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Uma curta palavra sobre A longa história

 

Luiz Romero de Oliveira (Salsa)

 

Walter Benjamin havia observado, no início do século XX, com alguma melancolia, que a sua época estava marcada pela incapacidade de contar estórias. Já não era possível ouvir relatos e partilhar as experiências vividas por si ou por outrem, descompromissados com o tempo, em torno de fogueiras ou nas oficinas manufatoras. O ambiente moderno – com suas fábricas, automóveis, velocidade tecnológica, unidos ao discurso utilitário – estava sepultando a habilidade milenar de narrar eventos, reproduzir mistérios, trafegar por lugares distantes e desconhecidos.

 

Reinaldo Santos Neves, em sua Longa história, parece se compadecer e ao mesmo tempo relutar com a melancolia do pensador alemão. Reinaldo, como um bom contador de estórias, resiste ao presságio de Benjamin. Ele se imbui, então, da tarefa de nos transportar a um universo no qual contar estórias está intimamente ligado à sobrevivência dos homens. Com uma estrutura narrativa medieval e num ambiente idem, que nos permite pensar em Decameron e em Contos de Cantuária devidamente relidos numa perspectiva borgiana, o autor capixaba constrói um texto envolvente perpassado de paixão pelas letras e pelas histórias ­– uma voraz paixão por histórias, melhor dizendo – que nos faz repensar o lugar por elas ocupado em nossas vidas.

 

Os personagens desse bem-vindo romance – escribas, monges, prostitutas, salteadores e nobres – são seduzidos e seduzem com a arte de narrar. É com ela que eles conseguem se manter vivos num mundo que se mostra prenhe de armadilhas. Armadilhas que são forjadas também por histórias. É com elas que Reinaldo Santos Neves transforma o seu romance em um labirinto que guia astuciosamente o olhar do leitor no sentido da reapropriação daquilo que Benjamin considerava perdido: o prazer de contar e ouvir estórias.

 

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