Maria Stella de Novaes e a cultura capixaba

 

Fernando Achiamé

 

Iracema Moraes de Matos era minha tia-avó, e de fato avó social, pois criou três dos seus sobrinhos: meus tios Dicamor e Pedro, e minha mãe Felisbina (Bina), órfãos de pai e mãe desde bem pequenos. Vovó Iracema era casada com Arnulfo Matos e muito amiga de Maria Stella de Novaes, a quem chamava de Stellinha, e que a mencionou em seu livro A mulher na história do Espírito Santo. Ainda criança, conheci dona Stellinha no apartamento dos meus avós, no quarto andar do Edifício Presidente, no centro de Vitória. Logo me encantei com aquela pessoa diferente, que falava de modo distorcido e num tom alto, por ser surda. Com cabelos curtos, mais brancos que grisalhos, de porte empertigado e com voz firme, a figura de dona Stellinha nunca mais me fugiu da memória, devido também às constantes referências que a ela faziam meus familiares.

 

A partir da adolescência, já acostumado a ler jornais e revistas, acompanhava com interesse os artigos que ela publicava em A Gazeta sobre temas da nossa cultura. Quando optei por fazer o curso de história, entrei em contato com suas obras, em especial a História do Espírito Santo. Recém-formado, assumi a direção do Arquivo Público Estadual e, aos poucos, pude contar com a colaboração de competente e dedicada equipe de servidores para dinamizar os trabalhos da importante entidade. A essa equipe veio se juntar Maria Cecília Lindenberg Coelho Soares, que enviuvara recentemente e, bibliotecária formada há algum tempo na Biblioteca Nacional, queria trabalhar nessa atividade. Muito contribuiu para modernizar a instituição; era parente de dona Stellinha pelo ramo dos Souza Monteiro. Orgulho-me de ter criado a biblioteca de apoio do Arquivo Público a que denominei “Mário Aristides Freire”, numa homenagem à memória do grande capixaba que tanto amava sua terra natal, e os documentos e livros que com ela se relacionassem. Quando ocupou a Secretaria do Interior e Justiça, em meados dos anos 1940, Mário Freire prestigiou o Arquivo Público, então vinculado àquela pasta, e promoveu até mesmo a edição de obras de interesse para a história do nosso Estado.

 

Sabedor que dona Stellinha tinha ampliado sua biografia de Jerônimo Monteiro, editada originalmente em 1960 por um órgão federal, empenhei-me para que o governo do Estado publicasse os originais, como forma de promover um tributo de gratidão ao fundador do Arquivo Público. O trabalho fora revisto, bastante aumentado e premiado no concurso promovido pelo Conselho Estadual de Cultura em 1970. E, assim, meu relacionamento com a ilustre historiadora se estreitou. Fui, inúmeras vezes, até sua residência, situada à rua Coronel Monjardim, perto da igreja do Carmo, para com ela discutir detalhes da edição e outros assuntos de nosso comum interesse, vinculados à história capixaba. Devido a sua surdez, procurava falar de maneira pausada para que ela pudesse ler meus lábios. Mais frequentemente, redigia o que queria indagar ou observar num bloco de papel existente em sua sala de visitas; e ela, após ler o escrito com uma lupa, dava as respostas requeridas ou comentava o tema a ser debatido. Essas anotações estão ainda na posse do historiador João Eurípedes Franklin Leal, que ficou com uma parte do acervo da pesquisadora após seu falecimento.

 

Num tempo de muitas dificuldades para se publicar livros em Vitória, consegui autorização do governo estadual e acompanhei na gráfica da Fundação Ceciliano Abel de Almeida da Ufes a impressão do livro Jerônimo Monteiro – sua vida e sua obra, para o qual fiz pequena apresentação. No dia do lançamento, em 1979, estiveram presentes no Arquivo Público: a autora, radiante e vestida com elegância; o jurista Clóvis Ramalhete, antigo amigo dela e prefaciador do livro; o governador Eurico Rezende (na contracapa consta o nome do seu antecessor imediato, em cujo período de governo a impressão teve início), secretários de estado e outras autoridades; além de parentes e amigos da escritora. Acredito que esse tenha sido o último lançamento de uma obra de sua autoria a que compareceu.

 

As conversas com dona Stellinha prosseguiram por algum tempo e, com isso, muito me beneficiei do seu domínio sobre temas capixabas. Em sua companhia e da fiel empregada, conheci o cômodo onde guardava os livros e documentos, e o orquidário nos fundos da residência. Fazia parte da sua atitude perante a vida criticar algumas inovações, inclusive linguísticas (“Não se deve falar cidade ‘de’ Vitória, mas cidade ‘da’ Vitória!”, exclamava), e o comportamento de certos homens públicos (“O governante que erra, cai”, dizia). E também relatar as ocasiões em que sofrera injustiças nas diversas circunstâncias da sua já longa existência (“Não quero ser homenageada depois de morta com nome em escola, essas coisas”, garantia). Em certa ocasião, afirmou ter instruído os parentes para queimarem seus livros e papéis quando morresse, o que interpretei como um simples desabafo. Mas, com o respeito devido, escrevi uma resposta, encerrada com conhecido provérbio “Defunto não tem vontade”, para defender minha posição de que todo seu acervo deveria ser cuidadosamente preservado. E ela, após empunhar sua lupa e ler minhas ponderações atrevidas, reagiu rindo. Enfim, fizemos uma boa amizade. No entanto, os deveres de chefe de família e servidor público não me permitiram visitá-la com a frequência que desejava.

 

Com a morte da escritora, em 1981, sua família logo se preocupou em desocupar a casa para no local construir um pequeno prédio. E se predispôs a doar um conjunto de documentos pessoais e a coleção de livros. Trabalhei para que o Arquivo Público recebesse essa doação, sobretudo das obras impressas que, além de muito preciosas, perfaziam o volume maior do acervo, no que fui bastante ajudado por dona Cecília Lindenberg. Relembro muito bem dos servidores do Arquivo Público, na antiga casa de dona Stellinha, e com grande cuidado, fazendo a limpeza e a listagem de cada volume e, em seguida, embalando-os e transportando-os para a repartição, então situada à rua Pedro Palácios, na Cidade Alta. Com essa grande doação, de imediato a biblioteca de apoio da instituição teve seu nome alterado para “Maria Stella de Novaes”, que mantém até hoje. Passados alguns meses, a família dela solicitou ao governo do Estado uma compensação financeira pelos livros e documentos doados. Recordo que informei o processo de modo favorável e o devolvi à instância decisória superior. Mas, em 1983, me afastei da direção do Arquivo Público e soube, somente muito tempo depois, que aquela solicitação tinha se perdido nos escaninhos da burocracia estadual e não dera em nada.

 

Maria Stella de Novaes constitui-se em personalidade muito importante para a cultura do Estado do Espírito Santo por diversos títulos, que podem ser resumidos numa palavra – pioneirismo. Ela foi pioneira na luta pela emancipação feminina, pela valorização da mulher que, a seu sentir, devia se ombrear com os homens em todos os campos da sociedade – na educação, no trabalho (especialmente nas profissões liberais), na política, nas letras e artes, enfim, nas mais diversas funções sociais. Pioneira ainda na renovação de práticas pedagógicas direcionadas especificamente às crianças. Também pioneira em nosso Estado no estudo dos moluscos (malacologia) e das orquídeas, sempre procurou defender e incentivar a pesquisa em duas importantes áreas do conhecimento: de um lado, a flora e a fauna; de outro, as manifestações folclóricas existentes em território capixaba. E, assim, foi professora, mentora e incentivadora de muitos capixabas, distinguindo-se entre eles Augusto Ruschi e Guilherme Santos Neves, renomados estudiosos do meio ambiente e do folclore, respectivamente.

 

Ela se dedicou de forma constante a produzir trabalhos historiográficos sobre o Estado do Espírito Santo, que considerava sua terra natal, pois nele foi criada, apesar de ter nascido em Campos dos Goytacazes. Esses trabalhos também são pioneiros, pois abordam questões que, naquele tempo, eram pouco valorizadas, a exemplo da importância social da mulher, do escravo e seus descendentes, e da sabedoria popular. Sua obra historiográfica se distingue por outro aspecto: foi produzida por pesquisadora que muito conhecia e muito amava sua terra e sua gente. A partir de certo período histórico, e na abordagem de diversos temas, as pesquisas de Maria Stella de Novaes se transformam em depoimentos sobre o que ela vivenciou. Ou do que soube por fonte segura, por quem presenciou os fatos. Valeu-se de muitas informações estampadas em jornais e revistas publicados no nosso estado – ao enfatizar os acontecimentos locais e regionais, tinha por objetivo o aumento da autoestima dos seus conterrâneos.

 

Dona Stellinha teve uma vida de certa forma sofrida, pois perdeu o pai muito cedo e foi criada com bastante rigor. A partir de certo momento, esteve sob a proteção do seu tio materno, dom Fernando de Souza Monteiro, bispo do Espírito Santo. Católica fervorosa, nunca se casou. Tinha uma personalidade independente e venceu na vida por seus próprios méritos. Era uma mulher de fibra, dinâmica, de atitudes firmes e por vezes inflexíveis, mas dotada de muita sensibilidade, tendo deixado também um livro de poemas. Diversas de suas obras historiográficas, com destaque para a História do Espírito Santo, merecem ser reeditadas, de preferência acrescidas de estudos críticos.

 

Vitória, Dia de Reis, 2016.

 


Fernando Antônio de Moraes Achiamé pertence ao Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e à Academia Espírito-santense de Letras.

 

 

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