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OK New Orleans

 

Fernando Achiamé

 

Para o Clube de Jazz das Terças

                                   

Quem primeiro soprará um pistom na nova Nova Orleães?

E que orquestra será essa a tocar num combo monstro

A mistura gumbo extra mais arroz com feijão e festa?

Ah! New, New, New, New Orleans! volta a cantar o clarinete.

Oh! Nova, Nova, Novíssima Orleães! o trombone de novo pontua.

Terá sido o Katrina um solo de sopro mais animado

Que os negros dos tempos de antanho fizeram

Para nos lembrar que o jazz surgiu da diferença?

 

Hausto inicial, suspiro derradeiro

De uma Nova Orleães que não existe mais.

Diversa cidade já se apresenta e colhe do ar

Nova Outra Orleães

Renovada Orleães

Sempre e sempre

Rainha do Mississipi

Senhora do Delta

Pérola do Golfo

Jerusalém Liberada

Roma Crioula

Meca Jazzística.

Eis o tempo da renovação.

 

Eis o tempo do reinício.

O Aeroporto Internacional Louis Armstrong reabriu

E já recebe um voo comercial.

Ah, Louis! Louis da Louisiana!

O teu aeroporto nada sofreu

E permite que continues

Pelo mundo do Nada que é Tudo

A trompetear teu redondo som!

Reabriu o Aeroporto Internacional Louis Armstrong

E já recebe um voo comercial...

Quantos mais choraram ao saber?

All night long podeis chorar blues, men.

Temos também o braço forte, Armstrong

Para afinarmos nossos ouvidos

E escutá-lo no infinito de sempre.

Somos todos crioulos, somos todos comedores de gumbo

E queremos volutear em outros, muitos outros Mardis Gras.

 

Terças-feiras gordas nos deem igualmente

As puras irmãs de todas as Novas Orleães.

Putas tão puras como a Virgem de Orleães do Loire

Herdeiras de sua coragem para fazer a vida.

Qual a diferença? Não há diferença alguma.

Em verdade, em verdade vos digo

Não há diferença alguma

Por fazermos a vida ou a desfazermos

Ao sabor dos amores e indiferenças

À vontade das ondas e temporais.

New New Orleans, nem um furacão pôde contigo!

Nem um furacão pode contigo, nova Nova Orleães!

 

Também te conhecemos um pouco, Nova O.

Não pelos nobres de Orléans e Bragança

Que pelo Brasil passaram tranchãs brincando de nobreza.

Te conhecemos nobre negra vinda da costa d’África

De mistura com cocotes francesas e gringos diversos.

 

E no meio da nossa guerra civil que teimamos em disfarçar

Teríamos muita coisa pra te dizer, New Orleans.

Piancó, Piancó, é o nome da cidade que me ocorre

E não recorro à memória pra saber se é da Paraíba ou do Ceará

Nem me socorro de um google qualquer para conhecer mais

Pois tenho certeza que o meu pesado coração

Esquece por uns tempos as misérias brasileiras

E somente se interessa por ler que bombas d’água

Sugam a toda sede o líquido que o Katrina

Deixou dentro de ti, New Orleans.

A Norfolk Southern já restaurou 18 km de trilhos

E recuperou uma ponte sobre o lago Pontchartrain

Para de novo o trem chegar até você.

O porto passou a operar e os primeiros navios

Vêm da Argentina, Brasil, México

Carregados de madeira compensada, de um tudo

E de latinidade jamais esquecida em Nova Orleães.

Até a morte pode ser alegre na cidade da vida alegre

E atrás do cortejo da falecida N. O. voltam a entoar

Coros de louisland que são todos ressurreição.

Laissez les bons temps rouler.

 

E um governo bisonho não cogitou

De se transferir para junto de você

Montar acampamento até as águas baixarem

E o espírito de Deus soprar jazz em brisas mansas.

Do you know what it means to miss New Orleans?

Se o governo-mais-preocupado-com-petróleo não merecer

New Orleans da Louisiana – NOLA

Ela será rebocada para a costa petroleira do Espírito Santo

E trocada por petróleo.

Nós ficaremos com Nova Orleães sem mais tempestades

Eles saberão o que significa sentir saudade de New Orleans.

 

O que és, afinal?

Outra Veneza subaquática?

Errática Amsterdã?

Recife na borda do Caribe?

Macau atlântica?

Nada disso és, New Orleans

Tudo isso és, New Orleans.

Me espantei ao saber-te abaixo do nível d’água

Qual arca pós-diluviana adernada no golfo.

Teus diques são feitos de miséria

Igual a muitos outros lugares da Terra.

Porque tudo se liga a paz virá um dia.

 

Porque tudo se liga a paz virá um dia.

Nova Orleães, Meca do jazz ainda

Pois quem foi algo sempre tem majestade.

Você, meu irmão, pode morar em Yokohama, Maputo

Viver em Melbourne, São Paulo, Atenas, Novgorod

E todos os caminhos o levam a New Orleans

Cidade universal, Roma, Roma do jazz.

Quando dizem “Eis o mistério da fé” Roma vive

New Orleans está onde um trompete vibra mistérios da vida.

Ou um sax, porque não é proibido que eles toquem

Nas noites de New Orleans.

Porque tudo se vincula a paz virá um dia.

 

Porque tudo se vincula a paz virá um dia.

Eat white rice and red beans any day at New Orleans...

Outra boa mistura: a jambalaya nova-orleanesa

Porco, camarão e frango – de mistura com arroz e pimenta

Terra, mar e ar – junto com alma e espírito

É para se degustar a música e ouvir a gula.

Gumbo – espécie de caruru em outra língua.

Você já foi à Bahia?

Não?

Então vá!

Não pela Internet!

Mas coma caruru!

E, homo sapiens, somos todos crioulos

Todos falamos crioulo

Comemos comida crioula.

Ou por acaso existe mescla humana

Que não seja uma forma de improvisar

Sobre a constante reinvenção de nós mesmos?

Nova Orleães está aí pra nos dizer

Que somos pura mistura

E também por isso a paz virá um dia.

 

A paz virá um dia. Por enquanto

A linguagem universal do inesperado

Nos encaminha a Jerusalém Libertada

Nos obriga a voltar a Jerusalém Reconquistada

Nos leva de novo a essa Jerusalém Terrestre.

The Crescent City – numa grande curva do Mississipi.

The Big Easy – onde os músicos sempre se viravam.

The City that Care Forgot – com um povo sem frescuras.

E nesse constante remixar-se

Nos conhecemos nos fazendo de repente.

Juntos tocamos um tema qualquer da vida

E dele saímos para os improvisos da vida

A ele voltamos nos afinando com a vida

Não é à toa que o jazz imita a vida

E New Orleans é tão querida.

Impromptu sempre o impromptu

Sempre sob os olhos, sob a mão

Por isso Nova Orleães pertence a todos nós

E é especial.

O Katrina passou

Our New Orleans is here to stay.

 

E aqui deve vir parte de um e-mail:

André, favor incluir em OK New Orleans:

Ó felicidade, secreta e indizível!

És feita de quantos momentos?

Somente dos que nos darão saudade.

Sentiremos falta da torta de limão

Servida no Clube de Jazz das Terças

Junto com nossas implicâncias

E para nos fazermos felizes?

Helàs, c’est la vie.

Disso New Orleans entende também.

 

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ah, New Orleans!

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ok New Orleans

Ok New Orleans

 

Chega!

Porque o Katrina acabou e

Nossa nova Nova Orleães veio pra ficar.

Porque tudo se comunica a paz virá um dia.

Também pra ficar.

 

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