação, agora como autor. Nesse poema realiza-se uma inusitada reversão de sentidos, porque se anuncia que tudo aquilo que o tempo destrói, paradoxalmente, não tem fim, repetindo-se em outro exemplar: “O cupim,/ em sua fome,/ destrói/ a celulose e o homem,/ a cola, o corante,/ o amante,/ e não tem fim”.

 

A enumeração realizada ali induz a englobar todos esses elementos – tão diversos entre si –, juntamente com o tempo, como sujeitos da negação final. Apenas ele – o sujeito do poema – e Pessoa, têm fim, porque só a persona é irrepetível, una – o nome do poeta português reforçando essa relação. Através da imagem do cupim, “que não decifra, mas devora”, perverte-se o senso comum e o tempo agora doa imortalidade ao vulgar, ao serial, destruindo, redundantemente, a única coisa que por si mesma não se poderá reproduzir, a que jamais terá réplica.

 

O sujeito segue seu caminho por entre consciência e inconsciência, passado e presente, vida e morte, sem a intenção de solucionar qualquer dos pares de oposição, trazendo-os, ao contrário, conjuntamente para a formação de uma persona complexa. Como um Dédalo que, envolto num labiríntico cotidiano massacrante, busca “um adorno que seja para os (seus) dias” através do voo poético – “o mais leve movimento” – , ameaçado, embora, com o único futuro certo – a morte –, e por esse mesmo destino sendo tentado ao investimento na construção de si: “quando os silêncios de onde nunca estive/... / me dizem o verbo morrer/ ... / arranca lascas/ da estrutura que me protege e embala”. A certeza do fim impõe uma realização qualquer, a necessidade de salvar aquele momento dando-lhe uma significação: “Abro claros no turvo e caudaloso esquecimento (...). Este instante é aqui”. É na observação do detalhe e no contraste entre opostos que inicia sua busca: “desvendo em meio à neblina um pormenor/ Cristal e ônix...”. A partir de então, esse Dédalo meio Ícaro ascende

                  “olhando (seus) sapatos pendura

                                                                 dos”.

 

O voo alçado deve mantê-lo suspenso, no exato meio-termo da significação, sem aproximá-lo demasiado do sol, o que seria, ao mesmo tempo, culminância e destruição – o cumprimento de uma etapa é sempre o seu aniquilamento – e sem arriscar a queda, que se daria “sobre o canyon”. Estão representados ali o trabalho cuidadoso com a palavra e a suspensão em que ela se mantém. “Mas, no enfim, tudo me leva ao precipício”. O verso final condensa, nos vocábulos destacados, pela aproximação sonora, o fim e o princípio, na mostra sutil de que o término surge sempre como anúncio do novo, no movimento infinito da busca.

 

ADENDO

 

A MINHA ALMA, PARTIDA

 

A minha alma, partida, vai por uma

alameda de sombras inclementes.

Eu a vejo, por vezes, na penumbra

de um soslaio – eu excessivamente este

 

que assim sou. Nos baldios de mim ‘stando

um granítico silêncio a descoberto

e um comboio de angústias, eu naufrago

nos sargaços de um mar de pensamentos

 

há muito começados e esquecidos.

A minha alma, porém, me abandonando

ao gerúndio das coisas sem recurso,

 

a minha alma, assim, segue seu curso

no rente dos escombros de lembranças

inventadas, ao largo de um homem ido.

 

 

EU ME FIZ AO LÉU

 

Eu me fiz ao léu,

sem sombra ou chapéu.

 

Onde havia mar,

Temia chegar.

 

Mar é muito grande:

some a gente antes

 

que se diga “amém,

Jesus”.) Mas, também,

 

onde rio havia,

ravina ou coxia

 

(coisas diferentes,

sem perigo e quentes),

 

eu me punha dentro

sem constrangimento.

 

Fazendo-me ao largo

dos trechos amargos;

 

fazendo-me ao norte

das coisas sem sorte;

 

só tomando o rumo

do que não escuro;

estando em mulheres

lassas, complacentes

 

(em que eu, sem ternura,

não via ventura);

 

fugindo daquelas

cheias de florestas,

 

montes de segredos

e lugares ermos,

 

a darem-se a mim

em troca de um sim;

 

evitando as margens

e toda vontade

 

que eu desconhecesse;

sem deixar bilhetes,

 

recados ou pistas,

depressa eu cumpria

 

toda geografia

ao redor de mim.

 

Assim, meu destino

foi-se construindo.

 

De volta ao princípio,

fechando este círculo,

 

um desconhecido

para o próprio umbigo,

 

que se fez ao léu,

sem sombra ou chapéu,

 

que não tentou nada

senão o esperado,

 

que só fez o certo,

agora tem tempo

 

de ir embolorando

cheio de lembranças

 

que nunca

 

 

TUDO ERA POR MINHA CAUSA

 

Tudo era por minha causa.

Até mesmo uns pedaços de sombra,

alçados à condição de varal,

Onde nos dependuramos tantas vezes

Eu (já então antigo) e Beatriz,

Beatriz e eu,

à espera de que passasse oficialmente a infância.

 

Tudo era por minha causa.

E a ninguém caberia pressentir

que eu seria o não-sido,

o deixarem-me à solta em mim,

o deflagrarem meus mortos na imensidão das horas,

às vésperas de uma vontade qualquer.

 

Tudo era por minha causa.

E houve um tempo de estar escondido em lacunas,

porque tudo em volta fosse como umrio

que cortasse um horizonte passageiro,

caudaloso e sem vaus (o horizonte, não o rio),

e era preciso que eu me protegesse.

 

Era pra ser assim a vida inteira.

Mas eu vim em direção a este outro futuro,

eu fiz essa viagem inesperada no escuro,

com não-malas,

não-heranças,

não-cartas de apresentação,

e um casaco apertado que mal me cobria os cotovelos.

Eu fugi em direção a mim, destino.

 

Agora, amanhã, levanto-me,

estúpido como todos os dias,

só para fingir preocupar-me loucamente

com as palavras que ficaram detidas

na trajetória entre o pensamento

e esta língua esferográfica,

como se eu, constrangido

numa diversidade tal de sintaxes

que frase alguma alcance,

prisioneiro voluntário do idioma,

pudesse estar fazendo falta a alguém, a algo.

 

Amanhã, levanto-me outro,

com lembranças ainda não usadas

reverberando no ar de si.

então, me deixarei ser apanhado novamente

burlando a vigilância andrajosa do bilheteiro

das tardes de circos e domingos,

com sóis sonolentos apontando em cheio

meus pecados ainda meninos.

E me deixarei saber de novo

que a minha primeira namorada

não era um porquinho-da-índia

e se chamava Beatriz,

mas que meu primeiro beijo

eu até hoje não sei

qualquer das duas gêmeas quem me dera;

e que nos fiávamos na sombra -

em cada última sombra de todo fevereiro -,

Beatriz e eu,

para protelar nossas saudades antecipadas;

e que, outro dia, eu teria inventado

não apenas um país,

mas também um passado

para nós dois, Beatriz.

 

Passado, lembranças, pensamentos, isso,

na verdade, são pontes sobre o nada

e é do que me acusam:

de não ter-me tornado senão memória.

 

Mas, ora,

senhores do júri e senhoras,

não tenho culpa de ser culpado por estar aqui

quando tantos já morreram;

sou inocente de carregar a história

de homens tão obstinadamente extintos:

eu, me defrontante comigo,

vítima de que tudo era por minha causa,

com a alma pulverizada,

adiando o cansaço por pura preguiça;

eu, outro amanhã que não o ontem adormecido;

eu,

eu,

eu,

a duas letras de Deus,

eu anoiteci,

eu também morri,

viciado em mim.

 

Por isso é que me esqueçam.

Todos os que, talvez, um dia

acharam que eu voltaria à tona, satisfeito

com meu cadáver fartamente irreconhecível,

sobejamente podre

(este cadáver que, no fundo, nem sou eu,

nem escolhi),

me deixem submerso.

 

 

O CUPIM

 

O cupim

mergulha em meu livro de Fernando Pessoa

até o fundo de mim.

 

Corrói folha por folha

e a emoção – esta capa usada

que me ficou de sobra.

 

Trabalha concentrado em seu túnel de papel,

labirinto de palavras

que não decifra, mas devora.

 

Corrói os English Poems

e nunca termina

sua corrosão térmita.

(Em Epithalamium, cada fonema,

indecente,

lhe serve de teta,

noivo recente.)

 

O cupim, em sua fome,

destrói

a celulose e o homem,

a cola, o corante,

o amante,

e não tem fim. 

 

Eu e Pessoa, sim.

 

 

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