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Temporada de pêssegos

 

Dizem por aí que não gosto de futebol. Não é raro que me achem estranho. Impossível alguém não gostar de futebol, ainda mais em nosso país, o país do futebol. Dizem.

Não me acho estranho. Vamos lá: que futebol?, penso eu. O futebol das estrelas venais que à custa de nossa instituída cordialidade inflam seus bolsos e egos enquanto sonham com a Europa cheia de bananeiras? O futebol estilo pelada de várzea que exibem em pleno Maracanã domingo à tarde, sem nenhuma vergonha na cara? Afinal, para não parecer tão estranho, aceno com a possibilidade de que talvez venha a gostar de futebol. No dia, claro, e com o perdão desse saint-simonismo tardio, em que esses privilegiados profissionais passarem a ganhar o mesmo que um gari que varre a cidade – profissional que, aliás, é muito mais útil que a melhor das melhores estrelas dos estádios.

Post scriptum: e essa expressão “país de futebol”? Por acaso somos a China? Ou a Inglaterra?

Mas é necessário que esclareça que nem sempre tive birra com futebol e que já assisti ao melhor futebol do mundo, visto que caibo em minha aldeia e minha aldeia é uma forma consistente de mundo.

Pois em São José do Calçado havia um futebol extraordinário, cujas partidas se convertiam em clássicos domingueiros inesquecíveis. É preciso se diga que a cidade onde passei a infância e a adolescência tem dois – por favor, dois – estádios de futebol. Estádios mesmo, com bilheteria e arquibancada de alvenaria e muros. Não estou falando dos campinhos de várzea que se encontram às dúzias coalhados pelos mais de 272.000 quilômetros quadrados de área do município. Isso mesmo! Dois estádios, cada um com sua equipe. Na parte baixa da cidade ficava, e ainda fica, o estádio do Americano Atlético Clube, na parte alta, o estádio do Motorista Futebol Clube. O Americano era representado pela cor azul, o motorista vestia vermelho vivo.

E então? E então que eu torcia pelo Motorista. Por duas razões: meu pai, que gosta tanto de futebol quanto eu, era Motorista e aprendi a gostar do time com ele. Meu pai era tão ligado em futebol que quando lhe perguntavam por que ele torcia pelo time da camisa vermelha ele nunca sabia responder por quê – acho também que nunca assistiu a um jogo sequer, nem quando havia o clássico Americano e Motorista. Bom, a segunda razão é porque éramos um time marginalizado, os calçadenses, principalmente os de elite, preferiam o Americano. Meu irmão mais novo, contra as expectativas lá de casa, torcia pelo Americano.

Não perdíamos, eu e meu irmão, o grande clássico. Aliás não perdiam o jogo os calçadenses. Americano e Motorista era dia de estádio cheio. Preferíamos jogos no estádio do Americano. É que o estádio, por ser Calçado uma cidade fora de prumo, ficava bem embaixo no barranco onde terminava nosso quintal. Havia ali um enorme pé de amora, onde fiz dois bancos de madeira, assentos exclusivos para o grande embate. Ali em cima cabia toda a rivalidade entre Americano e Motorista representada por mim e por meu irmão. Que não piscávamos para não perder um só lance do jogo.

Tínhamos os nossos craques: Constantino (que me lembrou os nomes dos demais), Castanheira, Dudunga, Valdir, Ari Melo, Abrantes, Mauro no gol. Isso para ser injusto com meus outros heróis, todos camisas vermelhas do Motorista, no banco ou no gramado.

Mas, sejamos justos, nunca houve ninguém como Tide. Tide do Ataíde, que só tinha um senão: pertencia à equipe do Americano. Que jogador! Nunca se sabia onde ele estava, nunca se sabia de onde ele surgia. Tide era a dor e o tormento dos torcedores do Motorista. Numa mesma partida ele marcava ou armava gols fantásticos e fazia defesas impossíveis. Certa feita, depois de cobrir suavemente o goleiro do Americano, uma de nossas bolas ia quicando sozinha, sem nenhuma chance de não atingir o alvo, para o centro do gol adversário quando Tide, numa dessas suas aparições fantasmagóricas, tirou a pelota da linha do gol numa bicicleta inacreditável. A arquibancada veio abaixo, com gritos entusiasmados de torcedores do Americano e do Motorista. Todos, afinal, sabiam apreciar um belo espetáculo.

Meu interesse por futebol ficou cristalizado aí, no tempo desses eventos solidários e fraternos. Não sinto saudade, mas não desejo quebrar o encanto dessas partidas entre Americano e Motorista. Os estádios lá estão, outro dia visitei o Estádio Ernesto Campos da Fonseca, o estádio do Motorista, andei sozinho pelo gramado, tirei umas fotos, conversei com uns fantasmas, senti na pele o vento frio que vem do Jaspe. Não é raro que me achem estranho. E que não gosto de futebol.

Ah, sim, o que mais? Ia me esquecendo de que se avizinha a temporada de pêssegos. Quando entra setembro nos balcões de supermercados e quitandas se exibem as cores provocantes dos primeiros frutos. Os pêssegos. Afinal, os pêssegos e sua estação, este instante, são o que importam.

 

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