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LEITURA

 

 

 

 


 

 

Agnus Dei

Sérgio Luiz Bichara

In nomine patris, et filii, et spiritus sancti

 

Para Ana

 

No meu entender,

 a dor silenciosa é muito mais temível.

 Samuel Beckett

 

 I

 

 Olhar estrangeiro

 

Nos dias de férias de verão eu costumava ir à Arquidiocese de Vitória, próximo à rua em que eu morava na cidade alta. O pátio da Arquidiocese, que abrigava as acomodações dos padres que ali se hospedavam, era um jardim amplo e dava para os fundos dos estúdios da Rádio Capixaba, pertencente ao Arcebispado. Tinha anexa uma pequena capela e uma quadra de futebol de salão. Eu gostava de ir ali para jogar bola e também ver de perto os locutores transmitindo os programas da rádio.

 

Na primeira vez que lá estive, com minha turma do ginásio, fui fazer um trabalho de História sobre o Concílio Ecumênico Vaticano II, o segundo concílio dos tempos modernos, convocado pelo papa João XXIII, que tinha, entre outros objetivos, a renovação da fé. Chamava a atenção, dispostos logo na entrada do Arcebispado, dois quadros grandes onde se lia, em um deles, "A fé católica move o mundo" e no outro, bem embaixo de um retrato de Paulo VI, "Representante indiscutível de Deus".

 

Numa tarde de janeiro de 1967, ao chegar lá, encontrei um padre que vinha do pátio e me saudou ao entrar no estúdio. Era alto, de olhar estrangeiro e, pelo sotaque latino, ignoro se tinha o espanhol ou o italiano como língua materna. Pilhérico, aparentando mais de sessenta anos, usava barba e vestia uma batina surrada, com cerzidos e remendos, de um negro desbotado. Andava em círculos pelos jardins com uma bíblia na mão. Depois de responder à sua saudação de boa tarde, iniciamos um diálogo curto, que começou com indagações sobre o livro que levava e acabou na capela, vazia com o calor de verão, onde sentamos lado a lado, logo no primeiro banco.

 

O padre segurou o Agnus Dei que eu levava no peito e, descobrindo-me católico, fez considerações sobre a medalha que eu usava. Perguntou há quanto tempo eu a tinha e, após ouvir a história de minha primeira comunhão, passou a falar sobre Tomás de Aquino, que eu não sabia quem era. A mão grossa de dedos gordos deixou a medalha e pousou sobre meu colo, coberto por um calção folgado, que logo senti avolumar-se junto com minha timidez. As palavras proferidas sobre o direito divino que não anula o direito humano, zumbindo confusas em meu ouvido, coincidiram com a mão deslizando para dentro do calção e o gozo precoce.     

 

Eu tinha acabado de fazer treze anos e ignoro, se até aquele dia, já ouvira falar em pederastia entre os párocos. Não senti qualquer remorso, arrependimento ou sensação de desprazer nos dias que se seguiram. Simplesmente porque desconsiderei que tal fato tivesse acontecido comigo. Como um bloqueio, recurso da imaginação infantil, nem a fisionomia do padre eu conseguia lembrar. Recordava o lugar, a bíblia, a cena em pormenores, as palavras do padre, a delícia daquele terror. E que a mão que me apalpava era a mesma que segurava a hóstia, que dava a benção. Mas do rosto do padre não veio nenhuma manifestação de minha memória. Também só fui capaz de compartilhar este segredo em minhas sessões de psicanálise que aconteceram muitos anos depois, quando, renascido e já liberto dos temores e dogmas católicos, passei de objeto a sujeito e pude celebrar a fé inabalável em meu ateísmo, que aconteceu, no espírito de alguns exegetas, unicamente devido à experiência incomum que eu vivi, mimetismo que, do mais profundo radicalismo, não compartilho. Não fui em busca do ateísmo, sem querer achei-o em mim. E não se torna ateu, ou passa-se a crer, por meio de simples atendimento a solicitações imperativas, tais como "ame essa mulher" ou "odeie aquele homem", invocadas a pessoas que nunca se viu ou de quem se ouviu falar. Creia-se no amor ou no ódio, mas o amor é uma palavra que engloba uma grande variedade de sentimentos. O amor como emoção, é a esse que me refiro, porque o amor como princípio não me parece autêntico.

 

Enfrentar os dias que se seguiram mantendo o que aconteceu em sigilo seria difícil até mesmo para um adulto e quase impossível para mim. Assim, eu usei a tremenda imaginação que as crianças possuem de fugirem mentalmente, fingindo que tal coisa não aconteceu, apagando-a da mente ou amortecendo meus sentidos em relação ao assunto. Mas apesar do susto e dos sentimentos confusos, minha fé não se esvaneceu. Mas ainda creio que meu rompimento com os conceitos da igreja católica tenha se iniciado muito tempo antes desse episódio.

 

II

 

 Primeira Comunhão

 

No dia de minha primeira comunhão ganhei um livro colorido, com ilustrações dos dez mandamentos e uma medalha de Agnus Dei, que passei a usar como proteção contra os diversos males e perigos. Quando estudei o catecismo, com nove para dez anos, era enorme a minha vontade de querer saber detalhes das histórias ensinadas como factuais, entender as diversas falácias, decifrar o sentido figurado dos enigmas bíblicos. Minha timidez incorrigível, aliada ao temor do pecado e à falta de coragem foram suficientes para eu concordar com qualquer argumentação de Dona Esther, a professora de educação religiosa, que quase sempre terminava suas explanações ratificando ser inquestionáveis as vontades de Deus, que vê e conduz todas as coisas. Usava sempre as palavras do Evangelho, que o seu espírito sopra onde quer, e não se sabe de onde ele vem nem para onde ele vai.

 

Eu era assíduo às aulas de catecismo preparatórias para a primeira comunhão, que frequentava duas vezes por semana na Catedral. Todos ali partilhavam a mesma fé, todos conheciam os mesmos ritos. Nos bancos daquela igreja aprendi qual era a sensação que experimentávamos quando da presença de Deus: sempre que sentíamos arrepios, era porque ele estava mais próximo, bem ao nosso lado, em conversa com nosso anjo da guarda. Tomando aquela afirmação como verossímil, pude constatar a supérflua presença divina inúmeras vezes, até mesmo antes do banho em dias mais frios de inverno, o que sempre excitava minha curiosidade.   

 

Aprendi também que, durante a comunhão, era absolutamente proibido qualquer movimento com a boca que deixasse a hóstia sagrada tocar os dentes. E, em hipótese alguma, deveria receber o corpo de Cristo sem estar em completo jejum, nem lançar da boca cuspo ou outra substância líquida após deixar a igreja em um dia de comunhão. Procurei seguir à risca essas regras dogmáticas e parecia que nunca iria falhar quando, numa manhã de domingo de missa, deixei na calçada a marca de minha saliva, antes de chegar em casa, faminto, pensando no café da manhã que me esperava. Tomado de um pânico vil, decidi imediatamente voltar à igreja, procurar outra vez o confessionário para livrar-me daquele sacrilégio. Após o gesto instintivo de me benzer, fazer o sinal da cruz, pronunciar as palavras que sabia de cor - Em nome do Pai e Filho e Espírito Santo; senhor padre, dá-me a bênção porque pequei; amém – e confessar minha falta, tive como penitência rezar ave-marias e pais-nossos, mas impedido de nova comunhão naquela manhã.  Ainda genuflexo, pronto a levar as mãos para limpar os joelhos, ainda pude ouvir que a vontade de Cristo era mais importante que a dos homens.

 

III

 

 Pecado Mortal

 

De todas essas histórias nenhuma se compara, porém, à de um sonho que tive com minha mãe. Tenho consciência de que esse pesadelo representou a primeira dor psíquica, dor da alma comumente chamada, pungente e quase insuportável, de que tenho lembrança. Estava em férias de verão, longe de minha família, em casa de praia de meus tios. Ao despertar uma manhã, depois de um instante de consciência e alívio por aquelas recentes lembranças aflitivas não passarem de fantasia, a dor muda e profunda de ter sonhado dando um beijo erótico em mamãe me envolveu completamente e quase me fez desfalecer. Estava em pecado mortal e senti que era absolutamente improvável que isso já tivesse acontecido com algum cristão. A vergonha e o temor de um castigo divino iminente eram tão vorazes que, nos dias seguintes, quando conseguia dormir, ficava com medo de nunca acordar.

 

Esse grito lancinante da alma, dor silenciosa e impossível de ser compartilhada, fez prevalecer a decisão de contar todo aquele dilema a um padre. Na igreja do lugar, onde procurei em vão por um confessionário, fui parar numa sala anexa à sacristia onde, devido às reformas na capela, estavam sendo ouvidas as confissões. Haviam colocado duas cadeiras, dispostas muito próximas, de modo que o confessor e o teísta permaneciam frente a frente durante a confissão. Da fila enorme pude observar que, mesmo com o padre de cabeça baixa e a mão apoiada no queixo, sem procurar fitar o fiel, a ausência de um genuflexório tornava o ambiente desconfortável. Tive a certeza que seria difícil pronunciar qualquer palavra referente ao sonho. E não consegui mesmo. Depois de dizer o último pecado da lista que levava comigo, quase sempre igual às anteriores, não encontrei meios que pudessem dar-me coragem suficiente para relatá-lo. Ainda sentado, em vez de falar, ouvi de um padre compreensível de sotaque nordestino, "Não se aflija, filho, não se aflija. Agora, vá". Mas não fui. Em mais uma tentativa de tornar suportáveis aquelas lembranças apavorantes, aquele exaustivo esforço mental, apenas consegui retrucar, num gesto vago, que estava triste por estar prendendo meu canário na gaiola. Ouvi que ter um passarinho em casa não era pecado. Desolado, saí da igreja para ir embora, tentar esquecer aquele jogo feroz de cabo-de-guerra, voltar para casa. E voltei à fila da sacristia. Novamente em frente ao padre, mais uma vez sem conseguir nada dizer. Compreendendo minha aflição, fitou-me e resmungou: "Esqueceu-se de algo, filho?", quando, desprotegido e num esforço inútil, murmurei "São dois canários, padre". Senti que estava definitivamente derrotado. Cansado e trôpego, fui para casa sob um céu de desastre.

 

O pecado é sutil. Nasce muitas vezes da virtude ou de um ato que parece inocente. Eu costumava pensar em todos os pecados passíveis de serem cometidos e passei a classificá-los conforme os ensinamentos das aulas de catecismo: brigar com meu irmão - venial, desobedecer a papai e mamãe - mortal, faltar a missa aos domingos - venial, dizer o nome de Deus em vão - mortal, não estudar - venial, falar nome feio - venial, pensar ou praticar indecência - mortal (pecado que, graças aos bloqueios mentais que todos nós erguemos em relação a fatos que não queremos ver ou ouvir, foi sumariamente desconsiderado quando descobri e passei a experimentar a deliciosa experiência da masturbação). Mas o gozo de um beijo erótico na boca da mãe não podia ser comparado a qualquer fantasia que me levasse ao êxtase por um decote ousado ou pelas pernas de fora de uma mulher em uma revista ou no cinema. Não representava apenas um pecado mortal grave, o que viola a lei de Deus em matéria grave e leva à danação da alma, mas tornava-me também um filho indigno, condenado, excluído.

 

 IV

 

 Missa

 

Meus pais não eram frequentadores contumazes da igreja. Mas também não eram católicos de parva devoção. Em determinadas ocasiões, eram condescendentes em relação à minha ida à igreja para as missas do fim de semana. Com exceção de poucos domingos e feriados da semana santa e natal, que insistiam que eu fosse "cumprir minha obrigação". Eu detestava as missas das manhãs de domingo, ou porque tinha que acordar cedo ou porque perdia o lugar nas peladas da minha rua. Na verdade eu odiava missas, celebradas em qualquer tempo, dia ou horário. O cheiro acre de vela, o canto do padre em uníssono com os fiéis, os lamentos infantis, o sermão de retóricas proselitistas, as orações, a salvação do porvir, a multidão discutindo seus deveres  com Deus, as pessoas ajoelhadas confessando-se miseráveis pecadoras, a eucaristia, a presença real de Deus numa hóstia, a exaltação à água benta, o sofisma de céu e inferno, a redenção e a celebração da volta iminente de Cristo irritavam-me de maneira intensa.

 

Eu sabia de cor as orações aprendidas. Podia dizer toda a ave-maria, o pai-nosso, o credo e a salve-rainha, apesar de pouco ou nada entender o que significavam aqueles textos ou os mitos da bíblia. Outras doutrinas que tentava em vão compreender foram a do pecado original e a do mistério da Santíssima Trindade, enigmas indecifráveis. O dogma da união de três pessoas distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, em um só Deus deixava confusa minha cabeça. E eu teria que considerar todos aqueles ritos para salvar-me de quê? E não alimentamos nossas expectativas de sonhos e fantasias porque a realidade que constatamos nunca nos satisfaz?  

 

Passei a assistir às missas aos sábados à tarde, quando soube que essas eram tão importantes e válidas como as de domingo, o que era um alívio iminente. Foi ainda melhor quando descobri que alguns conhecidos de mamãe e papai chegavam à missa apenas momentos antes da celebração do Evangelho, o que, afirmavam, não diminuía em nada sua validade, maravilhoso subterfúgio que passei a utilizar desde então. 

 

Lembro-me de que naquele tempo não era permitido a mulheres entrar na igreja de calça comprida. Ainda recordo o diálogo entre Dona Zulmira, minha professora do terceiro ano primário, com a coordenadora da escola em que eu estudava. Deísta, a coordenadora repetia que a imponência e a proibição do Vaticano representavam a “apoteose da hipocrisia”. Aquelas palavras, para mim, eram indecifráveis. Eu não sabia o que era apoteose, e, menos ainda, hipocrisia, até chegar em casa e ouvir de mamãe o que significavam, junto com seu comentário de reprovação. Por muito tempo passei a olhar a coordenadora com desconfiança e estranheza até o dia em que soube que, devido a um desentendimento com a direção da escola, tinha ido embora. Em desvario, pude constatar que ninguém podia livrar-se da justiça divina.

 

V

 

 Bênção

 

Na época em que prestei o vestibular, substituí a medalha de Agnus Dei por um crucifixo que passei a contar como ajuda para minha aprovação no exame.

 

Quando mostrei a papai, levantou cuidadosamente a cruz de meu peito e, sem emitir qualquer opinião, perguntou se já havia sido benzida. Diante meu gesto de incerteza, balançou comedidamente a cabeça e afirmou que, sem a bênção de um sacerdote, aquilo não passava de um objeto desprovido de valor. Procurei o padre Zorzal, do curso que eu frequentava, que segurou o crucifixo e em questão de segundos gesticulou o sinal da cruz pronunciando palavras em Latim e Português, de que só pude entender "redimir pelo sangue de Cristo", dando vida àquele objeto inócuo até então.

 

Considero esta uma de minhas últimas lembranças como católico. Já havia abandonado a confissão e deixado de receber a comunhão desde o ano anterior, época que costumava ir à capela do colégio só para rezar em véspera de exames. Para ir mais tranquilo e protegido para as provas do vestibular, fui orientado a trancar-me sozinho dentro do quarto e, como uma fórmula encantatória de invocar a Deus, de olhos fechados dizer seguidamente, à exaustão, o nome de Jesus Cristo, prática logo abandonada depois que chamei o nome uma dúzia de vezes. Minha frágil fé nos deuses dos homens, se algum dia realmente existiu, havia definitivamente chegado ao fim. Per omnia saecula saeculorum.

 

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