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Na livraria

 

Tenho, desde cedo, o hábito das livrarias. Está certo, era um hábito difícil de manter na São José do Calçado dos anos 70, afinal não havia livraria na minha cidade. A primeira de que me recordo ficava em Bom Jesus de Itabapoana. Chamava-se Gráfica Gutemberg, vendia artigos de papelaria e, claro, livros, já que era uma livraria. Mas meu acesso a ela era muito restrito. Minha mãe facilitou minhas visitas depois de um dia em que, exasperada, perguntou-me, “mas o que você quer aí?”, e respondi singelamente: “livros”.

 

Depois, experiência única e desastrosa de um livreiro visionário e disposto a correr altíssimos riscos, abriu-se uma livraria em São José do Calçado. Não tinha nome nem placa, provavelmente ninguém se lembra dela, mas ficava na ladeira Getúlio Vargas e durou três meses: fui o único funcionário da livraria e possivelmente o único que dela dá testemunho e fé. Graças à incapacidade do livreiro de me pagar os salários ao final de três meses de árida existência da livraria, recebi-os em livros, formando minha primeira biblioteca.

 

Livrarias são um marco da humanidade e da civilização. Não importa quão simples, quão pequena seja, a livraria será sempre o lugar sagrado. O que poderá substituir o gozo extremo de encontrar, naqueles bancões de promoção das grandes livrarias, o volume Rua, de Miguel Torga? Ou de desfrutar do prazer de um amigo gerente de livraria ao me mostrar uma caixa com a obra completa de Maupassant dizendo “pague como puder”?

 

As livrarias estão acabando, dizem os pessimistas. Estão não, digo eu, e digo eu que nem sou tão otimista assim. Sempre haverá livrarias e sempre haverá histórias entre suas prateleiras de peroba mica. Permitam-me contar-lhes uma dessas. Assim foi:

 

Há uma livraria em meu bairro, considero-a a área de lazer de meu condomínio. Encontrava-me lá tarde dessas, sentado a uma mesa instalada num grande espaço de onde se veem várias estantes. Bebericava um café e folheava uns livros quando entraram três jovens mulheres. Três jovens mulheres significam meninas de 22, 25 anos. Uma delas, muito atraente, tinha o jeito de caminhar e jogar o cabelo das verdadeiras mulheres. Muito segura de si, transformava as outras duas em seu pequeno e insignificante séquito. E parecia muito segura também do que queria, ou seja, um livro – simples assim. Mas – é incrível – foi diretamente à série Cinquenta tons espelhada em cima de uma das estantes. Pensei comigo: uma jovem esposa já entediada. E beberiquei meu café preparando-me para despejar-lhe um olhar de desprezo, fingido, é claro, caso ela olhasse para mim. Compromissada e já triste, concluí. Pois sabeis vós o que veio a seguir? Não imaginais o delicioso tédio com que ela mal tocou qualquer um dos livros da série, lançando às prateleiras o tépido olhar de quem sabe o que quer. Voltava a me interessar, claro, quando uma de suas amigas disse depois de vê-la compulsando vários volumes:

 

­– Escolha logo esse livro, está ficando tarde – tinha a aflição das atrasadas.

 

– Para que você quer tanto um livro? – perguntou a segunda amiga, presa de idêntica aflição.

 

E ela, com a resposta na ponta da língua, redarguiu:

 

– Vocês conhecem o Arturzinho, não conhecem?

 

Compreendi de quem se tratava o Arturzinho, claro, facilmente.

 

– Vocês sabem que ele só pensa em trabalho, não é? – continuou ela.

 

Sei. E suas amigas também sabiam, porque assentiram.

 

­– Que querem vocês que eu faça nas longas e solitárias noites em que ele está trabalhando? 

 

Como as duas não compreendessem, ou não tivessem nenhum conselho para oferecer, ou tivessem medo de ofertar algum consolo à sua solidão, ou sei lá o que se passa na cabeça das mulheres, ela se apressou a esclarecer:

 

– Eu leio.

 


Texto originalmente publicado no caderno Pensar de A Gazeta em 25 de janeiro de 2014.

 

 

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